Quando a gente lança um livro, nunca sabe até onde ele pode chegar e como vai ser recebido.
Mas, quando embarcamos com ele para os lugares aonde ele é enviado, dá uma certa sensação de responsabilidade – tipo aqueles batedores da Wells Fargo dos filmes, irmanados à diligência e sua carga. Eu me lancei na estrada, nos últimos meses, para uma odisseia de lançamentos de Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano, perfil biográfico do grande cantor e compositor cearense lançado pela Todavia Livros.

De Belém do Pará até Rio Grande (RS), de São Luís a Vitória, entre noites chuvosas e tardes escaldantes, hotéis de frente pro mar e pousadas nas margens de rios, confesso que andei. Até janeiro, foram cerca de 32 mil quilômetros percorridos e 14 cidades.

São Paulo foi o ponto de partida, como não poderia deixar de ser. No dia 4 de setembro, o livro foi lançado na livraria do Shopping Higienópolis – dias antes, houvera uma festa com show das cantoras Ana Cañas, Karina Buhr e Taciana Barros no Pacaembu, e foi uma noite de muita alegria, música, cerveja grátis e gente bacana, como os garotos da banda Pessoas Cinzas Normais. Mas lançamento mesmo, com rabiscos nervosos do autor para os leitores, foi na livraria Saraiva do shopping.

Comprei um par de botas novas para a ocasião, e foi uma má iniciativa: sempre que uso sapatos novos, sinto-me o Neil Armstrong andando na Lua, não parecem meus. Havia na livraria uma profusão de amigos maravilhosos dando uma força: o Mauricio Stycer, a Mara Gama, a Thais Oyama (amiga que, há 27 anos, me emprestou carro para buscar o filho recém-nascido na maternidade). Jorge Mello foi buscar seu autógrafo (e, certamente, checar se havia sido corretamente citado). Ricardo Kelmer, poeta que organizou coletânea de textos sobre Belchior, também foi. Ainda assim, confesso que fiquei receoso que aquela fosse apenas uma formidável noite de generosidade. Alegre, mas circunscrita ao domínio geográfico e afetivo.

No dia 5, embarquei cedinho para o Rio de Janeiro para o lançamento na Livraria da Travessa, em Ipanema. Ednardo, o lendário artista de Pavão Mysteriozo, tinha me dito que, se estivesse na cidade, iria. O Rio parecia ainda mais assustador, porque conto nos dedos das mãos os amigos. Ednardo demorou, mas chegou com sua boina inconfundível e me ladeou na mesa. A livraria foi enchendo, meu coração acalmando. Ednardo me chamou pelo meu nome (João Batista) e disse que me conhecia há mais tempo do que eu pensava.

“Eu me lembro de seus artigos na SomTrês. Sem falsa modéstia: você era um dos melhores”, sapecou Ednardo, e eu quase explodi de orgulho, inflado. Lucinha Menezes, a primeira intérprete de Belchior, também apareceu cheia de cachos e e cantou uma versão de Paralelas que a gente não conhecia, uma pedra bruta de Belchior. Ela contou sobre sua amizade com o poeta e chorou, e muitos de nós choramos junto. Depois, migramos para o outro lado da calçada, para um bar, e nos dedicamos a falar sobre as contradições de Belchior. Até que apareceu, tarde da noite, o cineasta Neville de Almeida com uma amiga para juntar-se à nossa trupe, uma dessas coisas fabulísticas que só o Rio de Janeiro proporciona.

No dia seguinte, desembarquei na gigantesca Bienal do Livro em cima da hora. Uma entrevista para uma emissora de rádio em Botafogo ultrapassou o tempo fixado e quase perco o lançamento na bienal, uma hidra de 600 mil visitantes e 3,7 milhões de livros vendidos. Cheguei quando o Ronaldo Bressane, um artesão do texto, saía. O mediador da mesa seria o Matthew Shirts, que eu só conhecia de nome. Ele veio falar comigo e tinha lido o livro e seu entusiasmo me deixou calmo e confiante. Éramos três escritores para discorrer sobre o tema num auditório-aquário muito muito cheio, pelo menos umas 400 pessoas, eu calculo. Ao meu lado, o notável botafoguense PC Guimarães, que sabe da arte de entreter multidões; mas não éramos nem eu nem ele o motivo da sala cheia.

