Camila Molina
À direita, sorrindo, a repórter de artes visuais Camila Molina

Uma vez, o editor do Caderno 2, o Evaldo Mocarzel, me chamou e me apresentou uma menina muito pequena, sorridente, mortalmente tímida, e me pediu para ser o conselheiro dela. O Evaldo tinha essas coisas: ele pegava sempre um repórter experiente e colocava um iniciante na cola dele para que lhe ensinasse os macetes, que o endurecesse, emprestasse a animalidade do combate jornalístico diário. Tipo aqueles filmes Máquina Mortífera, Murtaugh e Riggs. Dessa vez, no entanto, deu-se exatamente o oposto: foi a pequena repórter sorridente que ensinou ao veterano que o fim de tudo não é a rivalidade, a concorrência; que os ambientes de trabalho não precisam ser embrutecidos e prenhes de desconfiança para darem resultados de eficiência; e que, no final das contas, o que resta é a amizade, a conquista de uma coisa coletiva, limpa, leal.

Camila Molina, tímida e quase sempre de poucas palavras, em pouco tempo se tornaria a repórter com mais fontes da área de artes visuais do País. Conquistou progressivamente os curadores de bienais mais sisudos, as galeristas mais endiabradas, os diretores de museus mais ensimesmados. Não era incomum que as furibundas coletivas da Bienal de São Paulo estancassem no momento em que ela entrava, para que o curador lhe dirigisse um gracejo, uma brincadeira de boas-vindas.

Até os repórteres concorrentes a amavam. O segredo dela? Ela nunca fingia que era algo que não era, ela simplesmente era uma menina tímida que ficava ruborizada com elogios e incrivelmente desapontada com deslealdades. Era incorruptível, não adiantava dar-lhe mimos ou fazer o cerco com festas formidáveis. Sempre que voltava à redação, relatava a verdade. Até porque era assim que ela compreendia a vida, a única fórmula é amar a verdade. Dava “furos” de reportagem como se estivesse tomando cafezinho na máquina, não deixava a vaidade da profissão ficar maior do que sua alegria. Ficou horas na saída de uma reunião da bienal escutando cada conselheiro que saía, até que, antes de todo mundo, deduziu que Heitor Martins tinha sido eleito presidente e passou a informação para o jornal. Cobriu as crises do Masp com isenção maior que a minha, que não suportava malufistas.

Aguentava pacientemente as brincadeiras reiterativas com sua mineiridade, sua pãodequeijice inabalável. Em 2007, quando foi pela primeira vez à Documenta de Kassel, na Alemanha, perguntávamos como ela ia se virar sem tutu e pão de queijo naquela magnífica desolação da arte contemporânea. Ela gargalhava. Quase morreu de vergonha após a fama avassaladora de corredores de redação que sobreveio quando foi ao primeiro Roda Viva, na TV Cultura.

Camila morria de rir com as caricaturas toscas que eu fazia durante as reuniões de pauta. Pedia que eu assinasse os desenhos e dizia que ficaria rica um dia vendendo aquilo. Ela se alegrou como uma irmã quando nasceram meus filhos. Quando eu fazia algum tipo de piada rançosa, contendo algum preconceito, me olhava tão feio que eu imediatamente virava um caroço de jabuticaba.

Ela me fez amigo do Tio Marinho, seu segundo pai, antes mesmo de conhecê-lo. Ele me mandou uma camiseta da Sociedade Esportiva Guaxupé, hoje meu terceiro time, embora nunca tenha visto aquela esquadra jogar. Camila morria de rir quando eu confessava que tinha inveja da ascendência que a repórter e crítica de arte Maria Hirszman tinha adquirido sobre ela, que isso era um acinte, eu era o verdadeiro mestre, o único e inigualável.  Demonstrava igual entusiasmo tanto por uma cobertura de uma exposição de inéditos de Hélio Oiticica quanto pela repercussão coletiva da morte de um notável das artes.

Camila Medeiros Molina morreu no sábado, aos 38 anos, após uma longa luta de seis anos contra um câncer.  Deu dignidade à sua profissão, e alegrou-se com ela.

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