Foto: Davi Pinheiro
Fausto Nilo e Moraes Moreira, parceiros em mais de 40 canções, durante apresentação no ano passado em Fortaleza, no Cineteatro São Luís Foto: Davi Pinheiro

“Conheci o Moraes através do meu parceiro Raimundo Fagner. Um encontro na casa do craque Afonsinho, há muitos anos. Nossas conversas, a noite toda, foram sobre alto-falantes, músicas sobre os cantores tradicionais do Brasil, do interior. Ele era do interior, como eu também, e passamos por cidades de vários portes no Brasil até morar no Rio de Janeiro. E daí veio uma simpatia, a gente se deu bem na conversa e continuamos a nos ver. Até que uma amiga comum, que era fã dele e gostava muito de mim também achou que nós deveríamos ser parceiros, mas queria falar com ele e eu desautorizei. Mas ela terminou conversando com ele sobre isso e um dia ela chegou na minha casa com a fita que ele mandou com uma melodia. E eu fiz uma canção chamada Prosando com Maria. E ele gostou muito, a partir daí fizemos seis canções para um disco que ele estava gravando. Esse disco corresponde, se eu não me engano, ao segundo disco depois da saída dos Novos Baianos, na carreira solo, e o resto de nossa vida foi de uma parceria fantástica e super… digamos assim, produtiva. Nós nos encontrávamos e fazíamos música. É um parceiro que.. nossa parceria funcionava muito bem de maneira presencial. Pouca gente tem noção, mas às vezes uma ideia musical dele, eu ia anotando num caderno ao lado, ia cantarolando e concluíamos a música juntos. Fizemos muito isso. Era um parceiro que contribuiu muito com minha carreira, de uma maneira muito generosa, bacana, e me ajudou – junto com alguns outros, que são importantes – a ser um compositor, a ter uma experiência profissional. Muitas histórias engraçadas. Nós recebemos um telefonema do Mariozinho Rocha, duas horas da tarde, para fazer uma abertura de uma novela que o Dias Gomes tinha rejeitado e o Mariozinho: “Só você e o Moraes vão resolver isso”. E nós nos encontramos duas horas da tarde, à noite ele gravou no Estúdio Transamérica e no outro dia Roque Santeiro estreou com nossa canção, “Deus e o Diabo na Terra” (cantarola Santa Fé, 1985).

Fizemos muitas proezas desse tipo. Chão da Praça (1979) foi uma canção para a qual ele queria uma letra de Carnaval, e eu dizia que as minhas letras eram melancólicas. “Eu não vou conseguir, cara”. E ele: “Não, mas aquelas músicas de Recife são tristes, dá vontade de chorar, mas são lindas no Carnaval”. E eu escrevi uma letra chamada Chão da Praça e ele me liga dizendo que tinha feito uma música de Carnaval. Daí nos encontramos, ele pôs a letra em cima da perna, pegou o violão, mas não tocava nem cantava. Ficou aquele silêncio. Aqui e acolá ele comentava assim: “Mas o que que é isso, cara?”. O que ele estava dizendo é que a letra e a música casaram, e ele cantou para mim. E passou a ser esse grandioso sucesso da nossa carreira.

Eu fiz com Moraes mais de 40 canções, a maioria delas foram grandiosos sucessos populares em várias faixas socioeconômicas e descobrimos muitas maneiras de fazer música para o Carnaval da Bahia. Talvez pouca gente perceba também, mas grande parte do período do trio elétrico do Dodô e Osmar e Armandinho, acho que cerca de umas 10 músicas eu tive a oportunidade de participar por conta do Moraes, do Pepeu Gomes, do próprio Armandinho. E tenho muito orgulho disso, de ter feito esse repertório.

Ele era criativo, desafiante e provocador. E eu tava precisando muito disso na época em que conheci o Moraes. E essa coisa eu devo a ele, algumas aventuras que normalmente eu escrevendo uma poesia solitariamente não iria me arriscar. E ele me provocava. Enfim, me lembro também que ele me ligou para ir correndo à casa dele que ele e o Pepeu estavam com uma melodia. Que foi um grandioso sucesso. Cheguei lá com meu caderninho, e eles cantando, e eu anotando. E no refrão faltava alguma coisa. E ele estava entusiasmado com (o bailarino e coreógrafo francês) Maurice Béjart, que tinha passado pelo Rio de Janeiro, e ele sugeriu: Eu Também Quero Béjart. Até que, depois do almoço, eu falei: “Moreira, o pessoal não sabe quem é Béjart no Brasil, vamos deixar beijar mesmo?”. E assim ficou. Essa música, que todo mundo conhece. Tenho muito orgulho de ter feito com ele Meninas do Brasil, Pão e Poesia, que são duas músicas atualíssimas, servem para os dias atuais. Estou muito sentido. Um parceiro e um grande amigo. Dos mais leais e dos mais queridos. Sempre estava em contato com ele, conversei muito no sábado último, por telefone, mas não esperava que isso viesse a acontecer. Teria muitas coisas para falar com ele. Ele foi cantar na minha terra comigo (Quixeramobim, Ceará). Fizemos um show há uns dois meses, e fizemos um outro aqui em Fortaleza, no Cine São Luís, superlotado, e foi uma maravilha. E ele adorou fazer isso. Super-parceiro, amigo, também difícil de esquecer. Eu ainda estou muito emocionado com essa história.”

FAUSTO NILO, 76 anos, arquiteto, compositor, letrista, cantor

 

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