Aílton Graça no videoclipe-manifesto "Desgoverno"

Em ato de protesto contra os descalabros bolsonaristas, um grupo de artistas se uniu para gravar o reggae “Desgoverno”, composto pelo maranhense Zeca Baleiro e pelo paraense Joãozinho Gomes, aos moldes do antigo “Chega de Mágoa” (1985), em que a MPB dos anos 1980 protestava contra a seca no Nordeste. “Morte, luto, tristeza, noite e dia/ é preciso calar a negação”, dizem os primeiros versos da canção, que foi lançada juntamente com o ato virtual de entrega do manifesto “Artistas e Sociedade pelo Impeachment“, assinado por mais de 30 mil brasileiros, entre artistas e não-artistas.

Os cantores participantes são, por ordem de entrada, Zélia DuncanVange MillietNô StopaSimone JulianTata FernandesAndré AbujamraDani Nega, Zeca Baleiro, Andrea HortaZahy GuajajaraLetícia SabatellaChico SalemCamila Pitanga, Ellen OlériaFabiana CozzaCamila Pitanga e Dira Paes.

Os arstistas Elisa LucindaDenise Fraga, Aílton GraçaJúlia Lemmertz, Sandra Nanayna, Matheus Nachtergaele e Malu Galli aparecem em meio à canção comparando o número de mortos em episódios como o naufrágio do Titanic (1.500 mortos), os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono estadunidenses (2.996 vítimas fatais) e a pandemia de coronavírus (539 mil mortos até 15 de julho, dia em que Desgoverno estreou) sob a liderança de Jair Bolsonaro. A essas se somam as vozes de Marco RiccaDanilo GrangheiaBárbara Paz, Luís Miranda e Gero Camilo, clamando apenas “impeachment já”.

O quarteto formado para o clipe por Nô Stopa, Simone Julian, Tata Fernandes e Vange Milliet canta à frente de uma bandeira do arco-íris e vestindo camisetas com a inscrição “viva o SUS”. O ator Luís Miranda veste o dizeres “imagine a dor, imagine a cor”, que chama atenção para o caráter também racial (e racista) da política de extermínio.

Em tempo de guerra cultural aberta pelo bolsonarismo, com os objetivos de exterminar simbólica e materialmente a cultura brasileira e fragilizar (se não propriamente matar) as classes artística e intelectual, Desgoverno não parece ter grande potencial de viralização. Mas fica como registro de artistas que exibem o rosto em protesto, no contexto de outro ramo da guerra cultural (do qual o influenciador digital Felipe Neto tem sido liderança), aquele que discute se pessoas públicas têm ou não o dever de se posicionar politicamente diante de uma situação catastrófica como a atual.

A maioria dos artistas se divide entre os que se manifestam mais timidamente que os de  “Desgoverno”, os que apoiam o bolsonarismo (e, portanto, ao auto-extermínio) e os que não se manifestam. Esse último é o caso de Marisa Monte, que acaba de lançar uma canção pedindo “Calma“, cujos versos dizem “calma/ que eu já tô pensando no futuro/ que eu já tô driblando a madrugada/ não é tudo isso, é quase nada/ tempestade em copo d’água“. Marisa é o que se costuma chamar de artista apolítico, que na verdade é politizado por adesão, como era, por exemplo, Roberto Carlos durante os anos de regime civil-militar.

E os em breve 600 mil brasileiros mortos? São quase nada ou são tudo isso que os artistas de “Desgoverno” tentam gritar?

 

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