Descobri o motivo rapidamente: repartia a mesa conosco uma autora de best-sellers, Ana Beatriz Barbosa, escritora de Mentes Perigosas (mais de 600 mil exemplares vendidos). A maioria das perguntas era dirigida a ela, que tinha uma autoconfiança apaixonante. Ana Beatriz dá consultoria a algumas produções da TV sobre psicopatas e mencionou estatísticas tenebrosas. Por exemplo: psicopatas são 4% da população. Pensei: acho que a estatística sobe quando se trata do Congresso Nacional.

De volta do Rio, me vi dirigindo às 6h da manhã de São Paulo até São José dos Campos, interior de São Paulo, para a Feira Lítero-Musical de São José (FLIM), no dia 17 de setembro. As edificações no parque Vicentina Aranha, projeto do arquiteto Ramos de Azevedo (o mesmo do Teatro Municipal de São Paulo), estavam coalhadas de famílias, crianças, música para todo lado. Entrei no camarim do anfiteatro e me dei conta de que, do meu lado esquerdo, estava Antonio Nóbrega, multiartista cujo jeito de narrar as coisas já é em si uma dramaturgia. Do lado direito estava Alice Ruiz, mulher tão forte que até o jeito dela olhar pra gente já é um manifesto do seu orgulho libertário.

Fomos incumbidos de levar até São José, cada um de nós, um livro que tivesse sido fundamental na nossa formação para discorrer sobre ele à plateia. Eu passara semanas pensado naquilo. Que livro? Que influência? Que formação? Levei um gibi, Ken Parker, dos italianos Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi. Não há nada que tenha sido mais determinante no que eu me tornei do que essa HQ. Ali, entre tiros secos de um velho rifle Kentucky, aprendi poemas de Walt Whitman, versos de Shakespeare, canções de Woody Guthrie. Quando terminei de falar sobre o gibi, tava até com a voz embargada.

Em São José, autografei uns 50 livros e notei que as pessoas já começavam a ouvir falar da biografia. Muita gente vinha para pedir um autógrafo para o pai, a mãe, um tio, uma prima. A angústia de fazer uma dedicatória voltou – o desejo de expressar alguma gratidão sem subserviência, repetir-se com sinceridade, cansar-se sem desmilinguir. Lembrei de Borges citando Emerson (“A própria vida se converte numa citação”) e passei a encarar os autógrafos como algo além do livro, a expressão do momento vivido.

No dia 21 de setembro, caí do céu em Vitória, no Espírito Santo. No mesmo avião que eu, viajaram a cantora Tiê e o comediante e ator Moacyr Franco, que caminhava à minha frente rodando uma mala pequena. Pensei até em tirar uma foto dele escondida, Moacyr é um ídolo desde criancinha. Rogerinho Borges, meu anfitrião, foi me buscar e me levou direto para um almoço no restaurante Pirão para encontrar os integrantes da banda Os Mamíferos, talvez uma das formações mais antigas da psicodelia nacional. Hipsters dos anos 1960, anteciparam os Secos & Molhados em figurino e cenografia e flertaram com a poesia beat enquanto o resto da MPB cortejava a pop art.

Pirão é como chamam o dono do restaurante, Hercílio Alves. À nossa frente, enquanto ouvia histórias sobre Beth Faria, Sergio Sampaio, Max Roach, Edu Lobo, Art Blakey e outros, uma moqueca capixaba borbulhava como um gêiser em Yellowstone. Eu estava ali com os Stones locais: Marco Antonio Grijó (bateria), Mario Ruy (guitarra) e Afonso Abreu (baixo), cavaleiros que, há 50 anos, derrotaram a província na própria província.

