“Acho complicado você agradar outra pessoa se você não está feliz.” A frase foi dita pelo autor de telenovelas João Emanuel Carneiro, em entrevista sobre o final de A Regra do Jogo, da Rede Globo.

Primeira novela de JEC depois da explosiva Avenida BrasilA Regra do Jogo se despediu melancolicamente do público na sexta-feira 11, sem deixar saudades e sem ter conseguido agradar nem gregas nem troianos. De volta à frase fugidia de João Emanuel: se não agradou é porque seu autor não estava feliz, certo?

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Adriana Esteves na pela da Carminha de “Avenida Brasil”

Não pretendo aqui fingir que estive dentro da cabeça do dramaturgo para checar seus estados de espírito, mas, a exemplo da desastrosa antecessora Babilônia, de Gilberto BragaA Regra do Jogo foi qualquer coisa, menos uma novela feliz. A frustração de expectativas cresceu e nos absorveu ao longo de vários meses, enquanto uma soturna trama policialesca se desenrolava sob direção burocrática da equipe de Amora Mautner, a mesma que fora tão revolucionária nos tempos idos de Avenida Brasil.

Tentar buscar um pouco de contexto é bom, engorda e faz crescer. Avenida Brasil foi ao ar pela primeira vez em março de 2012. Dilma Rousseff iniciava o segundo ano de seu primeiro mandato. Pareciam dias de trégua (ainda que a mídia comercial transbrasileira tratasse a condutora da nação como “faxineira” em vez de presidentA).

530a4aed-4d3f-4844-9827-789f63dea350A Globo investia então, de modo inédito neste século, em uma trama solar de orgulho e valorização da ascensão social experimentada por brasileiras e brasileiros desclassificados (como define o sociólogo Jessé Souza no iluminador livro A Tolice da Inteligência Brasileira ou Como o País Se Deixa Manipular pela Elite, Leya, 2015), que frutificava desde os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Avenida Brasil elogiava o Brasil, as brasileiras e os brasileiros, por estranho que isso possa parecer sendo transmitida por quem a transmitiu. Não foi o que aconteceu com A Regra do Jogo, em nenhum sentido.

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Talvez involuntariamente (será?), A Regra do Jogo representa nos mínimos detalhes o inverso e o reverso de Avenida Brasil. Aconteceu em meio ao Grande Ataque às conquistas sociais brasileiras, operado com fúria e ódio pelo conservadorismo local (e pela extrema direita estadunidense que governa o sistema Globo), e em tudo representa este taciturno e implosivo momento.

Queira ou não seu autor, A Regra do Jogo foi instrumentalizada pelas Organizações Globo para desmentir tudo que Avenida Brasil afirmara. Compôs linha acessória do cenário fantasmagórico do Jornal Nacional ajudando a converter otimismo em pessimismo como numa catequese mais-que-religiosa. Foi sutil como os elefantes que pisam nossas cabeças diariamente no JN.

Não impressiona que não tenha agradado nem israelenses nem cubanas.

Sem querer entrar na mente de JEC, intuo que mora bem aí, na estranha transmutação de ouro em golpismo alucinado, a infelicidade em torno de A Regra do Jogo. Não sou eu que estou dizendo, foi a própria novela que disse. Para além da atmosfera sub-hollywoodiana de tiro, porrada e bomba e das frouxas tramas cômicas colaterais que ocuparam sua trajetória capítulo por capítulo, A Regra do Jogo foi freudiana de cabo a rabo.

O que se viu nos últimos meses na tela do ex-horário nobre (hoje ocupado pelo trem-fantasma sensacionalista do JN) foi uma carnificina intrafamiliar.

O pai de Juliano (vivido por Tony Ramos, ex-namoradinho do Brasil, atual garoto-propaganda frigorífico da Friboi) era o Vilão Completo, o mal do mal do mal. O pai de Dante era o Vilão Incompleto, o vilão trapalhão, o vilão que virou nome póstumo de hospital infantil no último capítulo. O pai das mocinhas perturbadas Nelita e Kiki, vivido pelo petista solar José de Abreu, era mau psiquiátrico, de hospício, a ponto de se revelar o “Pai” da facção criminosa que nunca teve nome e acabar engolido por ela.

(O que em Avenida Brasil era moderníssimo embaralhamento entre o “bem” e o “mal” virou maniqueísmo à moda antiga em A Regra do Jogo: Zé Maria, Romero Rômulo e Gibson Stuart confirmados como o “mal”, o desempregado Juliano e o policial Dante legitimados como o “bem”. Capitão Nascimento curtiu isso.)

A carnificina edipiana foi de deixar Sigmund Freud William Shakespeare em chinelas. Juliano esteve a um palito de estourar a têmpora de papai Friboi, mas se contentou em enviar o homem que o concebeu a redentoras masmorras. Dante amparou nos braços o sangue de assassinato do avô e do pai (adotivos). Gibson acabou assassinado por uma das filhas (que papá havia mantido sequestrada por décadas), em conluio com a outra filha e com a esposa, em nome do restabelecimento da ordem, da felicidade e da paz.

Às mulheres, magistrais em Avenida Brasil e na anterior A Favorita (2008), couberam papéis subservientes de fratricida, inauguradora de hospital infantil com nome de bandido, esposa cega de megaempresário corrupto (Renata Sorrah, numa das piores personagens de sua história), vítima de violência marital redimida por um príncipe encantado, funkeira idosa iludida pelo Mal Supremo…

A vilã cômica Atena tentou alguma reabilitação (feminina?, ou tipicamente misógina?) para as novas gerações, fechando a última cena da novela vitoriosa, com milhões de euros no banco e um filho de bandido bonzinho a tiracolo.

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O que sobressaiu, noves fora tudo, foi a galeria masculina de péssimos pais, sempre dispostos a trair e apunhalar pelas costas os próprios filhos. E de filhos fratricidas – edipianamente, todo mundo quis matar o pai em A Regra do Jogo. E foi aí que morou o diabo.

Se o personagem principal da infeliz A Regra do Jogo fosse o angustiado João Emanuel Carneiro, não haveria outra identidade possível para o Pai da Facção, que o filho tenta inutilmente assassinar em sonho e em pesadelo: Rede Globo.

Como na ficção, o Pai da Fação é supostamente tão bonzinho, protetor e anticorrupção que até parece… uma mãe.

"A Regra do Jogo"
“A Regra do Jogo”

"Avenida Brasil" versão 2016
“Avenida Brasil” versão 2016

14 COMENTÁRIOS

  1. Perfeita análise, na torcida para que JEC reencontre a felicidade, que afinal também é a nossa, brasileiros com orgulho do nosso país. Apesar de você, Rede Globo, o sol há sim de brilhar mais e melhores vezes.

