Muita gente prefere Roger Waters. Muita gente acha que só foi bom enquanto teve Syd Barrett. Há muitos ainda que não abrem mão de creditar a Rick Wright, enquanto “músico mais qualificado do grupo”, a antevisão de uma sonoridade. Nick Mason? Bom, aí não achei ninguém capaz de dar-lhe protagonismo com suficiente veemência

Minha preferência sempre recaiu sobre David Gilmour. Claro que a explicação sempre foi a mais simples possível: desde que Gilmour tocou a primeira nota em sua guitarra no Pink Floyd, nunca mais o mundo conseguiria ouvir aquilo sem saber de onde provinha e quem tocava. Tratava-se de um dialeto particular, profundamente reconhecível e personalizado. Tem uns 5 no mundo com essa capacidade.

Mas era um argumento fácil demais. Depois que comprei meus tickets para o primeiro show de David Gilmour no País, em dezembro, resolvi voltar aos meus discos do Floyd para convencer a mim mesmo de maneira mais profissional. 

Hoje mesmo, em 140 km de estrada, ouvi 7 dos discos mais importantes da banda – dispensei The Wall, porque é uma viagem de puro Roger Waters sem filtro, achei desnecessário. Mas eu precisava de um ponto de partida, para não cair no tecnocratismo. Afinal, essa é uma lista que tem um favorito e, como toda lista, arbitrária e cheia de forçação.

Foi então que, entre meus discos, achei a trilha sonora que o Floyd compôs para o filme More, de Barbet Schroeder, de 1969. A excelência do guitarrista está toda nesse álbum. Na prática, é o terceiro disco do Pink Floyd, e o primeiro no qual todos os vocais são de David Gilmour. Em A Saucerful of Secrets, Gilmour era meio que um penetra ainda, o fantasma de Syd Barrett ali presente tingia tudo com suas cores. Em Ummagumma, Gilmour só tinha composto uma canção, sua primeira na banda, The Narrow Way.

More foi se tornando, ao longo do dia, o meu novo favorito do Pink Floyd. Ele me permitiu estabelecer sem muito drama a diferença entre dois antípodas óticos do grupo, o baixista Roger Waters e o guitarrista David Gilmour (sua simbiose criativa se estabelece na oposição, como muitos astros do rock: Lennon & McCartney, Mick & Keith,  Plant & Jimmy).

Syd Barrett, enquanto pontificou nos discos iniciais (The Piper at the Gates of Dawn e A Saucerful of Secrets), flertou com a distorção e iniciou o uso da máquina de eco e os sons sintetizados, estratégia que atingiu picos dramáticos nos anos seguintes. Syd era a criação de um som novo em uma página em branco. Já Gilmour trouxe o grupo de volta ao artesanato da melodia. Esse dado está claramente definido em More (embora cinemático, ligado ao roteiro de um filme sobre lisergia, costura temas homogêneos, é um álbum no grande sentido da palavra).
The Nile Song é um rock berrado como poucos no seu tempo. Up the Khyber insemina um pouco de bebop na música popular britânica. Cymbaline trai um toque do mais sensacional Bowie.

Pulando quase 10 anos à frente e ouvindo Animals, de 1977, deu para entender a diferença entre a predominância de Waters e a de Gilmour. Em Animals, todas as composições são de Waters (apenas Dogs é uma parceria com Gilmour).  Já aparece ali com clareza o lado de autoindulgência e o messianismo desbragado do baixista, enfatizado por algum megafone como recurso vocal. O baixo assume um papel sísmico na condução da música, com uma certa utilização formulaica, abuso de coros, climas trágicos. Gilmour enfatiza a abstração, Waters o discursão. 
A liderança de Waters em Animals já traía sua tendência à serialidade (por exemplo: Pigs on the Wings 2, a última faixa, fecha com violão compungido, clichê que volta e meia retorna como epílogo dos discos do baixista). A guitarra desce um pouco na hierarquia, funcionando como uma espécie de assobio de panela de pressão ao longo das 5 canções.

Voltando a uma mínima ordem cronológica, comecei então a ouvir Meddle, de 1971. Me parece um disco em que os papéis estão mais equilibrados, as composições mais orgânicas, democráticas. Ele traz, contudo, um blues “bottlenecked” tradicional do Pink Floyd, Seamus, talvez o elemento mais dissonante de todo o lote. Seamus era o cachorro de Steve Marriott, do Small Faces. O próprio cão uiva na faixa. Não é Pink Floyd, é Gilmour – e carrega, ao mesmo tempo, o DNA do Pink Floyd.

Postada ao lado da grandiloquência de Echoes, a última faixa, Seamus é link para uma tradição mais sanguínea do Floyd, e exibe a maestria do violão de David Gilmour, numa rara incursão por raízes, por influências, por nostalgia. Não tem cálculo ali, só diversão.

Não é que eu despreze a contribuição de Roger Waters. Suas obsessões operísticas legaram alguns dos mais impressionantes momentos do Pink Floyd, como The Final Cut (“a réquiem for the post war dream”), The Wall e mesmo Wish You Were Here. E a liderança de Gilmour nem sempre culminou com obras-primas. Por exemplo: A Momentary Lapse of Reason (1987) é bem meia-boca, e igualmente formulaico (The Division Bell, de 1994, eu não lembro e não ouvi de novo, e gosto do último, The Endless River, de 2014). Mas que Waters facilitou as coisas para a publicidade e criou trilhas ideais para as produções de auto-ajuda, isso é inegável. Gilmour dificultou o que pôde.

Considero The Dark Side of the Moon um parêntese, espécie de milagre musical, então não vou me atrever a separar papeis e atribuir protagonismo nesse disco – acho que a estética de Waters predomina, mas raras vezes ouvi uma guitarra tão rascante e precisa quanto em Time. Raras vezes ouvi um vocal tão límpido e sanguíneo quanto em Breathe. E o requinte de tema e letra de Us and Them (“and after all we’re only ordinary men”)?

A primeira intenção aqui era não apelar para nenhum argumento ideológico ou  comportamental. Se Waters é meio missionário político, qual é o problema? Tanto David Gilmour quanto Roger Waters têm fundamental responsabilidade no espraiamento do rock de arena que conhecemos hoje, teatral, pirotécnico. Mas o show de Waters é 75% pirotécnica, o inverso do de Gilmour, que está mais centrado na música. Por isso também o prefiro.

Não comparei nada nem ninguém com Syd Barrett porque Syd foi uma visão, não um método ou uma linha evolutiva. Syd foi como aquelas duas nuvens que se abrem em plena tempestade escura e de lá sai um raio de sol ardido e alheio ao aguaceiro. Fica para outra lista.

DAVID GILMOUR TOCA NOS DIAS 11 E 12 DE DEZEMBRO NO ALLIANZ PARQUE. NÃO SEI DIZER SE AINDA TEM INGRESSO

AnteriorNelsinho não é Lula, não
PróximoTOUSSAINT, ADIEU
Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome