Muita gente me pergunta porque eu gravei um tributo a Billie Holiday, uma cantora de outro tempo, que viveu em uma época anterior à minha. Billie não foi só uma cantora, ela foi precursora do ativismo pelos direitos civis, pelos direitos da mulher negra. Agora mesmo vocês viram a cena do policial que invadiu uma escola e bateu numa menina negra (o caso foi em Columbia, USA, revelado por um vídeo de um colega da escola). Aquele policial não queria apenas bater na garota, ele queria silenciá-la, calar sua voz. Foi a mesma coisa que fizeram com Billie: ela foi espancada, foi violentada, sofreu misérias. Mas conseguiu, com sua arte, suplantar toda a violência e deixar para o futuro um legado de orgulho que me alcançou, e a tantos outros. Foi por causa dela que hoje eu tenho essa carreira“.
Depois de cantar Good Morning, Heartache (1946) e Body and Soul (1930, gravada por Billie em 1957), o cantor José James, prodígio de uma nova onda jazzística que muitos chamam de “jazz soul”, começou a explicar ontem à noite no palco do Bourbon Street, com sua autoridade meio blasé, o motivo que o levou a gravar um disco em  homenagem a Billie Holiday.
O fato é que as canções celebrizadas por Billie ganharam de James versões tão modernas, tão personalizadas e ao mesmo tempo masculinas que pareciam frescas, novas. James e sua banda têm um forte acento de funk, hip-hop e até de rock, e ele meio que tangencia as canções com um punch de MC (o contrabaixista até faz a segunda voz em algumas canções). Ao mesmo tempo em que demonstra conhecer profundamente os standards e seu substrato melódico, ele os transforma em algo que é a matéria-prima do seu tempo: certa agressividade e o espírito de confrontação. Beastie Boys & John Coltrane.
José James cantou quase o tempo todo sentado. Explicou que, pela segunda vez no Brasil, sua paixão por comida o traiu e ele sofreu intoxicação alimentar pela segunda vez também, indo parar no hospital naquela manhã. Ao longo do show, tirou jaqueta, camisa e foi ficando cada vez mais à vontade, ao mesmo tempo que o concerto foi ficando mais quente, o som mais alto.
A potência e a singularidade vocal de José James chega ao paroxismo em canções como Tenderly.  É talvez um dos nomes que traz mais modernidade ao gênero – diz que, em seu próximo disco, pretende revisitar o funk de Mizell Brothers e outros.   

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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