“Não fala com pobre/ não dá mão a preto/ não carrega embrulho/ pra que tanta pose, doutor?/ pra que esse orgulho?” A Câmara Federal brasileira presidida por Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ressuscitou na quarta-feira 6 de maio, com excessos grotescos, os versos do velho samba “A Banca do Distinto”, apresentado em 1959 pelo paraense Billy Blanco e interpretado no passado por gente bamba como Dolores DuranIsaura GarciaElza Soares, Claudette SoaresMarília MedalhaDoris MonteiroElis Regina.

No papel do “distinto” doutor que manda, faz e arrebenta, o deputado civil ex-comunista pernambucano Roberto Freire (PPS-SP) representou o eleitorado paulista na atitude pré-histórica de partir para a agressão física contra um colega negro, o baiano Orlando Silva (PCdoB-SP), e, em seguida, contra uma colega mulher, a paranaense Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

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Fotos Lula Marques

No papel de “distintíssimo” doutor, o deputado militar tenente-coronel sergipano Alberto Fraga (DEM-DF) complementou a viagem ao trem-fantasma do obscurantismo político afirmando ao microfone, em referência a Jandira, que “quem bate como homem deve apanhar como homem também“.

Líder operador da radicalização reacionária da Câmara Federal em parceria com a mídia tradicional, o carioca Eduardo Cunha assistiu ao ~confronto~ (como definiria aquela mesma mídia) com cara de Eduardo Cunha.

As parcelas da sociedade brasileira que sustentam panelaço de cala-boca contra presidenta mulher e espancamento em massa de professoras mulheres (e homens) reagiram com o habitual silêncio tradutor de tácita aprovação.

A turma do machismo ~cordial~ e da misoginia ~fofa~ partiu imediatamente para a operação-abafa de sempre, prometendo que Jandira ~exagera~, se fazendo de vítimas e culpabilizando os agredidos pelas agressões. É aquela manjada linha ~lógica~ que começa no ~um tapinha não dói~, vai dar no ~estupra, mas não mata~, sonha com a redução da maioridade penal e com o raramente explicitado ~prende, arrebenta, tortura, estupra e mata~.

O pandemônio político parece amplo, geral, irrestrito.

O deputado ex-comunista estapeia, empurra e aperta [email protected] de PCdoB (Partido Comunista do Brasil) enquanto aguarda a fusão de seu partido, PPS (Partido Popular Socialista), ex-PCB (Partido Comunista Brasileiro), com o PSB (Partido Social Brasileiro) do pernambucano Eduardo Campos e da acreana Marina Silva.

O PSB, que ocupa a vice-governança do estado de São Paulo sob as ordens do PSDB (Partido Social-Democrata Brasileiro), aguarda a adesão da paulista Marta Suplicy, ex-petista antipetista feminista pró-direitos humanos que passou toda sua carreira política no PT (Partido dos Trabalhadores) e agora está a um passo de se tornar correligionária do cavalheiro Freire e linha auxiliar dos ex-inimigos tucanos paulistas José Serra Geraldo Alckmim.

O deputado Fraga, ex-policial militar, fala da tribuna em nome do partido conservador direitista que, sob antigos nomes (PFL, PDS, Arena), governou a ditadura civil-militar brasileira de 1964-1984. Todo vincado de botox, o partido do distinto agora se chama Democratas.

Nas ruas e nas sacadas de edifícios de luxo, o ~povo~ branquinho governado pelo clandestino PIG (Partido da Imprensa Golpista) clama por uma ~intervenção militar constitucional~ que jogue por terra todas as leis elaboradas ao longo de décadas por políticos do PT, do PCdoB, do PSB, do PPS, do PSDB e do DEM.

Está todo mundo louco?

A deputada Jandira Feghali, conhecida de FAROFAFÁ por sua militância parlamentar junto à música brasileira, à cultura e aos direitos humanos, aproveita a deixa do relato por telefone dos inaceitáveis acontecimentos na “casa do povo” para tentar nos ajudar a decifrar que diabos está acontecendo com o Brasil.

 

Pedro Alexandre Sanches: Gostaria que a senhora contasse exatamente o que aconteceu ontem no plenário.

Jandira Feghali: O Orlando Silva estava ao microfone reagindo àquela atitude da Força Sindical de jogar notas de papel e solicitando ao Eduardo Cunha que apurasse.

PAS: Para quem não acompanhou, o que a Força Sindical estava fazendo?

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Foto Lula Marques

JF: Estava jogando dinheiro de papel, dinheiro falso, lá de cima, no plenário da Câmara. Orlando estava no microfone exigindo que as câmeras filmassem os responsáveis por aquela agressão à casa. Eu não sei o que ele disse que Roberto Freire se doeu e começou a bater, a dar uns tapas nas costas do Orlando. Eu estava do lado, falando no telefone, e botei o braço atrás do Orlando pra proteger, como quem quer dizer “não toca nele”. Freire pegou meu braço e puxou com força, e ficou segurando embaixo. Obviamente não aceitei, “não toca em mim, tira o braço”, juntou aquele monte de gente. Aí o caldo entornou, foi uma confusão desgraçada.

