A autocomiseração do homem-foguete

Em sua espiral de autodepreciação e descontrole emocional, Rocketman talvez só encontre paralelo em O Ébrio, a personificação cinematográfica de Vicente Celestino (1894-1968). Em duas horas de filme, a vulnerabilidade absoluta do personagem Elton John faz com que o espectador tenha vontade de, no mínimo, adotá-lo.

Um doce surrealismo de folhetim, surrealismo de feira da Praça da República, tinge todo o filme, além do fausto delirantemente alegórico de um baile de Carnaval de Clóvis Bornay.  Enfiados nesse universo deliberadamente fake (por vezes resvalando num mundo de personagens de fundo de Zorra Total), os atores projetam seu talento descompromissadamente, sem pacto de sangue para com a verossimilhança.

O filme mostra a gênese de um talento extraordinário, que todos conhecemos, e as cenas que coreografam essa assunção são muito precisas. Ainda adolescente, Reginald Dwight (nome de batismo do cantor inglês), depois renomeado como Elton John, vai fazer um teste de piano na Royal Academy of Music. A professora, que está ao piano quando ele chega, pergunta porque não trouxe uma partitura. Ele responde que ela não pediu. Então ela pede que ele toque qualquer coisa, e ele toca exatamente o que ela estava tocando. Até que estanca. “Por que parou?”, ela pergunta. “Porque a senhora parou aqui”, ele responde. Ela compreende então que ele tem uma memória musical descomunal, além de talento nato.

O ator escolhido para encarnar Elton John, o jovem Taron Egerton, chega perto da perfeição em sua cruzada (é ele mesmo quem canta todas as canções do filme). A personalidade de Elton John é um ersatz da personalidade do Pinball Wizard do Who – acuado desde a infância pela família, um pai ausente (Steven McIntosh, assustadoramente frio) e uma mãe desagradável (Bryce Dallas Howard, assustadoramente alienada). Salvou-o (clichê da mitologia gay) uma avó adorável (Gemma Jones). Depois, acuado pelo “sistema” e as trapaças do estrelato (um amante ambicioso, o empresário John Reid, interpretado por Richard Madden), ele vê se aprofundarem sua bulimia, seu alcoolismo, sua dependência em cocaína e em compras e a carência afetiva.

Há gags que aliviam essa narrativa de suplícios de Elton John. Um Picasso de ponta-cabeça, a escolha do sobrenome John para Elton, os conselhos de um soulman em turnê caça-níqueis, o dueto num bar com o parceiro Bernie Taupin (Jamie Bell) em um clássico da música de faroestes, The Streets of Laredo.

Existem duas formas de se ver Rocketman. A primeira é formal, e sua porção fílmica é fluida, a cronologia não entedia o espectador, as soluções narrativas são estupendas. Os números musicais não visam a excelência – pelo contrário, flertam com o ruído, com a displicência, e nisso reside talvez sua capacidade de empatia mais profunda com o espectador.

Dexter Fletcher, o diretor, demonstra tolerância zero para com o didatismo. As canções não vêm em ordem cronológica, e tampouco os esquetes cênicos precisam ter uma conclusão temporal. Isso também é coragem e trunfo. Trata a questão da homossexualidade com delicadeza, embora muitas vezes embebida de clichês (a revelação para a mãe, ao telefone, é típica piada de bar).

A segunda forma de se ver o filme é privilegiando sua estrutura dramática. Nisso, Fletcher também se saiu bem, porque a escolha de colocar Elton John em uma dinâmica de terapia de grupo desde o início do filme (sem que isso funcione como um empilhamento de flashbacks) é muito bem-resolvida.

É possível ver também o filme como se fosse uma sucessão de videoclipes, isolando cenas musicais. Muitas delas são reconstituições absolutamente impressionantes. O show de estreia no Troubadour, em Los Angeles, que decretou o futuro de Elton John, é mágico – todos no clube levitam ao som de Crocodile Rock. O show no Dodger Stadium, também em Los Angeles, quando Elton, vestido de hitter, sobe no piano com um taco de baseball e manda uma bola para as estrelas, é sensacional.

O final, ao som de I’m Still Standing, mostra Elton saindo do rehab, num videoclipe dos anos 1980, na praia, mixando cenas antigas com a presença atual de Elton/Taron Egerton. Tudo parecia ter se encaixado bem nesse final, mas aí entra uma sequência de “atualizações” de série de TV. “Elton John está sem beber há 28 anos”, diz uma legenda. Ele se curou de quase todos os vícios, mas ainda é louco por compras, diz outra. Parece que o próprio Elton exigiu essa parte, para provar que deu a volta por cima. Se foi isso, ele quase estraga o filme definitivamente.

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