  2. Me desculpe, Sanches…Mas seu texto não poderia ser mais reducionista e tendencioso.Trocando-o em miúdos e me vexa até resumir;pero asi fue:Quando falou bem do que vc aprecia cegamente: sucesso/palmas.Quando fez uma critica generalizada a um aparelho sociopolítico, evidentemente corrompido de fora a fora:Que lixo/não funcionou/mostra a língua rss.
    (Aqui nesse paragrafo acho cabível grifar o seguinte, tenho ciência de seu amor incontinente pela mulher Dilma;mas não misture alhos com bugalhos.Inclusive,o histórico de lutas de Dilma sempre vai me fazer aprecia-la como ser humano vitorioso/como mulher arauto de força uterina;só que seu histórico pessoal de nada serve pra tarimba-la politicamente,infelizmente.Ou e tampouco, para eximi-la no presente de suas ações como política e não como persona…Bem,sigo adiante meu raciocínio extenso…)

    Se o sucesso de A Regra não foi tão grande quanto da sua anterior, foi muito mais demérito de outros e outros telespectadores passionais,de julgamento raso e bitolado como vc.Do que, por defeito na sua ótica arguta e simétrica para com o momento que vivenciamos – estava tudo lá devidamente retratado,dissecado sem pudores de ferir suscetibilidade.Muito mais lúcido e realista, do que nossas vãs ideologias suportariam reconhecer que,sim, está em voga.
    Você,inclusive, tentou recuar nas intenções dos detalhes – propositalmente postos de lado,enfocados os que corroboram com sua crítica parcial e só.Mas até sem querer apontou a contemporaneidade da ótica do autor;não há como nega-la…Não,meu caro amigo,o que o JEC fez não tem nada que ver com uma critica ainda polarizada(esquerda X direita;pobre X rico),sequer, algo que recenda a isso…Foi precisamente o inverso dessa dicotomia míope:Foi,isto sim,a alforria opinativa dos clichês impostos por essas apaixonadas ideologias, todas elas paupérrimas (se) perdidas dentro de si mesmas.O que ele fez foi debruçar um olhar lúcido e bastante atilado para os problemas que vemos pulsar/gritantes nas grandes metrópoles brasileiras,aliás,já não mais restritas a elas – sou interiorana e sei o que digo.
    Pode tapar o Sol(há de brilhar mais uma vez?) o quanto quiser…Afinal,a corda apocalíptica(o juizo final) não arrebenta no lado seguro da classe media informada e agarrada as suas crenças envelhecidas em si – universo seguro,não cairão.A corda arrebenta é lá nas favelas/morros supra siglas,é na mão de minorias errantes como os indígenas…A bomba cáustica dum cotidiano inevitável:Estoura é nas mãos mais fracas – fracas de verdade:em essência e espaço.E você e eu, como cômodos representantes de uma classe media bem informada,deveríamos ter a nobreza de reconhecer isso – eu reconheço.

    Sabe o que essa sua reação mimada/e reducionista me lembra?Precisamente, a mesma reação que a esquerda/refém de púlpito teve ao Terra em Transe – pós delirantes aplausos, dos mais efervescentes comunas e socialistas, quando viram Deus e o Diabo anteriormente.E sim,até pelos mesmos motivos atuais:Porque seus respectivos autores tiveram a coragem de denunciar o fim de um ciclo – navalha na própria carne sonhadora.Tiveram a ousadia de denunciar a morte essencial de um projeto populista, que se diluiu em fisiologismos poluentes/ou,que se esfumaçou em idealizações não aplicáveis…Um tal projeto bem intencionado,que ficou perdido no narcisismo de feitos extraordinários,mas que escaparam das mãos,enquanto seus representantes permaneciam deitados em berço esplêndido convencidos de já terem feito tudo.
    Veja só:Em qualquer realidade sã,com seres que pensam fora da caixa,isentos de passionalidades apenas bem intencionadas,seria-se capaz de reconhecer que,por exemplo, o PMDB é um câncer moral… E que está aliado a eles é necessariamente adoecer, mesmo tendo o organismo com a imunidade ideológica mais bem respaldada.Meu caro, a virulência insana de se instilar um vírus altamente nocivo,na intenção de alcançar o poder autônomo pra solucionar doenças posteriores:É quase sempre fadada ao adoecimento generalizado.Não foi diferente dessa vez,até porque a carne é fraca.Real Politik é só o que se escreve no obituário eufemista.

    Sou socialista ontem e hoje – por princípios éticos humanizados, não por auto adoração viciada;não por fetichismo com bandeiras e siglas.Votei na Dilma nos 2 turnos – foi um voto lúcido e num sentido objetivo;zero sonhos e idealizações.Estive entrincheirada entre as pessoas: Que defenderam o primeiro mandato de Lula como um exemplo de se aplicar o socialismo(pelo menos,um tanto dele) na prática…Só que nunca na minha vida eu deixei que nada,nem a ideologia que trago mais aferrada em mim fosse capaz de empanar meu julgamento próprio.Nada mitiga a amplitude de minha capacidade de auto critica.Nem mesmo a vitória de alguns de meus sonhos,nem mesmo ela é capaz de me iludir no espelho do fanatismo ufano.
    O que Glauber e o que JEC fizeram em suas respectivas obras foi/é um diagnostico orgânico.Não simplesmente apontar tumores específicos,reduzidos a alguns órgãos comprometidos.É sim o prontuário/por pouco,não é o obituário dum organismo adoecido por inteiro;sem ingenuidades ideológicas,sem unguentos.Sem se iludir que sanaremos uma doença tão forte e vasta,apenas com inocentes doses homeopáticas de siglas inicialmente bem intencionadas – no mesmo tratamento conservador de sempre…

    Enfim:Tudo,tudo sempre é reduzido a interpretação clichê:bonzinho/mauzinho.E não temos mais espaço nesse caos-país pra esse tipo de polarização,toscamente hipocondríaca:Prevenindo-se do que não pode se prevenir mais;enquanto a doença factual rói nas entranhas.JEC mostrou tudo isso: em tramas e personagens todo o tempo controversos e isentos de rótulos fáceis.Você deveria saber de tudo isso já,o Lula tá aprendendo empiricamente… E a classe media alta,se ainda berra raivosa seus antiquissimos pregões classicistas, nós que representamos uma esquerda contemporânea só colaboramos com ela,quando nos eximimos de cobrar que os nossos representantes possam ir além de aureolas/estrelas ou tridentes/bicudos rs…De reconhecer que eles são falíveis e onde erraram.Enfim,concluir que a cura pros nossos males atávicos não segue uma bula clichê,não se previne com velhas fórmulas:Se expõe,deixa-se expor doente que está!

