Semi-adaptado aos princípios revolucionários da bossa nova em obras-primas como o forró-jazz “Chiclete com Banana”, o paraibano Jackson do Pandeiro apresentou essa e a também histórica “Cantiga do Sapo” no álbum homônimo de 1959. Almira Castilho estava na capa, mas ainda não cantava nem compunha para e com o gênio.

Em vez disso, Jackson do Pandeiro traz duas parcerias dele com um tal José Bezerra, o canto de aprisionamento “Acorrentado” e a marota “Leva Teu Gereré”. Não são nem de longe as melhores faixas do LP, mas são históricas mesmo assim. José Bezerra era um compositor pernambucano (nascido em Recife) que só 16 anos mais tarde conseguiria iniciar uma carreira solo e gravar um álbum próprio.

Chegou botando banca, se auto-intitulando O Rei do Coco, nome também da malemolente faixa de abertura de sua própria autoria. “Balança o ganzá, segura o repente, cuidado, cantor/ não é banda nem vaidade, é pura realidade, o rei do coco chegou”, impunha-se. O estilo musical ainda não era o definitivo, mas o nome artístico era: Bezerra da Silva.

Havia bons repentes e emboladas trava-língua (“Língua Grega”, “Coco do B”) nos dois discos que Bezerra lançou como “rei do coco”, bem nordestinos e bastante influenciados por Jackson do Pandeiro. Mas também já havia um quê de samba neles (como também havia, e muito, em Jackson). Por um lado, Bezerra seguia a trilha de forrós e cantigas de sapo (“Rapa Cuia”) de Jackson, mas já apareciam várias músicas nos modos de malandragem e valentia que iriam consolidá-lo como sambista: “Valente na Boca do Boi” e o candomblé “O Catimbozeiro”, do primeiro disco, ou “Carne de Pescoço”, “Não Sou Valente”, “Coco do Trocadilho” e “Bruta Inveja”, de 1976.

Acontece que desde os 15 anos, em 1942, Bezerra passou a morar no Morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, onde ganhava a vida como ajudante de pedreiro e pintor. A malandragem à carioca falou mais alto e já em 1977 Bezerra estava convertido aos sambas de partido alto, primeiro em discos da série Partido Alto Nota 10, com outros sambistas, e em seguida novamente solo, agora não mais como compositor, mas como intérprete arguto da realidade social das favelas brasileiras. A lista é longa: “Colina Maldita” (1980), “Minha Sogra Parece Sapatão” e “Pai Véio 171” (1983), “Defunto Caguete” (1984), “Bicho Feroz” e “Saudação às Favelas” (1985), “Quem Usa Antena É Televisão” e o hipersucesso “Malandragem Dá um Tempo” (1986), “A Semente” e “Preconceito de Cor” (1987), “Violência Gera Violência” (1988), “S.O.S. Baixada” (1992), “Negro de Verdade” (1996) etc.

“Eu Sou Favela”, de 1992, resumia tudo: “Sim, mas a favela nunca foi reduto de marginal/ só tem gente humilde, marginalizada/ e essa verdade não sai no jornal/ a favela é um problema social”.

O grosso preconceito racial e social sempre vigente no Brasil logo rendeu à música de Bezerra o apelido de “sambandido”, mas em 2012 o primoroso documentário Onde a Coruja Dorme, de Márcia Derraik Simplício Neto, colocou as coisas em nova perspectiva, mostrando (sem preconceitos) o pensamento avançado de Bezerra e a incrível galeria de compositores que ele prestigiava – em sua grande maioria, os poetas do morro difundidos por ele eram operários de obra, bombeiros, encanadores, feirantes, lixeiros, camelôs, carteiros, agentes funerários…

De volta a Jackson do Pandeiro, sua história não foi tão diferente da de Bezerra da Silva. Também homenageou & satirizou o candomblé (“Pai Orixá”, 1955, “Babalaô”, 1957). Observou a realidade brasileira e as mudanças de comportamento de cada momento (“Coco Social”, 1956, “A Mulher Que Virou Homem”, 1961, “Muié Moderna”, 1962, “O Solteirão”, 1968, “13 de Maio”, 1978). Focalizou a violência que sempre nos constituiu e os embates entre polícia e sociedade (“Cabo Tenório” e “O Crime Não Compensa”, 1957, “Proibido no Forró”, 1961, “O Desordeiro”, 1962, “À Base de Bala”, 1963, “Capoeira Mata Um”, 1966, “História de Lampião”, 1977). “Se ajunta os bebo do forró de Surubim pra fazer fuim/ para dar alteração/ por qualquer besteira puxa a faca, fura o fole/ vão lá dentro tomar gole de cachaça com limão”, exemplifica “Forró de Surubim”, do álbum de 1959.

Sobretudo, Jackson compôs e cantou marchinhas carnavalescas e sambas à sua própria maneira (“Quem Samba Fica”, 1957, “O Que Era a Favela”, 1958, “Samba do Ziriguidum”, 1962, “Samba do Birimbimbim” e “Só Ficou Farafafá”, 1964, “Samba de Calolé”, 1965, “A Ordem É Samba” e “Vou Sambalançar”, 1966, “Tá Como o Diabo Gosta”, 1968, “Quero Sambar”, 1973)… Nem sempre era evidente, mas dois homens eram feitos de matérias parecidas.

"O Rei do Coco" (1975), de Bezerra da Silva

Bezerra da SilvaO Rei do Coco, Tapecar, 1975.

1. “O Rei do Coco” (Bezerra da Silva)
2. “Língua Grega” (Buco do Pandeiro-José Pereira)
3. “Valente na Boca do Boi” (Arnô Canegal-Waldemar Silva)
4. “Coco de Itambé” (Bezerra da Silva)
5. “Rapa Cuia” (Bezerra da Silva-Jorge Garcia)
6. “Coco do Trato” (Bezerra da Silva-F. Terra
7. “A Coisa Mudou” (Bezerra da Silva-Geraldo Barbosa)
8. “Coco do B” (Bezerra da Silva-Jorge Garcia)
9. “O Catimbozeiro” (Bezerra da Silva-Sydney da Conceição)
10. “Vai Chover Hoje, Urubu?” (Antônio Rodrigues-Buco do Pandeiro)
11. “Lei da Bahia” (Bezerra da Silva-Jorge Garcia)
12. “Rima de Doê” (Bezerra da Silva)

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