Léa Garcia e Viviane Ferreira
Léa Garcia e Viviane Ferreira, atriz e diretora de "Um Dia com Jerusa" - foto Netun Lima/Universo Produção

Trinta e seis anos separam o lançamento comercial do primeiro longa-metragem de ficção brasileiro dirigido por uma mulher negra – a belo-horizontina Adélia Sampaio, que afrontou paradigmas, inclusive sexuais e de gênero, com o seu Amor Maldito (1984) – e o lançamento do segundo. Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira, veio para saciar a fome de narrar provocada por um jejum que, podemos aferir sem muita relutância, nada tem de acidental. Como uma cinematografia empenhada, historicamente, em explorar (nos diferentes sentidos do verbo) o outro de classe e raça – tanto na arena ficcional, quanto no campo do documentário –, muitos realizadores se acostumaram a encarar sujeitos subalternizados como objetos, e não autores, de figurações audiovisuais. Diversas produções nacionais debateram-se entre “falar pelos que não têm voz” ou “oferecê-la a eles”, sem muito considerar que a possibilidade de dizer sobre algo, sem anuências hierárquicas, era impossível a certos grupos. Como bem nos lembra Jean-Claude Bernardet em Cineastas e as Imagens do Povo (Companhia das Letras, 2003), os meios de produção de discursos, afinal, também são meios de produção a serem reivindicados e redistribuídos. Expondo a condição politicamente induzida pelo racismo, pelo sexismo, pelo colonialismo e pelo capitalismo, Um Dia com Jerusa insurge triunfante nas brechas ainda precárias do cinema. Reivindica, para além da diegese, a capacidade e o direito do outro de narrar a si mesmo, abalando, assim, nossas percepções mais arraigadas sobre a alteridade. A obra estreia no dia 26 de julho no catálogo da Netflix.

Um Dia com Jerusa, indicado a melhor longa-metragem na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em 2020, é uma reelaboração do quase homônimo O Dia de Jerusa, curta-metragem lançado em 2014, que alçou Viviane Ferreira a Cannes. O filme, hoje disponível no YouTube (acima), foi selecionado para a mostra Short Films Corner do festival, além de ter participado de eventos nacionais de peso, como o Curta Kinoforum. A premissa é a mesma: pretende-se discorrer sobre o encontro de duas gerações de mulheres negras a partir da relação metonímica de Jerusa – interpretada com ternura e força pela icônica Léa Garcia – e Silvia, encarnada carismaticamente por Débora Marçal. Silvia é uma jovem pesquisadora de mercado à espera do resultado de um concurso público. Jerusa é uma senhora moradora do bairro do Bixiga, em São Paulo, que completa 77 anos. Enquanto aguarda seus parentes para a comemoração, Silvia bate à sua porta para indagar-lhe sobre suas preferências no que diz respeito a marcas de sabão em pó. A objetividade das perguntas da pesquisadora se confronta com as rememorações persistentes no banzo de Jerusa, incapaz de apequenar sua própria história diante de uma oportunidade, embora que inusitada, de contá-la. 

Léa Garcia e Viviane Ferreira
Léa Garcia e Viviane Ferreira, atriz e diretora de “Um Dia com Jerusa” – foto Netun Lima/Universo Produção

Ao longa, porém, acrescentam-se outras dimensões narrativas. Sabemos mais dos desejos de Silvia, que se emaranha no dilema de apresentar, ou não, a namorada à avó. A personagem também amadurece: ao invés de ansiar pelo resultado da Fuvest, ambiciona o cargo de professora, não por acaso, de história. A persistência de memórias coletivas, resistentes a apagamentos, é realçada pelos episódios de transe da pesquisadora, dotada de mediunidade ancestral. A Jerusa, também são reservadas novas aptidões. Dentre elas, se destaca o gosto pela fotografia. Sem abandonar o poder da oralidade, se entrega, mesmo que inconscientemente, à política das imagens. Diante de uma cena de abuso policial, a septuagenária não se furta, por exemplo, de empunhar a câmera como arma da crítica. Usa-a, também, para registrar as pessoas comuns – alegorias dos excluídos dos enquadramentos vigentes –, voltando-se para figuras como Kleber (Majó Sésan), morador de rua que declama despretensiosamente Minha Mãe, de Luiz Gama, e para sua própria família. 

Não é nada trivial tornar Jerusa uma produtora de imagens. Se, como sugere Judith Butler, a possibilidade de aparecer positivamente no espaço público é um direito e uma condição do reconhecimento, há de se falar de uma desumanização provocada por imagens de controle, para usarmos o termo de Patricia Hill Collins, e pela não-representação.  Assim como fazem outros filmes que engordam a tradição do cinema negro brasileiro – que remonta as atividades de artistas como Zózimo Bulbul nos anos 1970 – Um Dia com Jerusa afirma, através de sua protagonista, a capacidade de agir e de registrar de corpos e subjetividades não-hegemônicos, comumente apartados das tramas e da elaboração dos discursos. A obra traz autorreflexivamente, no próprio tecido cinematográfico, uma provocação: o que acontece com a esfera do aparecimento quando a câmera é reapropriada e distanciada das suas mediações mais comuns? Diante de questão semelhante parecem se colocar filmes como Travessia (2017), de Safira Moreira, e Fartura (2019), de Yasmin Thayná, que, ao mesmo tempo que denunciam as visualidades empobrecidas dos sujeitos racializados, engendram novas maneiras de edificá-las. Tornar Jerusa uma produtora de imagens é potencializar seu papel de griô, de contadora de histórias. É afirmar seu direito de existir.

Como ilustração, uma cena. Em determinado momento da entrevista labiríntica com Jerusa, Silvia percebe que acabara de menstruar. Vai ao banheiro e liga o chuveiro para limpar a calcinha, da qual escorre, sublime e poeticamente, o único sangue que se tem à vista em toda a obra. No cinema, nos habituamos a ver, somente, o sangue que vem da violência – marcadamente daquela acometida contra vidas previamente espoliadas. Não aqui. Ainda, reelabora-se a nudez de um corpo negro, deserotizado. Rejeita-se a hiperssexualização que, como denuncia bell hooks, por tanto tempo assinalou representações ideologicamente masculinas e embranquecidas. Quando a câmera é reapropriada e distanciada de suas mediações mais comuns – como fazem Jerusa, na ficção, e Viviane Ferreira, na realidade – reconfiguram-se, no mínimo, as nossas formas de olhar-estar no mundo.  

Além de Um Dia com Jerusa e de O Dia de Jerusa, Viviane Ferreira dirigiu os curtas Peregrinação (2014); D’Origem Africana (2013); Amor ao Rap (2012); Mumbi7cenas Pós Burkina (2010); e Dê sua Ideia, Debata (2008). Viviane também é roteirista, produtora, advogada e professora do curso de cinema e audiovisual da ESPM-SP. Mestra em políticas de comunicação e cultura pela Universidade de Brasília, foi uma das fundadoras da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) e atualmente exerce o cargo de diretora da Spcine. A cineasta fundou a plataforma Raio Agency e o streaming Todesplay. 

 

Juliana Gusman é jornalista, professora e pesquisadora, doutoranda em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

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