Yuriko Yoshitaka e Ryûsei Yokohama em cena de "Seus olhos dizem". Frame. Reprodução
Yuriko Yoshitaka e Ryûsei Yokohama em cena de "Seus olhos dizem". Frame. Reprodução

Que me perdoem os caros leitores este título com pinta de spoiler. Mas é exatamente isso. Seus Olhos Dizem, de Takahiro Miki, é filme que emociona: impossível não se envolver com seu casal de protagonistas, unidos por desencontros, infortúnios, acasos, idas e vindas, bem urdidos no roteiro primoroso de Yûichi Toyone.

Akari (Yuriko Yoshitaka) é uma mulher jovem e bonita, que ganha a vida como atendente de telemarketing, após ter estudado escultura na faculdade, ficando praticamente cega após um acidente de carro que vitimou fatalmente seus pais. É lutando contra este trauma que ela encontra, meio que por acaso, Rui (Ryûsei Yokohama), ex-promessa do kickboxing que vive trocando de nome, fugindo do passado criminoso: após sair da cadeia, onde havia cumprido pena por envolvimento com a Yakuza, a máfia japonesa, ele havia acabado de assumir um trabalho honesto, como vigia de um estacionamento, onde ela costumava visitar um amigo.

O que vemos a partir desse encontro é um desenrolar de afetos e envolvimento – das tragédias de cada um, eles próprios e os espectadores só ficarão sabendo depois. É um relato comovente, tão triste e dolorido quanto bonito e profundo, de entrega mútua, de cumplicidade, mas também de algum orgulho.

Mesmo morando sozinha, Akari acredita que deva permanecer com a visão comprometida, como se isso a ajudasse a purgar o passado. Ao defendê-la do assédio e da violência – quando a sexual estava prestes a se consumar –, Rui procura encorajá-la a mudar de rumo, ao mesmo tempo em que se muda para a casa dela, a fim de protegê-la. É o que o faz retornar ao submundo das lutas clandestinas, com altas somas em dinheiro envolvidas: ele deseja devolver-lhe o sentido quase completamente perdido, mas em vez de receber o pagamento pela vitória em uma luta, quase morre ao ser propositalmente atropelado e esfaqueado pelas costas pelos criminosos que o convenceram a voltar aos ringues ilegais.

Seus olhos dizem. Cartaz. Reprodução
Seus olhos dizem. Cartaz. Reprodução

A vida e o mundo dão muitas voltas e é curioso notar que, com ou sem visão, Akari conserva quase sempre um sorriso no rosto. É um filme sobre superação, perdão, mas acima de tudo sobre amor incondicional, apesar da juventude dos personagens. Um encontro de almas gêmeas, do qual não se pode escapar, mas longe de uma maldição, pelo contrário. É justamente quando Akari e Rui se encontram e se conectam que suas vidas passam a fazer sentido.

Yoshitaka e Yokohama são dois dos mais reconhecidos atores japoneses de sua geração. Sua entrega é tamanha que é preciso compartilhar curiosidades para além do que vemos na tela: para interpretar seus papéis ela desenvolveu pesquisas e realizou entrevistas sobre como se portar ao interpretar uma personagem sem visão; e ele treinou pesado com kickboxers profissionais e mudou radicalmente a dieta para chegar ao corpo desejável para seu personagem. A canção “Your Eyes Tell”, título do filme em inglês, foi composta por Jung Kook, integrante da banda sul-coreana BTS – febre entre os jovens –, após assistir a uma cena do filme; os produtores gostaram tanto que resolveram incluir a balada numa cena, além dos créditos finais. Seus Olhos Dizem é inspirado em Always (2011), sucesso do cinema sul-coreano.

No meio disso tudo há um cachorro – Suku, com que Rui presenteou Akari –, bonito, educado e imprescindível para o desfecho desta comovente história de amor. Prestem atenção nele também.

Seus olhos dizem. De Takahiro Miki. Japão, 2020, 123 min. Estreia dia 14 de outubro nos cinemas brasileiros.

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Veja o trailer:

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