Romance gráfico de Ángel de la Calle, Pinturas de Guerra justapõe os questionamentos da arte sob regimes violentíssimos a ativismos de toda sorte

 

Se o leitor aprova (perdão pela ousadia), mesmo que indiretamente (pelo voto, por exemplo), a tortura, é imprescindível que leia ao menos as 34 primeiras páginas do romance gráfico Pinturas de Guerra, do quadrinista espanhol Ángel de la Calle, obra parcialmente bancada pela Fundação Rosa de Luxemburgo. Não é apenas um sentimento de profunda rejeição a esse recurso infame dos governos autoritários que vai brotar de sua consciência, mas um mal-estar análogo a uma crise de labirintite ou algo parecido.

A vida platonicamente burguesa sob o regime pinochetista é o tema do primeiro capítulo. De la Calle imaginou uma reunião de ricaços em uma mansão misteriosa, com os agregados de sempre: críticos de arte, excêntricos de vernissages. Um jovem crítico é levado por seu publisher ao encontro. A partir daí, o autor imagina o que aconteceria se, de forma análoga ao que se sucede no clássico livro de Bram Stoker sobre Drácula, o convidado se desgarrasse por um momento da mundanidade bem servida do piso de cima e se embrenhasse por acidente nos porões da mansão que paira confortável na sua bolha da isenção política.

O efeito da HQ de De la Calle provém de um absoluto talento de escritor, mas não convém esquecer da arte, primorosa em sua modéstia hachureada. O epicentro de toda a história é a tentativa de um alterego do autor em escrever a história da atriz estadunidense Jean Seberg (1938-1979) em uma temporada em Paris. Em sua peregrinação, como no filme Paris à Meia-Noite de Woody Allen, as interlocuções se dão com artistas de diversos quadrantes num ambiente febril de debate e postulações artísticas. “Jean Seberg? Sim, a conheci. Andava com James Baldwin, o escritor americano. Depois se casou com o molenga do Romain Gary. Dizem que o FBI a matou. Era sedutora e bela. Bebia quase tanto quanto eu… Como se fosse possível”, diz ao rapaz a primeira testemunha que encontra, o escritor Guy Debord, de A Sociedade do Espetáculo.

Nessa espécie de tertúlia viva entre mitologias emprestadas, desenrola-se a sarcástica viagem de De La Calle pelas fronteiras entre o ativismo artístico e o político, entre a barbárie dos regimes sanguinários da América Latina e a busca desesperada pela independência e pela honestidade de uma linguagem cultural. Guernica em quadrinhos, Pinturas de Guerra se encaixa numa dolorosa tradição narrativa da vergonhosa chaga antidemocrática do mundo, ao lado, por exemplo, de A Morte e a Donzela, de Ariel Dorfman. O prefácio é do biógrafo de Che Guevara e Pancho Villa, o espanhol Paco Ignacio Taibo II. 

 

Pinturas de guerra. Ángel de la Calle. Tradução de Andréa Bruno, Editora Veneta, 312 páginas, 65 reais

 

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