O setor cultural será um dos mais atingidos pela pandemia do coronavírus. E isso deveria ser uma preocupação de todos, já que a indústria criativa, na qual está inserido o segmento da cultura, emprega 6,2 milhões de brasileiros e gera uma receita superior a 335 bilhões de reais. Os dados compilados são da plataforma Observatório Itaú Cultural, lançada na segunda-feira (13), um trabalho conjunto da instituição e do economista e pesquisador Leandro Valiati, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Em meio à contenção da Covid-19 e também à bem-vinda proliferação de lives e outras formas criativas dos artistas na quarentena, ainda é cedo para falar no tamanho dos prejuízos. Mas diante da inépcia do governo federal em reagir o futuro da cultura é incerto. “Não haverá perda de emprego e renda, mas de valores culturais”, adianta-se Valiati. “O impacto será maior que de outros segmentos econômicos, por sua intensidade em atividades performáticas e ao vivo, agravado no Brasil pela incapacidade de ter um consumo cultural em casa.”

“Nesses tempos tão cruéis, a ciência, o conhecimento, a academia e as artes voltam ao centro e nos dão respiro a essa era de terror que estamos vivendo com a covid”, afirmou Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. O pesquisador Valiati cita um estudo da Americans for the Arts que estima o tamanho do impacto do coronavírus nos Estados Unidos. Por enquanto, o valor do prejuízo é de 4,5 bilhões de dólares, sendo que, em uma enquete, 69% dizem que foram severamente impactados do ponto de vista financeiro por conta da pandemia.
Políticas públicas de compensação têm a capacidade de redução dos impactos negativos do coronavírus, mas isso deve ser feito antes que seja tarde demais. Algumas atividades criativas, citam Saron e Valiati, correm o sério risco de se inviabilizarem antes mesmo de houver uma retomada das atividades. Artistas que vivem da arte sem renda podem simplesmente abandonar a carreira. O Itaú Cultural lançou dois editais para cênicas e música como forma de ajudar os artistas.
Os dados do Observatório Itaú Cultural indicam que os trabalhadores do setor criativo, que inclui moda e não turismo, concentram-se em alguns Estados, mas não da forma como se costuma pensar. São Paulo é o primeiro, com 1,4 milhão de trabalhadores criativos, o que corresponde a 3,02% de sua população. Em seguida, vêm o Distrito Federal (empregando 89.451 pessoas, 2,97%), Santa Catarina (203.320), Rio de Janeiro (450.307), Rio Grande do Sul (269.770), Paraná (244.288), Minas Gerais (418.494), Ceará (177.783) e Pernambuco (168.378).
A plataforma, que será atualizada constantemente, permite mostrar, de forma inédita, a dispersão dos projetos da Lei Rouanet. O que se pode ver (nos gráficos abaixo) é que embora São Paulo e Rio concentrem as captações, eles também acabam por permitir que projetos captados por empresas desses Estados utilizem recursos em outras localidades.  Outro dado novo do Observatório é a concentração estadual do financiamento à cultura, que mostra o valor per capita que o Estado investe na cultura.

Apenas Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo investem mais do que a média nacional. A concentração foi calculada por meio da soma do financiamento proveniente do mecenato, do Fundo Nacional de Cultura, da Lei do Audiovisual e do Fundo Setorial do Audiovisual. O estado fluminense tem um índice de 3,13, a capital federal 2,41 e os paulistas, 1,85. Maranhão, por exemplo, tem indicador de 0,21, em relação à média nacional – o governo investe pouco em cultura por habitante -, mas este valor é o triplo do que Mato Grosso financia per capita em cultura.
O pesquisador da UFGRS lembra que, mundo afora, há pessoas “maratonando” em séries da Netflix como forma de suprimir a falta de consumo cultural durante a pandemia do coronavírus, mas isso pode estar ocorrendo em menor escala no País. Não deixa de ser um alento, considerando que o Brasil tem uma balança comercial desfavorável nas áreas de cinema, música, fotografia, rádio e TV, segundo nos indica o Observatório Itaú Cultural.

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