“Acho complicado você agradar outra pessoa se você não está feliz.” A frase foi dita pelo autor de telenovelas João Emanuel Carneiro, em entrevista sobre o final de A Regra do Jogo, da Rede Globo.

Primeira novela de JEC depois da explosiva Avenida BrasilA Regra do Jogo se despediu melancolicamente do público na sexta-feira 11, sem deixar saudades e sem ter conseguido agradar nem gregas nem troianos. De volta à frase fugidia de João Emanuel: se não agradou é porque seu autor não estava feliz, certo?

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Adriana Esteves na pela da Carminha de “Avenida Brasil”

Não pretendo aqui fingir que estive dentro da cabeça do dramaturgo para checar seus estados de espírito, mas, a exemplo da desastrosa antecessora Babilônia, de Gilberto BragaA Regra do Jogo foi qualquer coisa, menos uma novela feliz. A frustração de expectativas cresceu e nos absorveu ao longo de vários meses, enquanto uma soturna trama policialesca se desenrolava sob direção burocrática da equipe de Amora Mautner, a mesma que fora tão revolucionária nos tempos idos de Avenida Brasil.

Tentar buscar um pouco de contexto é bom, engorda e faz crescer. Avenida Brasil foi ao ar pela primeira vez em março de 2012. Dilma Rousseff iniciava o segundo ano de seu primeiro mandato. Pareciam dias de trégua (ainda que a mídia comercial transbrasileira tratasse a condutora da nação como “faxineira” em vez de presidentA).

530a4aed-4d3f-4844-9827-789f63dea350A Globo investia então, de modo inédito neste século, em uma trama solar de orgulho e valorização da ascensão social experimentada por brasileiras e brasileiros desclassificados (como define o sociólogo Jessé Souza no iluminador livro A Tolice da Inteligência Brasileira ou Como o País Se Deixa Manipular pela Elite, Leya, 2015), que frutificava desde os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Avenida Brasil elogiava o Brasil, as brasileiras e os brasileiros, por estranho que isso possa parecer sendo transmitida por quem a transmitiu. Não foi o que aconteceu com A Regra do Jogo, em nenhum sentido.

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Talvez involuntariamente (será?), A Regra do Jogo representa nos mínimos detalhes o inverso e o reverso de Avenida Brasil. Aconteceu em meio ao Grande Ataque às conquistas sociais brasileiras, operado com fúria e ódio pelo conservadorismo local (e pela extrema direita estadunidense que governa o sistema Globo), e em tudo representa este taciturno e implosivo momento.

Queira ou não seu autor, A Regra do Jogo foi instrumentalizada pelas Organizações Globo para desmentir tudo que Avenida Brasil afirmara. Compôs linha acessória do cenário fantasmagórico do Jornal Nacional ajudando a converter otimismo em pessimismo como numa catequese mais-que-religiosa. Foi sutil como os elefantes que pisam nossas cabeças diariamente no JN.

Não impressiona que não tenha agradado nem israelenses nem cubanas.

Sem querer entrar na mente de JEC, intuo que mora bem aí, na estranha transmutação de ouro em golpismo alucinado, a infelicidade em torno de A Regra do Jogo. Não sou eu que estou dizendo, foi a própria novela que disse. Para além da atmosfera sub-hollywoodiana de tiro, porrada e bomba e das frouxas tramas cômicas colaterais que ocuparam sua trajetória capítulo por capítulo, A Regra do Jogo foi freudiana de cabo a rabo.

O que se viu nos últimos meses na tela do ex-horário nobre (hoje ocupado pelo trem-fantasma sensacionalista do JN) foi uma carnificina intrafamiliar.

O pai de Juliano (vivido por Tony Ramos, ex-namoradinho do Brasil, atual garoto-propaganda frigorífico da Friboi) era o Vilão Completo, o mal do mal do mal. O pai de Dante era o Vilão Incompleto, o vilão trapalhão, o vilão que virou nome póstumo de hospital infantil no último capítulo. O pai das mocinhas perturbadas Nelita e Kiki, vivido pelo petista solar José de Abreu, era mau psiquiátrico, de hospício, a ponto de se revelar o “Pai” da facção criminosa que nunca teve nome e acabar engolido por ela.

(O que em Avenida Brasil era moderníssimo embaralhamento entre o “bem” e o “mal” virou maniqueísmo à moda antiga em A Regra do Jogo: Zé Maria, Romero Rômulo e Gibson Stuart confirmados como o “mal”, o desempregado Juliano e o policial Dante legitimados como o “bem”. Capitão Nascimento curtiu isso.)

A carnificina edipiana foi de deixar Sigmund Freud William Shakespeare em chinelas. Juliano esteve a um palito de estourar a têmpora de papai Friboi, mas se contentou em enviar o homem que o concebeu a redentoras masmorras. Dante amparou nos braços o sangue de assassinato do avô e do pai (adotivos). Gibson acabou assassinado por uma das filhas (que papá havia mantido sequestrada por décadas), em conluio com a outra filha e com a esposa, em nome do restabelecimento da ordem, da felicidade e da paz.

Às mulheres, magistrais em Avenida Brasil e na anterior A Favorita (2008), couberam papéis subservientes de fratricida, inauguradora de hospital infantil com nome de bandido, esposa cega de megaempresário corrupto (Renata Sorrah, numa das piores personagens de sua história), vítima de violência marital redimida por um príncipe encantado, funkeira idosa iludida pelo Mal Supremo…

A vilã cômica Atena tentou alguma reabilitação (feminina?, ou tipicamente misógina?) para as novas gerações, fechando a última cena da novela vitoriosa, com milhões de euros no banco e um filho de bandido bonzinho a tiracolo.

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O que sobressaiu, noves fora tudo, foi a galeria masculina de péssimos pais, sempre dispostos a trair e apunhalar pelas costas os próprios filhos. E de filhos fratricidas – edipianamente, todo mundo quis matar o pai em A Regra do Jogo. E foi aí que morou o diabo.

Se o personagem principal da infeliz A Regra do Jogo fosse o angustiado João Emanuel Carneiro, não haveria outra identidade possível para o Pai da Facção, que o filho tenta inutilmente assassinar em sonho e em pesadelo: Rede Globo.

Como na ficção, o Pai da Fação é supostamente tão bonzinho, protetor e anticorrupção que até parece… uma mãe.

"A Regra do Jogo"
“A Regra do Jogo”

"Avenida Brasil" versão 2016
“Avenida Brasil” versão 2016

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