    **Pelo amor de Tupã!Pergunta, por exemplo, pras minorias indígenas achacadas por Belo Monte:Pergunta o quanto foi ~benéfico/lindo~ SQN esse projeto trabalhista da Dilma – maquinal modus operandis Vargas;aliás,um Vargas exangue pós suicídio….Pergunta pra os moradores mais atilados dos seios das favelas,o quanto esse delírio de ascensão de classe foi,sim, um sonho com prazo de validade pra vencer – rolezinho te dirá com quem andas.Criolos questionarão “é rótulo de leite A/B/C?A alma flutua/leite a criança quer beber” Pergunta pro Amarildo – e ele ainda berrara de um túmulo remoto sua dor de UPPs.
    Eu te dou como exemplo outras trocentas pessoas que não passam nem perto dessa obviedade coxinha x “esquerdopata” – arghh!Gente que tem projetos sociais sérios nos cernes das suas comunidades,que tem os olhos na realidade nua e crua e não aquele um delírio quase onanista sobre sua preferência política…Lembro aqui agora: A cena do Terra,em que a personagem esquerda-piquete da Glauce fica exibindo fotos de crianças pobres abandonadas….E a câmera vai denotando existir naquilo ali,quase um prazer sádico;as expressões apiedadas~ vão se perdendo na montagem/que se afasta repugnada…Até que fica a voz dela sozinha e aquela sensação de descabimento/a imagem idealizadora desencontrada da realidade…Porque o que uma ideologia cega e cerrada dentro de si vira: É exatamente um mero fetichismo onanista, que nada contribui, fértil, com o nascimento de um Brasil justo/ real.

    Lembro ainda: A reação decepcionada,aguda, que o meu querido Vianinha teve quando viu o Terra.E lembro do meu conterrâneo Caetano mencionando isso com aquela sua inteligência jamais domesticada,enquanto falava da importância absurda que o Terra teve pra ele e outros seus contemporâneos…Consigo entender o Vianinha de 67 ter quase um treco com a realidade cáustica que, Glauber ousou esfregar na cara dos seus contemporâneos representantes da classe media politizada da época.Mas acho tão infantil e mimado uma reação assim,hoje, tantos anos depois.Quando o sentido democrático já nos foi restaurado há um tempo – o suficiente pra descobrirmos tantos males outros ,na verticalidade da nossa liberdade bem-vinda.
    Num tempo:Quando não só podemos,como devemos ir além de dicotomias rasas.A VER:Quando vamos,por exemplo, discutir ecologia,meios limpos de energias renováveis?Se ainda estamos num debate tolo e movediço sobre uma instituição petrolífera corrompida,um trabalhismo desgastado na pratica;um projeto econômico agonizante…E eu tenho que aguentar um carcara velho como o William Wack ,não mais agourando um projeto social(ista).Mas denunciando uma falência que, me causa desconforto só imaginar em ter que rebater todas/uma a uma as suas criticas.E olhe que,aquele ser humano é desprezível o suficiente pra estar errado até calado.

    Enquanto nós da esquerda seguirmos com essa alienação populista datada/uma que já era datada em 1967(quando a repugnante ditadura ainda vigorava firme,chumbando nossos sonhos brasilis…Imagine hoje,em plena democracia;munidos de meios de comunicação tão potenciais como os que temos).Enquanto seguirmos nos protegendo da realidade inquisidora, ‘nimbados'(como diria a poeta) por respostas que já foram dadas mas a outras perguntas…Nada pode se mover,não podemos nem nos entrincheirarmos firmes contra os reaças mais patéticos(que foram ilustrados tão extraordinariamente precisos no Gibson, quanto no Porfírio Diaz de Glauber.E Bolsonaro tá aqui na vida real,infelizmente)… E porque tudo não vai passar de um apaixonado e pobre debate por quem roubou mais ou roubou menos – vejo os debates de rede sociais se reduzirem a isso!!
    Eu confio que sua inteligência possa sair, por minutos que seja, dessa dicotomia moedora de debates – e que não sabe nem pode suportar cutucões bem dados…Aqui lembro daquela caricatura de esquerdista datado que o Adnet interpreta(aquele com sotaque nordestino falando “Réde Globo” rss).

    Marina, como vimos na pratica, não era o remédio pra essa doença chamada polarização – até porque a raiz psicológica deste mal,exige mais que hipócritas soluções curativas;exige uma reintegração de posse das nossas mentes brasileiras.Mas,e por ora, sigo corroborando com todos os pensadores brasilis que tenham a capacidade de enxergar um país,suas doenças orgânicas reais e não, a saúde/ou a doença deduzidas em seus meros representantes brasileiros – siglas,políticos e ideais, são apenas ícones de um todo que é infinitamente muito maior.Gente como Darcy e como Glauber pensaram um país nu,remido e não um enfeitado pelo vicio de bandeiras e caras pintadas.E me orgulho de ver que tenho num autor ainda jovem,ecos de pensadores livres e imensos como esses foram.
    Palmas pra JEC!Palmas pra Glauber,quando deu esse sacode lá em 1967…Sacode que se confirmou com o passar dos anos – é incrível como o Terra segue sendo o retrato político mais definitivo do nosso país,quiçá, da América Latina.Um retrato que JEC capturou com inteligência bastante similar, e soube converter com brilhantismo em imagens e paisagens humanas do nosso país contemporâneo.Seus erros como novelista são os os bobos personagens,caricaturas de suburbanos, do em torno.Mas suas tramas centrais são indefectíveis e insuportavelmente reais… Enfim…Viva! Os antigos e novos iconoclastas,aqueles capazes de dar o tal “tapa na cara” que todo filho deste solo(nada gentil) merece e deve receber…Pra modi acordar de seus berços esplêndidos/sair de seus transes idiossincráticos:Seja eles os dos histéricos e apatetados “bebes” reaças: nos seus diferenciados berços king size de luxo.Ou os delirantes ingênuos, eternamente adolescentes rebeldes:Na sua afofada caminha de sonhos e delírios de ‘Humanas’,que pereceram, e eles não viram enquanto se distraiam brincando com um mobile artesanal verde e amarelo.Porque Brasil não é símbolo,não é ícone;não é uma mera sigla caolha,por mais democrática que ela seja…Brasil de verdade, são outros 500 além!Muito,mas muito mais complexos e amadurecidos.Aliás,aquele ‘Paulo Martins’ Glauberiano morrendo em vão num quadro vazio,sem nem sangue aparente, representa bem nossa incapacidade de nos transcendermos.

    • Oi Larissa. Me sinto orgulhoso de que meu texto (sem grandes pretensões, se posso confessar) tenha ajudado a provocar tantas e tamanhas e tão profundas considerações como as que você fez.

      Não posso negar que o excesso de agressividade em várias passagens, especialmente no começo, me dá uma preguiça doida e quase me impediu de continuar lendo – mas eu continuei, e fiquei feliz, apesar (repito) das explosões de raiva que tive que atravessar (pra que tanta raiva?, credo). Fora isso, um pouco de estranhamento meu também com sua defesa tão intransigente de uma… novela da Globo – pô, se ainda fosse um filme do Glauber (quando não existia ainda a Globo Filmes), hahahaha…

      Mas são só comentários meus aos seus. Fiquei verdadeiramente feliz de ler suas reflexões. Obrigado.

