As políticas culturais, ao longo da história recente, tiveram alguns apelos específicos dos gestores públicos. O decano Paulo Maluf, por exemplo, celebrizou um tipo de política voltada quase que exclusivamente para eventos. Nesse período, o Parque do Ibirapuera viveu um viçoso reinado. Essa estratégia tinha um efeito colateral: não deixava marcas registradas, não servia para a campanha eleitoral seguinte. O astuto José Serra juntou as duas coisas: criou a Virada Cultural, que se espalhou pelo País todo, para suprir esse lado da política de apelo publicitário imediato, irrebatível por causa da carência crônica da população. Ao mesmo tempo, atuou nas estruturas de apoio perenes, como a Escola Paulista de Teatro e os investimentos em símbolos da classe média alta (Sala São Paulo, Osesp, Festival de Campos do Jordão, etc).

A pandemia de 2020 acabou por trazer à tona uma terceira via de política cultural, por assim dizer: a programação online ao vivo, as lives, como se diz mais comumente. Com o impedimento dos eventos com plateia, à falta de alternativa se juntou o empenho orçamentário. As secretarias de Cultura estão investindo pesadamente nas atividades online, e o discurso é legítimo: os artistas estão ilhados em suas casas, a vida cultural precisa de um escoamento, os artistas precisam atuar, serem remunerados pelo seu trabalho. As linhas de financiamento oferecidas têm um problema: estimulam o endividamento da classe artística e não há evidência de que haja uma situação de melhora num futuro próximo, o que é temerário. Em ambos os casos, a questão principal é de critério e capacidade de fiscalização, pela sociedade, do investimento nessas frentes.

Um dos maiores esforços anunciados durante a pandemia foi o da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, que saiu na frente e criou uma plataforma de streaming exclusiva para transmitir seu programa #CulturaEmCasa, um festival de lives. Pagam entre R$ 2 mil e R$ 6 mil por painel ou apresentação. Após completar 2 meses de atividade, Farofafá enviou uma série de perguntas para a Secretaria, buscando esclarecer alguns pontos de sua estratégia. Eis as perguntas e as respostas:

PERGUNTA: A secretaria informa que, nos dois primeiros meses, a plataforma registrou cerca de 850 mil acessos aos mais de 600 conteúdos disponibilizados. Como houve, no período, um investimento de R$ 950 mil no projeto, deduz-se que cada acesso custou mais de R$ 1 ao Estado. Um programa de humor como Greg News, por exemplo, atinge 2 milhões de acessos com uma produção doméstica, quase sem custo. É possível afirmar, a partir dessa comparação, que o projeto #CulturaEmCasa é exitoso? Qual é o objetivo em termos de política de Estado?

RESPOSTA: Não procede a informação de que houve um investimento de R$ 950 mil nos dois primeiros meses de funcionamento da plataforma #CulturaEmCasa. O valor aportado no período para esse programa, incluindo o custo de criação da plataforma e o licenciamento de mais de 800 conteúdos, foi de R$ 580 mil. Importante considerar que o custo por visualização muda diariamente, pois os conteúdos são disponibilizados também para exibição por demanda e o número de conteúdos e de visualizações aumenta todos os dias. Isso faz com que, a cada dia, o valor por visualização seja menor.

PERGUNTA: Quando do anúncio do #CulturaEmCasa feito pela secretaria, o valor divulgado para toda a imprensa era de R$ 1 milhão para 60 dias. Esse anúncio não era verdadeiro?

RESPOSTA: O investimento de R$ 1 milhão mencionado por ocasião do lançamento da plataforma #CulturaEmCasa diz respeito ao período compreendido entre abril e dezembro de 2020 e inclui custos que vão da plataforma e  licenciamento até a publicação de todos os conteúdos previstos. Esse valor foi remanejado de projetos de difusão remodelados devido à pandemia do coronavírus e que visavam os mesmos objetivos de democratizar o acesso a conteúdos culturais e gerar oportunidades para artistas e técnicos

A comparação entre uma plataforma de streaming e VOD (video sob demanda) de conteúdo cultural com acesso 100% gratuito e mais de 800 conteúdos disponíveis, entre concertos, shows, espetáculos de teatro e dança, visitas virtuais a museus, óperas, aulas e outros, e um programa de humor é descabida. Trata-se de iniciativas de naturezas totalmente distintas.

A plataforma #CulturaEmCasa disponibiliza gratuitamente conteúdos gerados pelas 54 instituições culturais do Governo do Estado de São Paulo; conteúdos resultantes dos diversos programas e ações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa de São Paulo (como o ProAC Editais e o Juntos pela Cultura); conteúdos licenciados de artistas, criadores e produtores independentes; e conteúdos gerados a partir de festivais, mostras e eventos online. Os critérios de curadoria variam.

A plataforma #CulturaEmCasa visa elevar o grau de acesso da população a conteúdos culturais de grande qualidade, relevância e diversidade; e estimular a difusão cultural virtual. Em três meses de funcionamento, os mais de 800 conteúdos disponibilizados tiveram 1,2 milhão de visualizações, com 510 mil usuários únicos e 135 mil horas de visualização.

Trata-se de um complemento dos diversos programas e ações de difusão presencial que a Secretaria realiza, e que em 2019 alcançaram 11 milhões de pessoas. Sua criação foi recentemente reconhecida como uma ação exemplar pelo Creative Industries Policy & Evidence Centre do Reino Unido.

PERGUNTA: Outra questão diz respeito à curadoria do evento. Quais os critérios? Pergunto por que, na fase inicial, cerca de 160 artistas foram selecionados. Muitos são de um circuito consolidado de público. Entre eles, por exemplo, está uma live de teatro com participação remunerada de Jaqueline Roversi, que é namorada do atual secretário de Estado da Cultura e da Economia Criativa (Sérgio Sá Leitão). Isso não infringe regras de impessoalidade na administração pública?

RESPOSTA: A gestão da plataforma é feita pela organização social Amigos da Arte (APAA), com curadoria da série independente. A atriz, produtora e roteirista Jaqueline Roversi participou de uma das 60 aulas da série #IntensivãoCulturaEmCasa ao lado da atriz e diretora Leona Cavalli e da atriz Jordana Korich, a convite da própria Leona. O tema foi o processo de criação de uma peça que teve cinco temporadas e concorreu a diversos prêmios teatrais.

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