Pecora. Capa. Reprodução
Pecora. Capa. Reprodução

Marcelo Bicalho assina capa, projeto gráfico e ilustrações de “Pecora” [Editora Veneta, 2019, 132 p.; R$ 49,90], uma história em quadrinhos sem texto. A ação é toda guiada pelo traço particularíssimo em preto e branco do ilustrador capixaba.

O título é a palavra italiana que traduz “ovelha”. Em se tratando deste animal, impossível não fugir das metáforas bíblicas envolvendo pastores, num tempo em que heresias vendidas como verdade no lodaçal das fake news ajudam a decidir eleições presidenciais, não só no Brasil.

Em alguns quadros o pastor esguio lembra os pescadores do monumento na Avenida Litorânea, em São Luís do Maranhão. Acolá, traveste-se de demônio, ficando no ar o enigma: “ainda não sei se o livro é um lobo em pele de cordeiro, um cordeiro em pele de lobo, ou um pastor em pele de cordeiro para enganar os lobos”, como anota José Roberto Torero num parágrafo na orelha.

Conceitual, “Pecora” é uma hq de contemplação: das paisagens e situações retratadas, que estimulam a imaginação do leitor, entre borboletas que alçam voo, labirintos, transformações, perseguições e cuidados.

O ambiente pastoril remete ao paraíso cristalizado no imaginário cristão, com os percalços para seu atingimento. Não à toa, a epígrafe de “Pecora” é de William Blake (1757-1827), autor de “O casamento do céu e do inferno” (1793). Uma lição possível é: ninguém precisa ser tão lobo ou tão cordeiro o tempo inteiro.

Pecora. Reprodução
Pecora. Reprodução
“Pecora”, de Marcelo Bicalho
Editora Veneta, 2019, 132 p.; R$ 49,90

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