Em 2005, eu estava em Nova York e vi uma aglomeração na frente de um restaurante na Rua 46. Muita gente agitada. Parei e também me agitei para saber o que era. Um homem de barba com um rádio no pescoço estava do meu lado e perguntei a ele o que estava acontecendo. “Nicole Kidman está aí dentro”, ele disse. Eu achei a figura intrigante e começamos a conversar. Se um terço do que me dizia era verdade, aquele era de fato um personagem fascinante. Marquei com ele no dia seguinte no festival de Tribeca, perto de Chinatown, para conversar melhor, porque ele era o mais agitado ali. A história saiu parcialmente no jornal, na época, mas hoje, 13 anos depois, achei o texto original da reportagem, que segue:

Jotabê Medeiros
Correspondente

Nova York – O homem da bicicleta verde usa roupas bem amarrotadas e a barba amarela parece endurecida com algum gel. Nenhuma ventania seria capaz de mover seus cabelos. Parece claro que ele não toma banho há alguns meses, talvez um ano. Ele carrega um rádio de pilhas Sanyo no pescoço, amarrado com barbantes. A bicicleta está cheia de sacolas de plástico no guidão, nas quais ele carrega alguns donuts e objetos pessoais.

Ele parece o tipo de lunático que dificilmente alguém convidaria para um sarau, nem sequer para um café, mas quando o homem estaciona sua bicicleta na frente do tapete vermelho de uma pré-estréia do festival de cinema de Tribeca, em Nova York, os seguranças sisudos imediatamente o puxam para dentro. “Como vai, Radioman?”, pergunta um deles, e o posiciona num dos lugares de honra do tapete vermelho. Radioman é o apelido de Craig Schwartz, de 54 anos, e ele costumava viver nas ruas de Nova York como um homeless, um sem-teto. A história de como ele se tornou uma espécie de mascote do cinema nova-iorquino é longa, mas o fato é que até hoje ele já “atuou” em cerca de 30 filmes: Mr. Deeds, A Intérprete, A Fogueira das Vaidades, O Elfo. Sua história serviu de base para um outro filme, The Fisher King.

“Você está atrasado, Radioman”, diz um cinegrafista. “Aquele cara de Os Sopranos acabou de entrar”. Radioman demonstra certa aflição. “Qual cara? Aquele grande? Gandolfini? Jimmy Gandolfini está aqui?”, ele pergunta, ansioso. Conhece todos os atores pelos nomes. “Bruce Willis é meu amigo. Pierce Brosnan, o 007, me deu um relógio de presente”, ele gaba-se. E Jimmy Gandolfini deu-lhe uma dezena de autógrafos em fotos de cena, autógrafos que ele trocou por sanduíches. Ele enumera os “amigos” que fez na carreira: Sandra Bullock, Goldie Hawn, Al Pacino, De Niro, Harrison Ford, Whoopi Goldberg. “Conheço todos”.

Radioman tem carteirinha do Screen Actors Guild, ou seja: é sindicalizado. “Ganho US$ 18 por hora de trabalho, já cheguei a ganhar US$ 700”, conta o homem-rádio. Mas qual é o papel que ele faz nessas produções? “A maior parte do tempo eu sou eu mesmo”, ele diz. “Você já viu Mr. Deeds? Sabe aquele cara na rua que diz para o Adam Sandler: “Hey, olhe pra mim? Aquele sou eu”.

Ele tem um trunfo: como é um cinéfilo obsessivo, dedicou-se a – enquanto vivia nas ruas (hoje mora no Brooklyn, ganhou um apartamento dos amigos) – “mapear” onde estavam os sets de filmagem pela cidade. Visitava todos, posicionava-se em lugares estratégicos e ficava amigo dos produtores. Ganhava comida e ajudava no que podia. Mais tarde, quando precisavam de um figurante na rua, ele era escalado. Tornou-se um personagem lendário no cinema. Encontrá-los nos filmes que mencionam é uma brincadeira como aquela Onde Está Wally?, mas ele não mente: está lá de fato, às vezes durante um tempo que é menor que uma fração de segundo.

“Um dia, eu estava num set de filmagem quando vi sair do trailer o Robin Williams. Eu gritei para ele: ‘Você parece um cartum, Mr. Williams!’. Aí, ele olhou pra mim e veio na minha direção e me disse: ‘Gostei desse cara, quem é esse cara?’. E foi assim que nos conhecemos”, conta o caçador de autógrafos. Não é muito difícil topar com ele em Nova York: basta ir onde estão as filmagens. Ele conhece todas. Reza a lenda que os repórteres de celebridades e os paparazzi o procuram para saber notícias de quem está saindo com quem no mundo do cinema, quem ele viu e o que ele viu. Ele ganha a vida assim. A reportagem do Estado o localizou num restaurante de Times Square, onde ele aguardava do lado de fora a saída de Nicole Kidman, que estava ali para promover o filme A Intérprete.

No tapete vermelho do Festival de Tribeca, ele zomba de um fotógrafo do lado de fora. “Aquele é o Larry, você conhece o Larry?”, diverte-se. O fotógrafo devolve a provocação: “Pergunte a ele como foi que ele perdeu as impressões digitais”. Radioman não quer falar sobre isso. Mas parece que agrediu um policial, anos atrás, e passou um tempo em cana. Nascido no Brooklyn, esteve no Exército e trabalhou para os Correios dos Estados Unidos. “Comecei a beber, e caí nas ruas”, conta, antes de interromper bruscamente a entrevista. “Um minuto, pode ser alguém!”, diz, e corre para ver a limusine que estacionou na rua. Volta em seguida, pára para checar a bicicleta Rolling Rock verde e recomeça como se nada tivesse acontecido.

Então, ele explica a história do rádio pendurado no pescoço. “Quando eu morava na rua, eu costumava ter um rádio. Mas aí eu dormia nos bancos do parque e quando acordava tinham roubado meu rádio. Aí eu resolvi amarrá-lo no pescoço, para que não o roubassem mais”, lembra. “Um dia, estava andando pelo parque e um policial me chamou: Hey, Radio Guy!. O apelido acabou pegando e eu gostei. Isso foi há 12 anos. Virei o Radioman”.
Sua figura dificilmente é ignorada. O Canal 13 de Televisão o acompanhou durante alguns dias em sua frenética busca por sets de filmagem em Nova York. Mostrou Radioman em ação no Central Park e depois o seguiu até o set de The Namesake, o novo filme de Mira Nair, em Downtown Manhattan. Em 2004, o The New York Times fez um perfil dele, em abril de 2004, ao descobri-lo ao lado de Susan Sarandon e John Turturro num cenário de produção de um filme. Era Romance & Cigarettes.

Pessoalmente, o que Radioman pensa do cinema? Quais seriam seus filmes preferidos? Ele não titubeia. “Todos os filmes O Poderoso Chefão. Gosto de todos. Meus atores favoritos são Pacino e De Niro”, conta.

Mas, nesses filmes que participou, alguma vez lhe deram um script? “Não, apenas me dizem o que tenho de falar, e eu improviso. Minha atuação é realista e também é inacreditável. Quando você vive por algum tempo nas ruas do mundo real, sabe que nada é como isso aqui que o cinema mostra. O que se vive nas ruas é indescritível”, ele conta.

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