No início de dezembro de 2019, Anakwa Kakwya Papwua de Oliveira reapareceu após um ano de meditação estimulada no Alto Xingu e me zapeou para um encontro urgente no qual me advertiria sobre o que estava por vir da mesma forma que sempre faz, sem prefácio nem preâmbulo. Só que dessa vez ele parecia um Cavaleiro do Apocalipse, nunca o vi tão assustado e nervoso.

“Te prepara: uma doença nova surgirá depois do Carnaval. Matará milhões no mundo todo, não haverá lugar seguro: Paris, Moscou, Catolé do Rocha, Mônaco. Idosos, principalmente, morrerão sem poder se despedir, mas também meninos e meninas. Haverá pânico no início, será um cenário semelhante ao da Peste Negra. Aí então loucos raivosos tentarão disseminar a ideia de que a morte não terá munição para todos, que será melhor acelerar o sacrifício dos escolhidos”.

Pensei em duvidar, mas desde que tinha se tornado homem sagrado, Anakwa nunca errara uma. Tinha acertado a vitória de Trump com dois anos de antecedência, os 7 a 1 da Copa, o premonitório naufrágio do Mar Tirreno (“Vada a bordo, cazzo!”), a morte de Leonard Cohen, o envenenamento do presidente ucraniano.

Ele espetou mais um pedaço de provolone à milanesa e antes de levar à boca me perguntou: “Agora que você está sabendo de tudo, o que pretende fazer?”.

Eu perguntei se ele sabia como tinha sido o comportamento das pessoas aqui na cidade quando tudo começou.

“Estocaram papel higiênico, no começo. Depois, álcool em gel. Grifes fizeram máscaras para prevenir o contágio e chegaram a vendê-las por até R$ 300. A certa altura, agrediram médicos. E cinco meses depois, o povo já estava fazendo fila em liquidação, aglomeração em Ipanema e Copacabana e na Leroy Merlin”.

Engoli em seco e pedi outra Skol Litrão.

Sabendo de tudo, o que poderia fazer? Pensei em muitos artistas crepusculares que teriam problemas num mundo de isolamento compulsório, que lhes seriam impostas mais angústias do que já as que já enfrentamos no momento.

“Algum artista que eu gosto?”, arrisquei, meio sem querer saber a resposta.
Mas Anakwa parecia ter um implacável banco de dados de retrospectiva de final de ano da Globo na cabeça: “Sérgio Sant’anna. Ellis Marsalis. Aldir Blanc. Abraham Palatnik. Evaldo Gouveia”.

“Para, para, para”, repeti. “Não quero saber mais”. Nem dava: Anakwa não vê tudo, sua cosmovisão só consegue ir até um ponto sem desfecho; é como andar dentro de uma vara de bambu, ele explica, tem um ponto que aparece um nó, não passa mais. Sobre si, por exemplo, nunca sabia nada.

Mas agora, graças ao profeta da Vila, me tinha sido concedido aquilo que não tinha sido ofertado a mais ninguém no planeta: tempo. Eu tinha dois meses para me preparar para o insondável, o imprevisível, o nonada. Paguei a conta e quando tentei pagar a consulta (Anakwa sempre cobrava, mas dessa vez empurrou minha carteira delicadamente quando a saquei), ele levantou e disse que precisava ir, iria viajar durante muito tempo, e que eu fosse “safo” com a informação que tinha recebido. Meu guri guru me deu um chocalho Kayapó e sumiu na multidão que congestiona a calçada do bar.

Sozinho na Mercearia, eu comecei a pensar nas opções. Ficar mais perto dos velhos ou dos meninos? No campo ou na cidade (essa não é uma questão verdadeira, sempre fui incurável devoto do deus Pã)? No Exterior ou na amargurada bozolândia? Tornar-se pragmático e cancelar já as despesas extravagantes ou começar a estocar vinho e comprar um celular novo? Selecionar os vinis da vida para o bunker ou deixar que a aleatoriedade siga determinando a ordem da bolacha na vitrola?

Eu sabia que não ia adiantar sair de casa em casa avisando todo mundo como um Zé Nostradamus, ninguém acreditaria. Me lembrei do filme argentino Truman, com Ricardo Darín. Ele interpreta um ator de teatro que é diagnosticado com um mal incurável, tem pouco tempo de vida. Tudo que o preocupa é o cão; a sua angústia é quem se mostrará merecedor do seu cachorro Truman, para amá-lo, honrá-lo e passear na praça com o bicho como ele mesmo. Nesse pouco tempo, ele precisa descobrir quem, entre todo seu mundo de relacionamentos, estará à altura de tais tarefas.

Desci em direção ao metrô da Vila e o africano alto que vende relógios estava encostado na mesma mureta, perto do pipoqueiro; a boliviana das écharpes estava com toda a mercadoria estendida sobre mantas verdes na esquina; o sem-teto de olhos esverdeados ficava subindo e descendo a mesma escada de sempre com o mesmo não-objetivo de sempre.

Duas meninas com estojos de violino nas costas não puderam conter o sorriso no vagão do metrô quando o rapper freestyle que amealha trocados ironizou com rimas marotas o senhor sisudo que abaixou o chapéu na frente dos olhos bem na hora em que ele se aproximava com suas bases de Cypress Hill: “Cobre com o chapéu pra ver se o MC desaparece /Mas a rima da brodagem é coisa que esclarece/Não é só pelo metal mequetrefe”. Os fenômenos da grande cidade não pareciam revestidos de um espírito histórico, eram uma história em aberto que eu contava para mim mesmo enquanto a atravessava.

Passei na padaria italiana e comprei um pão com calabresa ainda quente. Na praça perto da nossa vila, os vizinhos se aglomeravam debaixo da árvore para admirar o sagui que vive ali pelas ruelas da Humberto Primo. “Alguma novidade?”, ela perguntou quando entrei em casa fazendo malabarismo com o pão. “Não, tudo vai ficar bem”, respondi.

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