À noite, no campus universitário, meu interlocutor seria João Moraes, primo de Sergio Sampaio, a outra grande voz de Cachoeiro de Itapemirim ao lado de Roberto Carlos. Eu contei mais de 300 pessoas no gramado da universidade, e a maioria ainda nem tinha 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Jessica, 18 anos mas cara de 13, veio me pedir um autógrafo para um amigo dela gaúcho, Otto. Eu disse, meio gratuitamente: “Acaso não seria Otto Guerra, o cineasta?”. Ela: “Ele mesmo. Como sabe?”. Não acreditei. Como tivesse grana apenas para um exemplar, ela optou por presentear o amigo. Então, combinei com ela de enviar um para sua casa autografado.

Em Belo Horizonte, no dia 29 de setembro, no auditório da Fiemg, eu esfreguei os olhos e me belisquei: sentado no meio do público, incólume, estava o grande Arnaldo Dias Baptista, dos Mutantes, com sua mulher, a Lucinha. Fiquei baqueado; nosso Syd Barrett, nosso chapeleiro maluco, o mais revolucionário de sua geração. Até brinquei ao microfone contando que tinha prometido não escrever mais biografias, mas se o Arnaldo quisesse, eu esquecia a promessa na hora. Ele riu sem jeito. Fizemos fotos juntos, ele me deu uma foto dele com o Belchior.
Dali, a noitada se estendeu para o Mercado, para um show do inacreditável bloco carnavalesco Viva Belchior. Meu sobrinho Tando dirigiu 200 quilômetros do interior de Minas até Belo Horizonte com uma garrafa de cachaça, uma Antônio Rodrigues exclusiva, e nós a abrimos ali mesmo.

Foi corrido, porque no dia seguinte já tinha a Tarrafa Literária, em Santos, com o Marcelo Rubens Paiva e o João Gabriel de Lima. Um carro veio me buscar no Sumarezinho com outros dois autores que também rumavam para a Baixada Santista: Maria Rita Kehl e o Matthew Shirts novamente. Foi engraçado demais, eles contaram histórias de divórcios e casamentos e amizades e amores comuns em uma única vizinhança de São Paulo durante décadas.

O imponente Teatro Guarany de Santos, de 1882, tava lotado. Como eu estava adiantado, caminhei até o outro lado da praça em frente, um sebo em uma banca, e comprei Verdade Tropical, do Caetano Veloso. Me ocorreu de checar quantas vezes ele menciona Belchior no livro. Zero vezes. De volta ao teatro, eu e Marcelo Rubens Paiva falamos sobre o tema A Vida dos Outros e eu fiquei impressionado em como o Paiva encanta um público com sua franqueza e talento. Ao final, nosso anfitrião José Luiz Tahan nos levou a uma pizzaria e conversamos sobre Pepetela e a literatura portuguesa. Conheci o cartunista Rafael Coutinho, de uma das mais talentosas dinastias de cartunistas do Brasil.

No dia 5 de outubro seria a vez de Fortaleza. O Dragão do Mar organizou shows-tributo a Belchior, e eu mesmo me encarreguei de convidar figuras fundamentais dessa história, como o compositor e cantor Rodger e o arquiteto e compositor Fausto Nilo. Ambos foram sensacionais. Primos e tios de Belchior chegaram de Sobral, e até o irmão do bardo, Gilberto Belchior, esteve lá para conferir a noitada e me dar um abraço. Fortaleza acorreu em peso ao Dragão do Mar: todos os 269 lugares do teatro estavam ocupados, e ficou gente de fora.

No dia 8, no Recife, depois de muitos embates literários em Olinda (após conhecer o Clóvis, que atravessa Goiás numa kombi doando livros), eu me vi numa avenida infinita rumo a um restaurante de comida nordestina, O Parraxaxá, um buffet com forró entre as mesas. Em meio a carne de sol, farofa matuta, bode guisado, sarapatel e pudim de rapadura, um impressionante sósia de Luiz Gonzaga fez o aquecimento da noite e, logo a seguir, a hostess anunciou a nossa presença no recinto.

