Em uma investida de fazer corar Goebbels, a Secretaria de Comunicação (Secom) da presidência e o secretário Especial de Cultura, Mario Frias, anunciaram ontem uma série de revisão histórica a partir do ponto de vista do atual regime no poder no Brasil. Um povo heróico, que se afirma será produzida pelo governo Bolsonaro, anuncia “uma História com verdadeiros líderes, respeitados intelectuais e grandes herois nacionais. Alguns conhecidos; muitos, ignorados. Uma História tão bela e grandiosa quanto desprezada e vilipendiada por anos de destruição da identidade nacional”.

Encabeçada por um canastrão providencial, o ator Mario Frias, a peça promocional divulgada na noite dessa quinta, 3, mostra o próprio integrante do governo “interpretando” um texto ufanista nas redes sociais, e a ironia é que há uma imagem da Constituição de fundo em dado momento. A Constituição é uma das peças da cidadania mais vilipendiadas pelo atual governo, que a julga um empecilho em seu plano de poder. Os heróis de Bolsonaro (Curió, Ustra) e seus intelectuais (Olavo de Carvalho, Ernesto Araújo) são amplamente conhecidos pelo mundo todo no momento. Já o patriotismo do presidente ficou bem expresso recentemente em um encontro com Al Gore, documentado em vídeo. “Eu gostaria de explorar a Amazônia com os Estados Unidos”, disse Bolsonaro a Gore, que ficou chocado. “Não entendi muito bem o que você quer dizer”. Depois de manifestar a intenção de produzir “novelas da família”, o Estado agora quer reescrever a História.

O texto “interpretado” por Mário Frias tem o tom lunático que caracteriza as mensagens do governo e se apropria, obviamente sem crédito, da letra do Hino Nacional Brasileiro de Joaquim Osório Duque-Estrada (“Não foge à luta”, “brado retumbante”, “Desafia a própria morte”, entre outros trechos). “Eu falo a gente porque eu conheço a nossa gente. E são essas pessoas que não fogem à luta que habitam todos os rincões do nosso País; são essas pessoas que amam o próximo, que dividem esse solo literalmente, esse é o Brasil. E por ele, pelo seu povo, desafiam a própria morte”, diz o secretário bolsonarista. Há subtextos bastante claros na peça interpretada por Mário Frias. Os brasileiros que “dividem esse solo literalmente” (o agronegócio) e que são capazes de “desafiar a própria morte” são, também por obviedade, os adversários dos povos que resistem à destruição do País, os indígenas.

“A verdade é que somos um povo heroico, e encaramos com um brado retumbante o destino que nos encara. E a nossa história precisa ser contada”. Os selos da série atestam a participação, além da Secom e da Secult, da Secretaria da Cidadania e do Ministério das Comunicações. Evidentemente, não foi informado quanto de dinheiro público foi gasto na peça governamental.

A reação nas redes sociais foi de rejeição quase unânime – tirando a euforia dos monarquistas. “O Brasil tem História. Sim, tem. A história é que tem um monte de mentirosos perigosíssimos no poder”, disse Manuel Henrique no Twitter. “Assim a gente entende porque o Mário Frias não tinha mais nenhum trampo em cinema ou TV. Triste fim de quem nunca foi”, escreveu o crítico de TV Roberto Sadovski. “Não sei o que dizer. Melhor seria ter deixado a Regina Duarte banguela recebendo sem trabalhar do que esse b… Destruição total da cultura desse País”.”Lógico que somos um povo heróico, sobrevivemos nesse desgoverno”, disse outro internauta. “Lembra do nazista Roberto Alvim? A música tá parecida, só mudou o sotaque agora…”, ironizou o perfil PolitiQueijo. “Como é que chegamos a esse ponto? Tem que fazer teste toxicológico nos membros do governo”, disse Kiko.

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