      • Grata, Pedro.Mas quero esclarecer que não defendi a instituição como um todo;eu apenas sei separar o joio do trigo – em todos os sentidos,aliás.Veja só:O jornalismo da Globo me causa convulsões, deveria ser considerado cancerígeno ^^ – desde sempre,filhote da ditadura…Idiossincrático,parcial/ trabalhando em favor de si e só.Alienação e ódio enlatados,remoídos e vomitados tal qual na Veja – ninguém de tarimba leva-os a sério nesse aspecto isolado.Mas esse setor na emissora tem sempre um diretor especifico,sendo o mais recente:O seboso do Ali Kamel,que se já não estiver envolvido diretamente…Indiretamente, sua formula paira ate no comportamento subordinado e mimetizado dos jornalistas globais:Todos eles, ventríloquos sem expressão no epicentro do mesmo armado cirquinho de horrores.Dentre os jornalistas dessa emissora,só respeito incontinente Caco Barcellos.

        MAAS e,por outro lado, quanto a telenovelas e propositivos programas, “dou a Cesar o que é de Cesar”:Produz SIM grandes obras(colossais em termo de produção e primorosas em conteúdo).Obras inquietantes,sim!Como foi O Rei do Gado discutindo em altíssimo nível um tema tão necessário,quanto evitado como é a reforma agrária(!!)Antes,fora dos jargões de compêndios escritos, só vi este tema ser discutido tão profunda e detalhadamente, no filme de um tal Glauber aka in O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro…Pois, e ainda hoje vivemos (n)esse impasse agrário,que ficou resoluto apenas na promessa assassinada do sonho Janguista.
        Adendo – O Rei do Gado da primeira fase tinha ecos daquela primeira parte magistral do Poderoso Chefão:Aquelas cenas de casamento,tomadas e fotografia exemplares;aquela dramaticidade aguda e sanguínea da gente italiana. Aliás,falei do Rei do Gado e seu altíssimo nível de texto/atuação e imagens…E me lembrei do meu amado Darcy Ribeiro contar que via O Rei do Gado, de mãos dadas com a mãezinha dele – já bem doente e velhinha- ,e que ali entendeu a função crucial da telenovela pro brasileiro.Por sinal:Detesto os pseudo intelectuais,’we are clichês(mas os dos outros)’, que querem torcer o nariz para esse gênero latino genuíno/nato.Geralmente, contra-argumentado com sua fome patética por enlatados gringos em TVs pagas – obras que não dialogam em tempo, espaço e nem temperamento com eles. Aquele tal paga pau raso pra Gringolândia,enquanto eles mesmos já não ficam indiferentes,Emmys o digam,as nossas produções brasileiras.

        Continuando em grandes novelas globais, a citar;primeiro recuo ao passado:
        Roque Santeiro foi um delicioso e primoroso escárnio,na Asa Branca caricatura de um Brasilzão cheio de arquétipos nocivos,e de mentiras mitificadas pela necessidade da história.Novela que teveseu original proibido de ir ao ar pela Ditadura,para vir a tona no final dos anos 80;resultando numa obra unanimemente brilhante e popular.
        Voltando pro mais contemporâneo:O Rebu foi coisa de primeiro mundo, no melhor sentido da conotação.Tanto que, eles lá de fora compraram o produto/e formato pra fazer uma série.
        Ficando/estacionando no JEC:Avenida dissecou,mapeou via subúrbio e ostentou uma ascensão de classe que, infelizmente, não vingou empiricamente falando.Mas fotografou,numa plongé rasante/eternizando um momento social áureo do pais.Momento que,inclusive,até a cultura de massa passou a ditar os meios de comunicação.Colocando a elite pra dançar funk e kuduro,mandando beijinho no ombro e um “me serve;vadia,me serve” pras peruas alienadas – o vocês vão ter que me engolir da bocarra escancarada do povão, direto/papo reto,subindo para as cabeças das elites.Numa dança simétrica entre a marginalizada cultura de massa e o vigor econômico que ostentávamos,então.Claro que, sendo assim,deleitou todo e qualquer ‘esquerdista-padrão’ – por assim (mal) dizer.Foi uma obra excelente,claro;adorei e não perdia um só capitulo.
        Mas e no Aqui & Agora:Necessitávamos era colocar os dedos nas/nessas feridas purulentas(com crateras do tamanho do caos da segurança nacional), que efetivamente foram colocados pela mão invasiva de A Regra: Novela que minou a pobreza da polarização entre esquerda e direita.Fugiu do senso comum ,de suas discussões ingênuas,e denunciou um país com problemas de/da raiz até a copa aparentemente enfeitada – problemas atávicos!Num momento exato(precisamente simétrico) em que, há um esvaziamento nas rasas discussões em torno da vetusta polarização esquerda X direita.E no momento que, vemos justamente a lama no ventilador ser atirada de todos os lados – numa inegável crise de representatividade;ou ao menos,num momento de repensarmos muito sobre nossos representantes.E o digo NO GERAL e amplamente,óbvio.Aliás,desde aquela “”Primavera Politica” de junho de 2013 essa bola tem sido cantada;só não ouviu seus ecos em ondas continuas,quem ninou/e colocou “o Gigante’ pra dormir novamente.Aliás,falo do eco real,lejos de hashtags patéticas do Insta.
        Insisto,não há mais espaço pra ingenuidade e boas intenções aparentes:A regra,assinou isso até com o sangue do seu herói de araque,o Romero,morto no ultimo capitulo;justamente,morrendo arauto/ou signo de dicotomias internas que faliram seu projeto existencial.

        Corte rápido…Faltou mencionar os programas interessantes:Amor e Sexo tem desconstruído estereótipos de gênero,tem proposto uma sadia libertação sexual que eu acho incrível poder ver na TV aberta.Tem ainda:O Tá no Ar desse moço Adnet ,que citei em passant no meu coment anterior – um dos poucos humoristas inteligentes e safos dessa nova guarda.Um dos raríssimos humoristas e programas que não fazem humor reaça destruindo minoria,e sim,ataca os grandes – e ataca com classe e originalidade,bem o contrário dos imbecis Gentillis da vida.
        Vi ainda a Globo produzir, alguns anos atrás, um trabalho impressionante pra qualquer amante do teatro/dos clássicos Shakespearianos.Uma obra que mexeu em obras primas/sacras e vetustas,ao mesmo tempo,com uma linguagem estética moderníssima e inquietante:Falo da belíssima série ‘Som e Fúria’.Joio do trigo operandis – é o que digo.[Fecha claque]