No dia 15 de outubro, o Festival de Jazz e Blues de Iguape, no litoral Sul de São Paulo, me convidou para uma noite literária. Arrumaram um belo salão num dos edifícios históricos (Iguape é uma das mais antigas cidades brasileiras) e nem a chuva espantou os leitores. Lotada a sala, muitas perguntas bacanas, muitos depoimentos e até uns recortes de jornal sobre a passagem de Belchior pela cidade. No caminho de volta, encontrei o Renato Piau, que acompanhou Luis Melodia por quase 40 anos, e conversamos longamente.

No dia 9 de novembro, voltei a São Luís do Maranhão, uma das noites mais alegres de toda a jornada. No club Fanzine Rock Bar, no centro histórico, o grande músico Tutuca organizou o Tributo a Belchior, com artistas convidados: Marconi Rezende, Milla Camões, Tássia Campos e o próprio Tutuca; além deles, houve o show Transa e outras fodas, com a banda Calabar tocando músicas de Caetano Veloso. Morri de rir com os causos de Robertinho Silva e consegui uma façanha: que o dono do Bar do Léo, o próprio Léo, colocasse uma música a meu pedido.

De volta à pauliceia, no dia 12 de novembro teve uma tarde na Balada Literária, no B_Arco, em São Paulo. Eu e Lira Neto fomos escalados para falar de muitas coisas. Lira Neto biografou Padre Cícero, Getúlio Vargas, a cantora Maysa. Enfrentou a contrariedade de beatos e fanáticos, de doidos e extremistas. “A biografia bem feita é aquela que, no lugar de responder a todas as perguntas, deixa no ar mais um monte de questões a serem respondidas”, ele disse (não é a frase exata, mas é o que ele expressou).

Em 14 de novembro, embarquei para a Feira do Livro de Porto Alegre, um evento literário de rua com 63 anos de tradição. Meu parceiro de mesa era o Juremir Machado, um intelectual sofisticado e humanista combatente. E que tinha acolhido Belchior na cidade quando este chegou ao Rio Grande, fugindo do Uruguai, em 2013. Foi muito divertido. O escritor Eduardo Bueno, que também fazia uma palestra por ali, veio ao auditório e virou uma conversa debochada e amigável. Apareceu o Otto Guerra, caminhamos pelo calçadão, ele me contou histórias assombrosas do Júpiter Maçã, de quem eu usava uma camiseta. A doutora Josy Teixeira e o notável Dogival Duarte me levaram para jantar na Cidade Baixa, no Via Imperatore.

No dia seguinte, peguei um novo voo até Pelotas, pra Feira do Livro de Pelotas. Pirei com a cidade. Meus anfitriões tinham uma livraria de rua na cidade, Vanguarda, que é de dar inveja às das metrópoles. Além de me receber com alegria, me levaram para conhecer Rio Grande, terra do primeiro time de futebol, e a insondável Praia do Cassino, sua extensão fenomenal de 254 quilômetros) e seus molhes como diques holandeses acima do oceano. Comprei um casaco de couro num brechó de um gaúcho e senti saudade antes mesmo de ir embora.

De Pelotas, com escala em Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, fiz o mais longo e demorado voo da jornada. No dia 18 de novembro, já em Belém do Pará, desfrutei da condição de convidado do  magnífico festival Se Rasgum, e lancei o livro para poucos e bons no hostel Ziggy, base de operações do festival. Foi uma espécie de trégua: em vez de falar muito, eu ouvi mais. Ouvi a novidade de Giovanni Cidreira, grande cantor baiano. Molho Negro, banda de demolição. Baiana System. Maglore, junção perfeita entre o indie rock e a baianidade tropicalista.

No dia seguinte, no Mercado Ver-o-Peso, encarando um pirarucu frito, uma cerveja gelada, ouvindo uma versão para o tecnobrega de Crazy, do Gnarls Barkley, vi a ilha do Combu lá adiante, a brisa do rio no rosto, e pensei que era a hora de fazer o check out e deixar o livro viajar sozinho a partir dali.

(texto escrito em janeiro a convite da editora Todavia, hoje publicado aqui como um tributo ao aniversário de 72 anos de Belchior, celebrado hoje; depois disso, já fui a mais uma infinidade de cidades, a última em Curitiba, há três dias, e em dezembro chego a Sumé, Paraíba, onde nasci)

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