Seria fácil enveredar por um caminho de controvérsia instantânea, cravando que a 34ª Bienal de São Paulo é a melhor edição da história. Mas é curioso: a própria formatação da exposição, múltipla, descentralizada e tentacular, impede essa facilidade (que seria sobretudo farsesca, porque só vi umas 15 edições e já são 70 anos de história). A tentação se dá porque se trata de uma mostra que se insere não apenas no debate estético ou social contemporâneo, mas sobretudo que se ergue sobre um substrato filosófico e ético.

Ao contrário do que se possa sugerir inicialmente, não é o artista “outsider” que é o foco principal, nem o é o comentário das exclusões sociais, mas o ofertório da presença corpórea do artista (ou sua obra imantada) nas salas, nas instalações, nas projeções e nos alto-falantes.

E não é só um incômodo político que se apresenta, mas principalmente o tangenciamento do espiritual. Daí a ênfase no exame do sagrado (Lydia Ourahmane), da cosmogonia (Sueli Maxakali), do encantamento (Belkis Ayón), das visões (a correspondência entre Antonin Artaud e Édouard Glissant), do alargamento das consciências em culturas não apreendidas (Zina Saro-Wiwa). Daí porque é de âmbito tanto historiográfico quanto ritualístico a presença das fotos e dos filmes de Zózimo Bulbul, dos bordados originais de João Cândido, o “Almirante Negro”, feitos no Natal de 1910, dos cadernos manuscritos de Carolina Maria de Jesus, em meio às construções formais e discursivas.

O “nude” da mulher negra (só com mais atenção percebemos a tornozeleira eletrônica na perna) da norte-americana Deana Lawson não está em descompasso com as rigorosas naturezas-mortas de Eleonore Koch. São linhas de singularidades que parecem evidenciar mais as biografias e as histórias daquelas artistas do que o alistamento para a fruição acumulativa de uma mostra tradicional.

Uma pista da abrangência do debate abrigado no pavilhão do Ibirapuera foi fornecida pelo próprio curador-chefe, Jacopo Crivelli, que mencionou o filósofo italiano contemporâneo Giorgio Agamben na entrevista coletiva de abertura da 34ª Bienal, dizendo que a exposição saía “da esfera do interesse para ingressar na esfera do interessante”.

Agamben, de fato, cai como uma luva para resumir as contribuições dos 90 artistas representados na exposição. O fio comum se coaduna com o conceito de “vida nua” do pensador, que, como ressaltado em artigo da revista alemã Documenta 12, “não se refere a um hipotético âmbito original, possivelmente ainda intocado por codificações sócio-políticas, mas – muito pelo contrário – ao espaço altamente artificial que as estruturas de poder geram ao excluir da proteção jurídica as formas de vida que não se submetam à sua ordem”.

Segundo a Documenta 12, “vida nua” refere-se à experiência de “desproteção e ao estado de ilegalidade de quem é acuado em um terreno vago, submetido a viver em estado de exceção – algo inerente ao Ocidente, como argumenta o filósofo, desde o homo sacer condenado ao banimento pelo direito romano até o presídio norte-americano de Guantánamo, em Cuba, passando pelos campos de concentração nazistas”.

A 34ª Bienal equacionou não apenas uma forma de resgatar essa fatura de muitas décadas, mas reapresentou uma perspectiva história e fez a prospecção do futuro de expressões confinadas em estados de exceção permanentes. A delegação indígena, que é formada por 10% do total de artistas representados ali, é um dos destaques, liderada pelo guerreiro Macuxi Jaider Esbell. Mas esse sistema indígena, que não usa a palavra arte, está pela primeira vez em possibilidade de emparelhamento, por exemplo, com a erudição de Lasar Segall e sua assombrosa série As Florestas, derradeiro ímpeto do artista lituano de compreensão da força da natureza.

Para confrontar o poder (inclusive o poder de filtrar o que se consolidaria historicamente na sua própria linha evolutiva), a 34ª Bienal pediu socorro às vozes que se levantam no Brasil de 2021, o Brasil das carreatas golpistas, dos ataques a LGBTQIA+, à legalidade jurídica, o país do racismo de Estado. Dessa forma, pode ter achado o caminho para voltar aos braços do povo.

Acima, o curador-geral Jacopo Crivelli Visconti conversa com a artista Daiara Tukano durante a Bienal

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