        O que ocorre é que eu sei ser imparcial,e sobretudo, com relação a produtos…Até porque apreendi de gente como Darcy e Glauber a capacidade de ter autonomia sobre meus posicionamentos;não precisar condicioná-los a lugares, em tese, mais adequados a que fecundem – e até porque,antes de tudo sou sertaneja e sei bem o que é ter que engolir pedras infecundas pra se projetar cacto-vitoriosa;gosto de topar desafios,ao buscar vitalidade em paisagens tidas como apenas acres.Bem como,ao apreciar algo distinto de minha origem,não precisar/não preciso me contaminar a ponto de descaracterizar minha essência…E nessa carona ‘de essência, que não se perturba com nada adverso a si’:
        Como não lembrar do próprio Glauber,contrariando gregos e troianos, cantando a bola do general(o Golbery) que iria/e foi quem, de fato, promoveu a ‘distensão’.Seu inacreditável elogio a um general,na época deixou seus contemporâneos intelectuais furibundos.
        Ou lembrar/lembrei do Darcy no Roda Viva,sendo interpelado,sutilmente acusado de controverso porque havia tirado foto com bicheiros – na época da inauguração do Sambódromo.E respondendo a altura,com sua verborragia proeminente,deixou claro verdades incomodas: Como o fato,aliás, ate hoje vigente de grande parte do carnaval ser patrocinada por aqueles uns.Concluindo que,por fim, tirou foto com eles abertamente, sim,não em encontros sorrateiros/fazendo acordos escusos.Aliás,a própria visão sobre carnaval que Darcy teve um dia se modificou até a construção do sambódromo:Ele saiu do pensamento clichê de se tratar de uma festa alienada ,pra o entendimento daquilo ser uma ode do povo a si mesmo. Com isso concluído,teve a proeza genial de unir num só sambódromo:a possibilidade de aulas/estudos no restante do ano & festa no fevereiro/ou março.

        A ver,com esses exemplos aleatórios…O que quero/quis dizer? É que tantas vezes os pensadores mais propositivos,todos necessariamente fora da caixa:Primeiro eles nos causam desconfortos,incômodos;pra depois a verdade factual vir glorificá-los no tempo,ah!o sábio tempo.Que antes eles saem de si,para só depois poderem entender um país de complexidades contrastantes convivendo tão estreitas entre si.Tão repulsivas e antagônicas são essas tais divergências,quanto forçadas a se verem e se tocarem frontais – Morro e Rio cartão postal,não me deixam mentir…Inclusive,não a toa, amiúde A regra mesclava frames de coloridas casas de um morro numa viela/aka o sem horizonte,com a paisagem gloriosa e livre do mar carioca – lado a lado;tintas contrastantes numa só tela inteiriça.
        Em suma,digo que: A autonomia de pensamento e a auto critica são fundamentais numa gente que,por ex, tem a herança do colonizador e de povos servis numa só alma agitada – é preciso,ora,pois rs, muito se questionar;não se conformar com resoluções aparentemente já consolidadas.É preciso ainda cutucar,incomodar/e se incomodar consigo mesmo…
        Aliás,esse incomodo, essa contradição semente de novos homens e tempos,A Regra me fez exercitar e afiar nesses últimos meses. E na mesma tônica do Juízo Final proposto pelo Nelson:Ou seja, de um fim aceito como inevitável;mas que justamente açula um recomeço,igualmente inevitável – touché!Tal qual o Terra em Transe o fez lá em 67.Sim,insisto na simetria entre a proposta do filme e a da novela.Costumo dizer que A Regra e o Terra foram insólitos ‘réquiens expectantes’.Distopias tropicais,terceiro-mundistas;cantando incelensas para sonhos perdidos;enquanto já ouvem no eco do Fim,a música do Novo.

        Voltando…Não foi a Globo propriamente quem criou todas essas obras que citei anteriormente, todas referencias de excelentes produtos em seu canal controverso: Foram bons autores,inclusive, alguns renomados esquerdistas como é o caso do Dias(sabemos que, autor de Roque Santeiro).
        Vejo hoje no JEC um provocador contemporâneo, que bebeu muito da fonte Glauberiana.Existe uma entrevista num mini livro biográfico do Othon Bastos(ator que venero),que ele ao mencionar sua convivência de bastidor com JEC na época de Central( o novelista foi um dos roteiristas); conta que o cara vivia interpelando-o sobre os filmes de Glauber,sua convivência com o diretor etc – segundo Othon, longas e detalhadas conversas.Inclusive,JEC poderia ter ficado fechado no meio elitista do cinema, e não o fez,como ele mesmo disse optou pela telenovela/pela sua amplitude;optou pela linguagem popular e acessível desse gênero:Só que, com o detalhe de “nunca subestimar seu público”[SIC].
        A minha defesa,portanto, foi a uma obra que se não foi perfeita – teve seus percalços/aka barrigas -, foi excepcional(sobretudo no sentido de totalmente inesperada,sui generis;escudo anti clichês, acima de analises precipitadas)…Uma obra inovadora: Que fugiu desde o 1o capitulo dos arquétipos gastos de vilão e mocinho,que começou já colocando a que seria/e foi “mocinha” presa porque roubou pra salvar sua mãe doente – e,não fosse o conservadorismo do publico, JEC teria levado ainda mais longe essa ideia de não deixar claro a ninguém quem era mocinho ou bandido nessa trama.
        O Romero é um baita personagem controverso/paradoxal; riquíssimo em suas nuances terrivelmente humanas!Tal qual o fora Paulo Martins no Terra.E ambos, não conseguiram conciliar os opostos paradoxais dentro de si;morreram vitimas de sua própria incapacidade de (auto)decisão.Aliás,Romero remiu Paulo e porque morreu num ultimo gesto heroico consciente,optando pela morte-arauto pra salvar seu antigo rival.Paulo Martins,por outro lado, morreu em vão;agonizando num silencio aterrador – “não conseguiu firmar o nobre pacto com o cosmo sangrento/gladiador difuso:tanta violência/mas tanta ternura”.JEC ainda teve no seu Romero o desplante de substituir a poesia do poeta Paulo Martins,por uma doença auto-imune – um paroxismo/uma quintessência de humano por um fio,que tenho certeza contentaria Glauber.

