Editora independente do Maranhão reedita livro “degenerado” após 137 anos de sua primeira publicação

O ano de 1878 foi agitado. Álvares de Azevedo lançou A Noite na Taberna e Eça de Queiroz lançou O Primo Basílio, obras-mestras da língua portuguesa. Nasceram Isadora Duncan e Josef Stalin. Morreu o papa Pio IX.

Em São Luís do Maranhão, à época considerada a “Atenas brasileira” (por conta de sua intensa atividade artística), um intelectual rejeitado pelos seus pares, o advogado Frederico José Correa, resolveu ir à forra e contar o que sabia e o que intuía. Publicou Um Livro de Crítica, um bombardeio de considerações sarcásticas sobre o que a “corte” intelectual de sua época produzia e as coisas pelas quais essa corte fazia lobby. Isso foi há 137 anos.

Daí que o historiador e editor maranhense Bruno Azevêdo, um dos mais heróicos e arrojados editores independentes do País, resolveu colocar a reedição de Um Livro de Crítica na mira da sua Pitomba! Livros e discos. Pesquisou e restaurou a tipografia, trouxe subsídios sobre o autor e a época, fez o diabo. Bruno considera que há uma atualidade inquietante nas conclusões de Correa, na mentalidade de panelinha que ainda prepondera. O resultado será conhecido neste domingo, dia 04, às 18h30, na Feira do Livro de São Luís do Maranhão.

Frederico José Correa pagou o preço de sua ousadia. O livro foi tido como degenerado, combatido pelo bom gosto reinante e conduzido ao ostracismo em sua época. Sua divulgação era quase que proibida. Além do texto integral de Um livro de crítica, a reedição contém ensaios de Ricardo Leão (autor do livro Os atenienses e A invenção do cânone nacional) e Henrique Borralho, (autor de Uma Athenas Equinocial: a literatura e a fundação de um Maranhão no império brasileiro).

TRECHO

“Nada mais apreciável do que um bom livro de crítica. O seu autor, colocando-se acima de todas as considerações que fazem o espírito de roda, só olha ao mérito real, e com uma justa e acertada censura proclama os talentos de uns, confunde a mediocridade de outros, corrige erros onde não foram notados, descobre belezas que a outros escaparão, faz calar a opinião de tantos que se fizeram juízes, sem opoderem ser, e desmascara a petulante coterie, que se serve de meios industriosos para dar celebridade a quem a não merece, só porque pertence a certa família de privilegiados, só porque estudaram juntos ou os ligam outros laços e circunstâncias que geram a comunhão de interesses.”

 

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