Não sou o melhor cara do mundo para a tecnologia, mas é difícil não ficar atônito com ela.
Estive participando da Semana de Profissionalização da 10ª edição do Festival Se Rasgum, e anotei algumas pequenas façanhas da tecnologia nos dias em que estive em Belém.
“Infiltrado” no meio do público, um técnico da banda de heavy metal paulistana Project46 (que tocou no Rock in Rio) usava o iPad no show ao vivo para pilotar loops e efeitos, mixando ao vivo, controlando a luz (e também diminuindo os problemas de acústica). Andava para lá e para cá para acertar imperfeições.

Sei que apps como MorphWiz permitem que, ao invés de disparar sequências, a banda tenha alguém criando os efeitos “ao vivo”.A sensação é de qualidade gringa. A banda, que é caruda, feroz de palco, instaurou um motim coletivo em canções como Cinco Minutos de Violência Gratuita. Era seu primeiro show em Belém, mas a plateia sabia todos os códigos, todas as senhas – o que nos mostra que o mundo ficou uma bolinha, para usar um clichê.

Outra cena foi o camelô fazendo na hora a seleção e a gravação ao gosto do freguês no mercado Ver-o-Peso. No meio da rua, no ponto de ônibus. Bastava o cara chegar e ele tirava o laptop da garupa da bicicleta e fazia a seleção.

O show de luzes e tecnologia da aparelhagem é impactante, mas o som estava ruim no show que vi, no Hangar (na festa de 28 anos da aparelhagem Super Pop), perdeu um pouco o efeito – o dado sociológico continua estupefaciente, no entanto.

Gostei mais de algumas revelações nacionais, como a Coutto Orquestra (que brotou das raízes do Armorial), mas achei que os velhos insolentes (Patife Band e Os Mulheres Negras) ainda são os atos mais desafiadores.
Depois continuo aqui o meu balanço.

Prosseguindo, alguns dias depois: Dona Onete é hors concour, está acima das ponderações.

Carimbó Pirata carnavalizou demais, foi Sambô demais da conta, mas tende a se depurar.

Euterpia é uma banda que eu adoraria ter conhecido no auge. Muito interessante, náozzetianamente interessante.

Todas as jovens cantoras são tecnicamente impecáveis: Ana Clara, Liège e Natália Matos. Eu mudaria uma coisinha ou outra no seu conceito, mas tendem a nos dar muitas alegrias ainda.

Céu agora é diva.

 Adriano Cintra me lembrou o Julio Barroso, mas sem a poesia. Daniel Groove extrai o melhor de Roberto  Carlos, Gilliard, Marcio Greyck e Edward Sharpe and the Magnetic Zeros.

Moraes Moreira é o Joel Santana dos Velhos Baianos: embromation mais divertido não existe, e é uma metralhadora de hits! Dancei de me acabar.

Mac DeMarco é um Flautista de Hamelin indie, mas (tecnicamente falando) o som dele estava dos mais difíceis de aguentar.

Léo Chermont é um guitarrista fabuloso. E o João Lemos é um artista na acepção total da palavra. Tocaram com meio mundo, na brodagem, e com todos foram generosos e diversos.

Móveis Coloniais de Acaju é tipo arrastão em Copacabana, quase ninguém escapa.

Agradeço imensamente ao Marcelo Damaso, sem o qual eu não teria completado meu álbum de figurinhas do Brasil de verdade.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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