        A Regra tratou da Síndrome de Estocolmo pela primeira vez na TV aberta,com uma atuação extraordinária daquela moça Evelyn.Ela que, muitas vezes ficou meramente reduzida a ex mulher/adereço de diretor Global.E nessa obra provou-se,pra quem ainda tivesse dúvida e preconceito,ser uma atriz extraordinária na pele da castigada/e contundente Kiki.E falando justamente na personagem dela,um grifo:A Regra,em meio a essa onda das vociferações da tradicional família brasileira,que incluso sabotou a novela antecessora: Colocou pais contra filhos/filhos contra pais,fora de sacralizações familiares, plus relações psicanalíticas;supra axioma apocalíptico bíblico…Uma filha vítima que mata seu pai Hitleriano – putz!Há mil implicações nisso;por mais que se queira reduzir a retalhos psicanalíticos, apenas.Pra mim, foi uma paulada:Tipo O “do mal será queimada a semente”,sim;só que doa a quem doer,nem que doa nas próprias entranhas – sacou?Mais pra tragédia grega,proveitosa parábola do Terrível;do que pra psicanálise, com paciente acomodado no divã.
        Uma novela que não tratou pobres com coitadismo reducionista,nem com porrete reaça:Que situou a corrupção do sistema,desde o mais básico/a priori indefeso morador da favela, até o mais (aparentemente) impoluto megaempresário da farmacêutica – médicos envolvidos,delegados envolvidos!!!Uma obra que, se utilizando dum formato tão castigado por arquétipos de vilania e bondade,conseguiu ainda pôr centenas de conflitos emocionais e éticos numa persona calejada como eu já sou…Quer dizer,venho de uma veneração aos cutucões cinema-novistas(capitaneado por raros iconoclastas natos!), e me vi desprevenida/cartilhas foram pro brejo rs diante das possibilidades humanas que o JEC armou no seu tabuleiro novelístico…Um xadrez complexo;que exigia que se transcendesse julgamentos superficiais,até os sobre si mesmos – diante do iminente xeque mate diário…Até onde nós somos capazes de ir além de nós mesmos: por amor ou ódio,agora ou nunca mais…

        Por mil motivos, tocantes a iconoclastia de forma e conteúdo,achei o texto de A Regra bem superior ao de Avenida – diálogos acachapantes,amiúde,aliás.Personagens centrais bem mais densos e ricos de nuances e tessituras.Embora como obra, eu reconheça que Avenida corresponde melhor as expectativas do gênero telenovela e do publico médio comum desse formato – tanto que,uma foi um sucesso popularesco e a outra não tanto.Eu já previa que algo tão iconoclasta,sui generis, não agradaria tanto quanto um dramalhão legitimamente latino – Avenida carregava nas tintas solares,histriônicas,suburbanas;A Regra carregou nos cinzas e nublados,desbastou tons contrastantes;esfumou limites entre imagens opostas.Mas, foram precisamente escritas em/e para fases distintas de Brasil…E se tem uma coisa que eu acho inegável reconhecer nos trabalhos de JEC: É sua antena ligada,sempre capturando o mais contemporâneo/o mais premente permeando as discussões bitoladas.

      • Puxa!Já fiz umas 4 tentativas de postar minha tréplica ao teu comentário, Sanches.Mas ou ficou retida no spam do blog,ou é longa demais e não enviou(para mim, aparecia como enviado/constando aqui.Mas depois volto ao site e não está mais postada :/). Longa, bem sei que era;só não imaginava que tanto.Em outro momento vou tentar dividir o corpo do texto em 2 comentários e ver se funciona – a minha sorte é que sempre que comento algo mais extenso,eu salvo pra não me perder/ se acontecer de fechar ou cair a internet.
        Tenho certeza que não foi deletado,até porque se esse primeiro e incisivo rs não o foi.Que dirá, este outro que era um comentário mais pro analítico,panoramicamente falando – creio que, a prova de raivas rs.Al fin y al cabo:Sei que isto é um espaço devidamente democrático.

        Se tiver no spam, retido: Cê libera o meu coment,Sanches?Alguma das tentativas pode estar.Só pra saber se foi por tamanho mesmo e terei de dividir.
        Grata pela atenção dispensada…Ah!E pela sinceridade: Que gostei tanto(mas não, como na ‘Vingança’ do Lupicínio rs),ou até mais que a atenção 🙂

  3. PS:O ultimo/enorme parágrafo, naturalmente se desmancharia em 2/aka saltando uma linha como fiz com os demais.Mas como receei que tantos caracteres e espaços saltados não coubessem num só coment,ele foi assim grudado/loon–go.Dividam-no mentalmente,porque não posso mais editar.
    Grata pelo espaço opinativo.

    • Grata, Pedro.Mas quero esclarecer que não defendi a instituição como um todo;eu apenas sei separar o joio do trigo – em todos os sentidos,aliás.Veja só:O jornalismo da Globo me causa convulsões, deveria ser considerado cancerígeno ^^ – desde sempre,filhote da ditadura…Idiossincrático,parcial trabalhando em favor de si e só.Alienação e ódio enlatados,remoídos e vomitados tal qual na Veja – ninguém de tarimba leva-os a sério nesse aspecto isolado.Mas esse setor na emissora tem sempre um diretor especifico,sendo o mais recente:O seboso do Ali Kamel,que se já não estiver envolvido diretamente…Indiretamente, sua formula paira ate no comportamento subordinado e mimetizado dos jornalistas globais;todos eles, ventríloquos sem expressão no epicentro do mesmo armado cirquinho de horrores.Dentre os jornalistas dessa emissora,só respeito incontinente Caco Barcellos.

      MAAS e,por outro lado, quanto a telenovelas e propositivos programas, “dou a Cesar o que é de Cesar”:Produz SIM grandes obras(colossais em termo de produção e primorosas em conteúdo).Obras inquietantes,sim!Como foi O Rei do Gado discutindo em altíssimo nível um tema tão necessário,quanto evitado como é a reforma agrária(!!)Antes,fora dos jargões de compêndios escritos, só vi este tema ser discutido tão profunda e detalhadamente, no filme de um tal Glauber aka in O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro…Pois, e ainda hoje vivemos esse impasse agrário,que ficou resoluto apenas na promessa assassinada do sonho Janguista.
      Adendo – O Rei do Gado da primeira fase tinha ecos daquela primeira parte magistral do Poderoso Chefão:Aquelas cenas de casamento,aquelas tomadas e fotografia exemplares;aquela dramaticidade aguda e sanguínea da gente italiana. Aliás,falei do Rei do Gado e seu altíssimo nível de texto/atuação e imagens…E me lembrei do meu amado Darcy Ribeiro contar que via O Rei do Gado, de mãos dadas com a mãezinha dele – já bem doente e velhinha- ,e que ali entendeu a função crucial da telenovela pro brasileiro.Por sinal:Detesto os pseudo intelectuais,’we are clichês(mas os dos outros)’, que querem torcer o nariz para esse gênero latino legitimo/nato.Geralmente, contra-argumentado com sua fome patética por enlatados gringos em TVs pagas – obras que não dialogam em tempo, espaço e nem temperamento com eles. Aquele tal paga pau raso pra Gringolândia,enquanto eles mesmos já não ficam indiferentes,Emmys o digam,as nossas produções brasileiras.

