“Ocupa, ocupa, ocupa o Minhocão!” O grito de guerra em tom de ameaça é entoado repetidas vezes durante a passagem do bloco Agora Vai pelas imediações do Elevado Presidente Costa e Silva, entre Perdizes e a Barra Funda, em São Paulo, na tarde e noite da terça-feira de carnaval.

O conflito é iminente: todo ano, no final do carnaval, o bloco iniciado há 12 anos sai do largo Padre Péricles e sobe em cortejo ao Minhocão, que balança feito pinguela de madeira ao pula-pula da multidão. Neste ano, a Prefeitura de São Paulo interditou a subida, por questões de segurança (e determinação do Ministério Público), e o trajeto teve de se limitar ao chão firme.

Paulistanas e paulistanos se espremem ao lado da igreja do largo Padre Péricles, na passagem do bloco Agora vai - foto Pedro Alexandre Sanches
Paulistanas e paulistanos se espremem ao lado da igreja do largo Padre Péricles, na passagem do bloco Agora vai – foto PAS

Como é próprio deles e delas, foliãs e foliões ameaçam a desobediência civil. Do anoitecer em diante, chegam recorrentes rumores de que a tribo dos Agora Vai vai invadir o interditado: “Ocupa, ocupa, ocupa o Minhocão!”, ou, entre os mais exaltados, “não tem arrego!”.

Ameaçamos, mas acabamos por não invadir, mobilizados pelos organizadores do bloco que pedem ao microfone que as regras sejam respeitadas e/ou talvez por alguma outra força estranha maior do que essa.

A cidade antes tida como anticarnavalesca por excelência parece viver momentos de consolidação civilizatória. Os índios não perpetramos o ataque, os bandeirantes não são compelidos a acionar os sempre presentes carros estaduais da Polícia Militar, que zunem pisca-piscas maiores que as fantasias folionas, mas não excedem limites.

O acordo tácito se faz: vocês nos concedem o benemérito de um pouco de alegria e cidadania, nós devolvemos a dádiva em forma de obediência e um pouco de folia. Ninguém pode se dizer 100% ou 99% feliz, mas é evidente a olhos nus que os teores de alegria, quiçá felicidade, se alastram pela cidade velha. E a cidade velha, menina, ela não parece mais a mesma com que estávamos acostumadas.

Habitada por índios e bandeirantes e seus mestiços e outras gentes, a cidade rotineiramente brutalizada vive dias incomuns, de pacificação e de confluência incomum de interesses e/ou desejos.

Durante o carnaval de 2016, paulistaníssimos manifestantes anonymous, black blocs e de cara descoberta desaparecem transitoriamente, ativistas de sofá mantêm a militância virtual e uma outra massa humana surge do nada, como se aqui fosse a Bahia, Rio de Janeiro ou Pernambuco, menos São Paulo.

O vai-não-vai do Agora Vai sobre o Minhocão encerra com algum nível de tensão os festejos oficiais, mas a história do carnaval paulistano de 2016 começou antes, mais precisamente no domingo de 24 de janeiro, um dia antes do 462º aniversário da menina cidade velha habitada por índios, bandeirantes, africanas e outras gentes de todo gene e de todo canto do mundo.

 

(Continua em A Rainha Má: por que vocês não gostam de ser vocês?; reportagem completa em Outros carnavais)

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