Tiago Iorc - foto Rafael Trindade
Tiago Iorc - foto Rafael Trindade

Apesar de todas as dificuldades, a música tem sido um campo no qual o bolsonarismo e outros protofascismos não têm conseguido impor suas pautas retrógradas e regressivas. Por mais que o presidente e seus militares adestrados queiram sabotar ou espernear, seguimos vivendo uma revolução inédita nos costumes e comportamentos, bem ilustrada pela profusão de artistas transexuais, travestis e abertamente homossexuais, bissexuais ou pansexuais, da onipresente drag queen Pabllo Vittar ao agropoc Gabeu, com incontáveis casos intermediários. Nesse panorama, até mesmo artistas mais comportados e convencionais têm dito a que vieram. É o caso, agora, do popular cantor e compositor brasiliense Tiago Iorc, que acaba de lançar o single e vídeo “Masculinidade”, uma canção-manifesto de conscientização masculina e, de certa forma, de orgulho masculino.

Depois de infância e início da vida adulta passadas entre Londres, Nova York, Passo Fundo (RS) e Curitiba (PR), Tiago iniciou carreira compondo e cantando música pop em inglês, e foi aos poucos convertendo seu trabalho ao português nativo. Em 2018, ensaiou uma retirada de cena à maneira de Belchior, que afinal mais se pareceu com um sumiço promocional: pouco mais de um ano depois, voltou com um disco inédito e confessional, Reconstrução, e um Acústico MTV, ambos em 2019.

Se em Reconstrução já abordava temas quase sempre evitados pelos homens, como a depressão, Tiago radicaliza na nova música e elabora um tratado de letra quilométrica em prol da construção de uma nova masculinidade, ou de novas masculinidades. Para desespero dos regressivos, é um manifesto em palavras, imagens e gestos, que em 6 minutos e 20 segundos questiona ponto por ponto tudo que os homens pensam ter sido feitos para fazer.

A lista é longa (leia abaixo a letra completa). Hoje com 35 anos, Tiago aborda com todas as letras tabus (“eu cuido pra não ser muito sensível/ homem não chora, homem isso e aquilo”), masculinidade frágil (“coisa de menino”), a repressão masculina em expressar sentimentos (“calar fragilidade é castigo”), bullying (“quando criança, era chamado de bicha/ como se fosse um xingamento/ que coisa mais esquisita”), fluidez de gênero (“eu tive medo do meu feminino/ eu me tornei um homem reprimido”), autodestruição e depressão (“no auge e me sentindo deprimido”), a correlação ideal entre os sexos (“eu fui covarde, eu fui abusivo”), dependência da pornografia (“essa porra só vicia/ te suga a alma, te esvazia/ e quando vê passou o dia”), insegurança masculina (“você pensa que devia/ ter outro corpo, outra pica”), conflito geracional entre homens (“meu pai foi minha referência de homem forte/ trabalhador, generoso, decidido/ mas ele sempre teve dificuldade de falar/ o pai do meu pai também não soube se expressar/ por esses homens é preciso chorar”), o edifício em ruínas do machismo (“ai, ai, esse homem macho, machucado/ esse homem violento, homem violado/ homem sem amor, homem mal amado”), fobias etc. etc. etc.

O recado se completa pelo figurino e pelos gestos ditos femininos, até a conclusão em que fica rebolando repetidas vezes os quadris. Ao final, Tiago deixa a pergunta que se auto-responde pelas constatações sobre tudo que a masculinidade conserva de errado e disfuncional: “O que é ser homem?”. Decididamente, ser homem não é nada do que os fascistas pensam e querem que seja, e essa é uma guerra que vem sendo travada e perdida por eles.

“Masculinidade”
(Tiago Iorc-Mateus Asato-Tomás Tróia-Lux Ferreira)

Eu tava numa de ficar sumido
Dinheiro, fama, tudo resolvido
Fingi que não, mas na verdade eu ligo
Eu me achava mó legal
Queria ser uma unanimidade
Eu quis provar minha virilidade
Eu duvidei da minha validade
Na insanidade virtual
Eu cuido pra não ser muito sensível
Homem não chora, homem isso e aquilo
Aprendi a ser indestrutível
Eu não sou real
Conversando com os meus amigos
Eu entendi que não é só comigo
Calar fragilidade é castigo
Eu sou real

Cuida, meu irmão
Do teu emocional
Cuida do que é real

Masculinidade frágil, coisa de menino
Eu fui profano e sexo é divino
Da minha intimidade, fui um assassino
(Que merda)
Quando criança, era chamado de bicha
Como se fosse um xingamento
Que coisa mais esquisita
Aprendi que era errado ser sensível
Quanta inocência
Eu tive medo do meu feminino
Eu me tornei um homem reprimido
Meio sem alma, meio adormecido
Um ato fálico, autodestrutivo
No auge e me sentindo deprimido
Me vi traindo por ter me traído
Eu fui covarde, eu fui abusivo
Pensei ser forte, mas eu só fugi
E caí na pornografia
Essa porra só vicia
Te suga a alma, te esvazia
E quando vê passou o dia
E você pensa que devia
Ter outro corpo, outra pica
A ansiedade vem e fica
Caralho, isso não é vida!

Meu pai foi minha referência de homem forte
Trabalhador, generoso, decidido
Mas ele sempre teve dificuldade de falar
O pai do meu pai também não soube se expressar
Por esses homens é preciso chorar
E perdoar
Essa dor guardada até agora, enquanto escrevo
Me assombra se o que eu digo é o que eu devo
Um eco de medo

O que será que vão dizer?
O que será que vão pensar?
A rejeição ensina cedo
Seja bem bonzinho ou então vão te cancelar
Que complexo é esse? Mamãe, é você?!
Me iludi nessa imagem, tentei me esconder
Eu só posso ser esse Tiago
Cheio de virtude, cheio de estrago
Que afago crescer, aceitar

Ai, ai, esse homem macho, machucado
Esse homem violento, homem violado
Homem sem amor, homem mal amado
Precisamos nos responsabilizar, meus amigos
A gente cria um mundo extremo e opressivo
Diz aí, se não estamos todos loucos
Por um abraço
Que cansaço
Cuidado com o excesso de orgulho
Cuidado com o complexo de superioridade, mas
Cuidado com desculpa pra tudo
Cuidado com viver na eterna infantilidade
Cuidado com padrões radicais
Cuidado com absurdos normais
Cuidado com olhar só pro céu
E fechar o olho pro inferno que a gente mesmo é capaz

Minha alma é profunda e se afoga no raso

Eu fico zonzo
Fico triste
Fico pouco
Fico escroto
Eu sigo à risca
O que é ser homem
Isso não existe
A vida insiste
O tempo todo
Que eu repense

O que é ser homem?

Há tantos e tantos
E tantos e tantos e tantos
Possíveis homens
Homem real e não ideal
Ser homem por querer se aprender, todo dia
Dominar a si mesmo
Apesar de qualquer fobia: respeito
Tem que ter peito
Tem que ter culhão pra amar direito
Vou dizer que não?
Esperando sentado por salvação?
Conexão, empatia, verdade
Divino propósito: responsabilidade
Deitar a cabeça no travesseiro e sentir paz
Por ter vivido um dia honesto
Ah…
Ser homem exige muito mais do que coragem
Muito mais do que masculinidade
Ser homem exige escolha, meu irmão
E aí?”

"Masculinidade" (2021), de Tiago Iorc

Masculinidade. De Tiago Iorc. Single e clipe, nas plataformas digitais.

 

 

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