      Continuando em grandes novelas globais, a citar;primeiro recuo ao passado:
      Roque Santeiro foi um delicioso e primoroso escárnio,na Asa Branca caricatura de um Brasilzão cheio de arquétipos nocivos – tendo seu original proibido de ir ao ar pela Ditadura,para vir a tona no final dos anos 80;resultando numa obra unanimemente brilhante e popular.
      Voltando pro mais contemporâneo:O Rebu foi coisa de primeiro mundo, no melhor sentido da conotação.Tanto que, eles lá de fora compraram o produto/e formato pra fazer uma série.
      Ficando/estacionando no JEC:Avenida dissecou,mapeou via subúrbio e ostentou uma ascensão de classe que, infelizmente, não vingou empiricamente falando.Mas fotografou/eternizando um momento social áureo do pais.Momento que,inclusive,até a cultura de massa passou a ditar os meios de comunicação.Colocando a elite pra dançar funk e kuduro,mandando beijinho no ombro e um “me serve;vadia,me serve” pras peruas alienadas – o vocês vão ter que me engolir da bocarra escancarada do povão, direto/papo reto,subindo para as cabeças das elites.Numa dança simétrica entre a marginalizada cultura de massa e o vigor econômico que ostentávamos,então.Claro que, sendo assim,deleitou todo e qualquer ‘esquerdista-padrão’ – por assim (mal) dizer.Foi uma obra excelente,claro;adorei e não perdia um só capitulo.
      Mas e no Aqui & Agora:Necessitávamos era colocar os dedos nas/nessas feridas purulentas(com crateras do tamanho do caos da segurança nacional), que efetivamente foram colocados pela mão invasiva de A Regra: Novela que minou a pobreza da polarização entre esquerda e direita.Fugiu do senso comum ,de suas discussões ingênuas,e denunciou um país com problemas de/da raiz até a copa aparentemente enfeitada – problemas atávicos!Num momento exato(precisamente simétrico) em que, há um esvaziamento nas rasas discussões em torno da vetusta polarização esquerda X direita.E no momento que, vemos justamente a lama no ventilador ser atirada de todos os lados – numa inegável crise de representatividade;ou ao menos,num momento de repensarmos muito sobre nossos representantes.E o digo NO GERAL e amplamente,óbvio.Aliás,desde aquela “”Primavera Politica” de junho de 2013 essa bola tem sido cantada;só não ouviu seus ecos em ondas continuas,quem ninou/e colocou “o Gigante’ pra dormir novamente.Aliás,falo do eco real,lejos de hashtags patéticas do Insta.
      Insisto,não há mais espaço pra ingenuidade e boas intenções aparentes:A regra,assinou isso até com o sangue do seu herói de araque,o Romero,morto no ultimo capitulo;justamente,morrendo arauto/ou signo de dicotomias internas que faliram seu projeto existencial.

      Corte rápido…Faltou mencionar os programas interessantes:Amor e Sexo tem desconstruído estereótipos de gênero,tem proposto uma sadia libertação sexual que eu acho incrível poder ver na TV aberta.Tem ainda:O Tá no Ar desse moço Adnet ,que citei em passant no meu coment anterior – um dos poucos humoristas inteligentes e safos dessa nova guarda.Um dos raríssimos humoristas e programas que não fazem humor reaça destruindo minoria,e sim,ataca os grandes – e ataca com classe e originalidade,bem o contrário dos imbecis Gentillis da vida.
      Vi ainda a Globo produzir, alguns anos atrás, um trabalho impressionante pra qualquer amante do teatro/dos clássicos Shakespearianos.Uma obra que mexeu em obras primas/sacras e vetustas,ao mesmo tempo,com uma linguagem estética moderníssima e inquietante:Falo da belíssima série ‘Som e Fúria’.Joio do trigo operandis – é o que digo.[Fecha claque]

      O que ocorre é que eu sei ser imparcial,e sobretudo, com relação a produtos…Até porque apreendi de gente como Darcy e Glauber a capacidade de ter autonomia sobre meus posicionamentos;não precisar condicioná-los a lugares, em tese, mais adequados a que fecundem – e até porque,antes de tudo sou sertaneja e sei bem o que é ter que engolir pedras pra se projetar cacto-vitoriosa;gosto de topar desafios.Bem como,ao apreciar algo distinto de minha origem,não precisar/não preciso me contaminar a ponto de descaracterizar minha essência…E nessa carona ‘de essência, que não se perturba com nada adverso a si’:
      Como não lembrar do próprio Glauber,contrariando gregos e troianos, cantando a bola do general(o Golbery) que iria/e foi quem, de fato, promoveu a ‘distensão’.Seu inacreditável elogio a um general,na época deixou seus contemporâneos intelectuais furibundos.
      Ou lembrar/lembrei do Darcy no Roda Viva,sendo interpelado,sutilmente acusado de controverso porque havia tirado foto com bicheiros – na época da inauguração do Sambódromo.E respondendo a altura,com sua verborragia proeminente,deixou claro verdades incomodas: Como o fato,aliás, ate hoje vigente de grande parte do carnaval ser patrocinada por aqueles uns.Concluindo que,por fim, tirou foto com eles abertamente, sim,não em encontros sorrateiros/fazendo acordos escusos.Aliás,a própria visão sobre carnaval que Darcy teve um dia se modificou até a construção do sambódromo:Ele saiu do pensamento clichê de se tratar de uma festa alienada ,pra o entendimento daquilo ser uma ode do povo a si mesmo. Com isso concluído,teve a proeza genial de unir num só sambódromo:a possibilidade de aulas/estudos no restante do ano & festa no fevereiro/ou março.

      A ver,com esses exemplos aleatórios…O que quero/quis dizer? É que tantas vezes os pensadores mais propositivos,todos necessariamente fora da caixa:Primeiro eles nos causam desconfortos,incômodos;pra depois a verdade factual vir glorificá-los no tempo,ah!o sábio tempo.Que antes eles saem de si,para só depois poderem entender um país de complexidades contrastantes convivendo tão estreitas entre si.Tão repulsivas e antagônicas são essas tais divergências,quanto forçadas a se verem e se tocarem frontais – Morro e Rio cartão postal,não me deixam mentir…Inclusive,não a toa, amiúde A regra mesclava frames de coloridas casas de um morro numa viela/aka o sem horizonte,com a paisagem gloriosa e livre do mar carioca – lado a lado;tintas contrastantes numa só tela inteiriça.
      Em suma,digo que: A autonomia de pensamento e a auto critica são fundamentais numa gente que,por ex, tem a herança do colonizador e de povos servis numa só alma agitada – é preciso,ora,pois rs, muito se questionar;não se conformar com resoluções aparentemente já consolidadas.É preciso ainda cutucar,incomodar/e se incomodar consigo mesmo…
      Aliás,esse incomodo, essa contradição semente de novos homens e tempos,A Regra me fez exercitar e afiar nesses últimos meses. E na mesma tônica do Juízo Final proposto pelo Nelson:Ou seja, de um fim aceito como inevitável;mas que justamente açula um recomeço,igualmente inevitável – touché!Tal qual o Terra em Transe o fez lá em 67.Sim,insisto na simetria entre a proposta do filme e a da novela.Costumo dizer que A Regra e o Terra foram insólitos ‘réquiens expectantes’.Distopias tropicais,terceiro-mundistas;cantando incelensas para sonhos perdidos;enquanto já ouvem no eco do Fim,a música do Novo.

