Elza e João no palco em 1988 - foto Hipólito Pereira/Agência O Globo/Deck

A delicadeza é o norte do álbum Elza Soares João de Aquino, em que a cantora se faz acompanhar apenas pelo violonista, que já a dirigira no álbum Negra Elza – Elza Negra, de 1980. Trata-se de uma gravação perdida, datada (com imprecisão) da segunda metade dos anos 1990, cuja relativa precariedade indica não ter sido imaginada para se transformar num disco efetivo. O documento lançado agora pela gravadora Deck é precioso, no entanto, por mais de um motivo.

De cara, o violão sutil de João de Aquino puxa as interpretações sempre estrondosas de Elza mais para o pé no chão. Com a voz quase nua, Elza soa intimista, à medida que isso seja possível para seu trovão. O atrativo maior, no entanto, é o ineditismo de 11 das 13 faixas na voz da cantora, com exceção apenas dos sambas “Cartão de Visita”, gravado em 1960, em seu primeiro álbum, e “Devagar com a Louça”, que ela gravara em 1967. Essa última está indisponível nas plataformas digitais porque aguarda a liberação do uso de citação a “Moonlight Serenade” (1939), de Glenn Miller.

A maior parte do repertório selecionado reflete o esforço que, nos anos 1990, Elza ainda tinha de fazer para se libertar das amarras do samba. João de Aquino, primo do também violonista Baden Powell, era outro que tentava se desvencilhar da obrigatoriedade sambista trabalhando com Doris MonteiroLeny AndradeMarisa Gata Mansa, Carmen CostaZezé Motta Carlos Dafé, mas sempre teve mais oportunidades junto ao samba, como compositor e/ou produtor para Ismael SilvaCartolaElizeth Cardoso, Carlos CachaçaMonarcoCandeiaClara NunesMartinho da VilaRoberto RibeiroDicró etc.

O arco mais amplo de estilos abordados aqui pela dupla aparece num rock-balada de Lulu Santos (“Como uma Onda”, de 1983), em duas baladas de Gilberto Gil (“Super Homem, a Canção”, de 1979, e “Drão”, de 1982, com Elza assumindo eu-lírico masculino em ambas), num samba-rock de Jorge Ben Toquinho (“Que Maravilha”, de 1969), numa toada moderna de Taiguara (“Hoje”, de 1969), no “Mambo da Cantareira” lançado pelo forrozeiro moderno baiano Gordurinha em 1960 e,  mais lá de trás, uma valsa de Lamartine Babo (“Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda”, de 1941).

O samba tradicional resiste em poucos casos, todos de modo menor: no clássico “Antonico” (1950), do fundador Ismael Silva, no moderno “O Meu Guri” (1981), de Chico Buarque, que Elza registraria oficialmente no álbum ainda sambista Trajetória (1997), e em “Canário da Terra”, composição de João de Aquino com Aldir Blanc, que o lançou em sua própria voz em 1996. Convertido agora em samba-jazz, “Canário da Terra” soa preciso na voz da artista carioca, em versos irreverentes como “me dizem que sou demodê/ saudosista, blasé, retrô/ me acusam até mesmo de ser/ um malandro cocô, e eu sou/ eu vim da Maia Lacerda/ e essa merda faz parte de mim”. A afinidade suburbana, sempre valorizada pela intérprete, marca também o proletário e igualmente irreverente “Mambo da Cantareira”: “Só vendo como é que dói/ trabalhar em Madureira, viajar na Cantareira e trabalhar em Niterói”.

Em momentos de rara originalidade, Elza quebra convenções, como ao encerrar a valsa de Lamartine com uma valsa italiana-francesa de 1905, na versão traduzida ao português cem 1943 na voz de Carlos Galhardo (e em 1976 na de Elis Regina), como “Fascinação”, ou ao emendar o sambinha leve “Cartão de Visita” ao refrão clássico da bossa nova “O Nosso Amor” (1959), de Tom Jobim.

O maior desses insights acontece, por fim, na releitura visceral do blues “Juventude Transviada” (1976), de Luiz Melodia, cujo verso “lava roupa todo dia, que agonia” é precedido pelo dolorido “para lavar a roupa da minha sinhá”, do canto de trabalho “O Lamento da Lavadeira” (1953), de Monsueto Menezes. Os improvisos e invenções em “Que Maravilha”, de Ben, e a reversão antirracista do canto de lavadeira em “Juventude Transviada”, de Melodia, fecham o arco das amplidões, permitindo a Elza transitar livremente do samba suburbano de protesto à bossa nova e a quaisquer outros ritmos, principalmente negros. Tal liberdade nem sempre foi dada a ela (ou a João de Aquino), mas Elza Soares insiste, resiste e persiste desde 1960, quando seu LP de estreia cunhou o provocativo subgênero “bossa negra”.

 

Elza Soares & João de Aquino. Deck.

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