      Voltando…Não foi a Globo propriamente quem criou todas essas obras que citei anteriormente, todas referencias de excelentes produtos em seu canal controverso: Foram bons autores,inclusive, alguns renomados esquerdistas como é o caso do Dias(sabemos que, autor de Roque Santeiro).
      Vejo hoje no JEC um provocador contemporâneo, que bebeu muito da fonte Glauberiana.Existe uma entrevista num mini livro biográfico do Othon Bastos(ator que venero),que ele ao mencionar sua convivência de bastidor com JEC na época de Central( o novelista foi um dos roteiristas); conta que o cara vivia interpelando-o sobre os filmes de Glauber,sua convivência com o diretor etc – segundo Othon, longas e detalhadas conversas.Inclusive,JEC poderia ter ficado fechado no meio elitista do cinema, e não o fez,como ele mesmo disse optou pela telenovela/pela sua amplitude;optou pela linguagem popular e acessível desse gênero:Só que, com o detalhe de “nunca subestimar seu público”[SIC].

      A minha defesa,portanto, foi a uma obra que se não foi perfeita – teve seus percalços/aka barrigas -, foi excepcional(sobretudo no sentido de totalmente inesperada,sui generis;escudo anti clichês, acima de analises precipitadas)…Uma obra inovadora: Que fugiu desde o 1o capitulo dos arquétipos gastos de vilão e mocinho,que começou já colocando a que seria/e foi “mocinha” presa porque roubou pra salvar sua mãe doente – e,não fosse o conservadorismo do publico, JEC teria levado ainda mais longe essa ideia de não deixar claro a ninguém quem era mocinho ou bandido nessa trama.
      O Romero é um baita personagem controverso/paradoxal; riquíssimo em suas nuances terrivelmente humanas!Tal qual o fora Paulo Martins no Terra.E ambos, não conseguiram conciliar os opostos paradoxais dentro de si;morreram vitimas de sua própria incapacidade de (auto)decisão.Aliás,Romero remiu Paulo e porque morreu num ultimo gesto heroico consciente,optando pela morte-arauto pra salvar seu antigo rival.Paulo Martins,por outro lado, morreu em vão;agonizando num silencio aterrador – “não conseguiu firmar o nobre pacto com o cosmo sangrento/gladiador difuso:tanta violência/mas tanta ternura”.JEC ainda teve no seu Romero o desplante de substituir a poesia do poeta Paulo Martins,por uma doença auto-imune – um paroxismo/uma quintessência de humano por um fio,que tenho certeza contentaria Glauber.

      A Regra tratou da Síndrome de Estocolmo pela primeira vez na TV aberta,com uma atuação extraordinária daquela moça Evelyn.Ela que, muitas vezes ficou meramente reduzida a ex mulher/adereço de diretor Global.E nessa obra provou-se,pra quem ainda tivesse dúvida e preconceito,ser uma atriz extraordinária na pele da castigada/e contundente Kiki.E falando justamente na personagem dela,um grifo:A Regra,em meio a essa onda das vociferações da tradicional família brasileira,que incluso sabotou a novela antecessora: Colocou pais contra filhos/filhos contra pais,fora de sacralizações familiares, plus relações psicanalíticas;supra axioma apocalíptico bíblico…Uma filha vítima que mata seu pai Hitleriano – putz!Há mil implicações nisso;por mais que se queira reduzir a retalhos psicanalíticos, apenas.Pra mim, foi uma paulada:Tipo O “do mal será queimada a semente”,sim;só que doa a quem doer,nem que doa nas próprias entranhas – sacou?Mais pra tragédia grega,proveitosa parábola do Terrível;do que pra psicanálise, com paciente acomodado no divã.
      Uma novela que não tratou pobres com coitadismo:Que situou a corrupção do sistema,desde o mais básico/a priori indefeso morador da favela, até o mais (aparentemente) impoluto megaempresário da farmacêutica – médicos envolvidos,delegados envolvidos!!!Uma obra que, se utilizando dum formato tão castigado por arquétipos de vilania e bondade,conseguiu ainda pôr centenas de conflitos emocionais e éticos numa persona calejada como eu já sou…Quer dizer,venho de uma veneração aos cutucões cinema-novistas(capitaneado por raros iconoclastas natos!), e me vi desprevenida/cartilhas foram pro brejo rs diante das possibilidades humanas que o JEC armou no seu tabuleiro novelístico…Um xadrez complexo;que exigia que se transcendesse julgamentos superficiais,até os sobre si mesmos – diante do iminente xeque mate diário…Até onde nós somos capazes de ir além de nós mesmos: por amor ou ódio,agora ou nunca mais…

      Por mil motivos, tocantes a iconoclastia de forma e conteúdo,achei o texto de A Regra bem superior ao de Avenida – diálogos acachapantes,amiúde,aliás.Personagens centrais bem mais densos e ricos de nuances e tessituras.Embora como obra, eu reconheça que Avenida corresponde melhor as expectativas do gênero telenovela e do publico médio comum desse formato – tanto que,uma foi um sucesso popularesco e a outra não tanto.Eu já previa que algo tão iconoclasta,sui generis, não agradaria tanto quanto um dramalhão legitimamente latino – Avenida carregava nas tintas solares,histriônicas,suburbanas;A Regra carregou nos cinzas e nublados,desbastou tons contrastantes;esfumou limites entre imagens opostas.Mas, foram precisamente escritas em/e para fases distintas de Brasil…E se tem uma coisa que eu acho inegável reconhecer nos trabalhos de JEC: É sua antena ligada,sempre capturando o mais contemporâneo/o mais premente permeando as discussões bitoladas.

  4. Silvio de Abreu teve papel formador na carreira de João Emanuel Carneiro, além de ser hoje diretor de dramaturgia da Globo. Assim, é claro que freudianamente há outra identidade possível pro Pai da Facção.

  5. A regra do jogo, foi um show de senso comum, visões preconceituosos/simplistas e de vira latismo!!
    Só sei um pouco disso, pq fui obrigado a acompanhar parte da novela, já q meus familiares assistiam todas as noites.

    Avenida Brasil exaltou a cultura nacional. Valorizou produtos nacionais q sempre foram marginalizados. Foi uma novela q deu orgulho de assistir! Bem produzida, continha um ótimo elenco, uma ótima trama, além de todo um contexto social propício pra tal.

    Avenida Brasil >>>>>> abismo >>>> a regra do jogo

  6. Pedro,

    levei um susto quando soube que o autor de “A decadência bonita do samba” estava escrevendo sobre novela, ainda que na Carta Capital. Fui ler pra conferir… ufa, não era decadência. Admirada por você ter paciência de assistir e considerar essas tramas. Aliviada por constatar que seu aguçado filtro crítico se manteve.

  7. Não vi e não gostei de nenhuma das duas. Violência por violência já chega as da vida real que somos obrigados a engolir todos os dias. Gosto de novelas, mas as da 06:00, que são leves e divertidas.

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