Aí vou pro microfone e denuncio o que tinha acontecido. Quando estou dizendo que vou levar a questão ao Conselho de Ética, entra o Alberto Fraga no microfone e diz que quem bate como homem tem que apanhar como homem. Ou seja, aí estão duas coisas graves. Primeiro, o preconceito contra a mulher na política. Segundo, eu não agredi ninguém, ao contrário, eu fui agredida. Ele tentou virar a agressão, como se eu tivesse agredido o Freire. Na nota de esclarecimento que soltou, ele diz isso, que eu estava agredindo o Freire e por isso ele foi defender o Freire.

PAS: E o que seria mulher agir como homem, deputada?

JF: Pois é, mulher que faz política, que é firme nas suas posições, que reage, que defende é homem. Lugar de mulher não é na política, não é no plenário, e nem é na sua própria defesa, na sua altivez, na sua dignidade. Essa é a cabeça dele em relação às mulheres. Mulher pra ele deve ser aquela que fica lavando roupa, no tanque, segurando as tarefas domésticas. Quando ele disse isso, não só quebrou o decoro como fez uma ameaça de agressão. Aliás, a história do Fraga todo mundo sabe aqui em Brasília. É um coronel reformado da Polícia Militar, tem denúncias de ligação com esquadrão da morte, defende que deputado ande armado aqui dentro. Quando acabou a confusão, pedi a palavra como líder e falei o que tinha que falar. Estamos agora fazendo o processo, vamos processar o Fraga. O Freire foi pra tribuna pedir desculpa, disse que não foi intencional, que foi só uma reação.

PAS: Pediu desculpa só à senhora, ou ao Orlando também?

JF: Não, ao Orlando não pediu desculpa, não. Só a mim.

PAS: Ele tinha dado tapas nas costas do Orlando? Foram fortes?

JF: Ele estava completamente desestruturado, destemperado. Foi à tribuna pedir desculpas a mim, ao Orlando não pediu. Do Fraga, pegamos as fitas, o advogado já está elaborando o processo. Vamos fazer um pra dentro e outro pra fora, quebra de decoro e processo penal em relação à ameaça.

PAS: Ao Freire não caberia processo também?

JF: Até caberia, mas vamos avaliar sabendo da atitude dele de se desculpar comigo.

PAS: Eu queria aproveitar esse episódio pra tentar fazer com a senhora uma análise de conjuntura, do que é isso que está acontecendo na Câmara e no Brasil. A senhora falou que nunca tinha passado por algo semelhante como parlamentar.

JF: Nunca, jamais. O fato de eu ser a única mulher lider de bancada já incomoda na cabeça desses caras. Mas eu tenho sido muito firme nas minhas posições, falo em plenário, polarizo com a oposição. Tenho uma atitude muito clara na minha participação política como líder aqui. O partido dá opinião o tempo todo através do meu exercício da liderança. Digo o que penso e polarizo com a oposição num excelente nível de debate. Mas eu esperava ser alvo de ataque político, não de ataque físico. O nível de intolerância, ódio e preconceito que a sociedade está expressando se reflete aqui dentro.

PAS: E notoriamente estamos numa legislação conservadora e reacionária também.

JF: Muito, muito conservadora. O Fraga é um fascista. A legislatura cresceu muito sob o conservadorismo, ele faz parte da bancada da bala, nesse estado policialesco que estamos vivendo. Para além do preconceito com a mulher, agregou ódio e intolerância, que é o que você vê na rua e está refletindo aqui dentro. É um momento em que não há mais mediação.

PAS: Esse ambiente começa aqui fora, na sociedade, ou aí dentro, a partir da chegada de Eduardo Cunha?

JF: Acho que é junto. Esses caras também expressam o que a sociedade lá fora está falando. Quando ela fala de golpe, intervenção militar, tortura, pendura Luiz Inácio Lula da Silva na forca, é um grau de intolerância e ódio que está representado aqui dentro. As pessoas não divergem mais da política com alto nível, serenidade, qualificação dos argumentos. Querem agredir, quando acaba o argumento querem agredir.

PAS: Me chamou fortemente atenção, nesse episódio, o simbólico dele. Houve uma agressão a um deputado negro, outra a uma deputada mulher. E, na medida que o cara fala que a mulher age como homem, ele também está sendo homofóbico, como se houvesse um comportamento feminino e outro masculino, que não pudessem ter permeabilidade.

JF: Como se mulher não pudesse fazer política com firmeza. Como se firmeza e coragem fossem características de homem. Firmeza e coragem sempre foram características de mulher.

PAS: Negro, mulher, homossexual, configura-se aí uma tríade dos direitos humanos – não é um episódio simbólico que reflete um ataque aos direitos humanos mesmo?

JF: Não sei por que você está falando homofóbico, acho que é um preconceito de gênero.

PAS: Quero dizer que quando o Fraga diz que a senhora agiu como homem ele está chamando a senhora de sapatão. Viva as sapatões, que conversa é essa?

JF: Entendi, entendi. E tem mais outro preconceito, porque eu e Orlando somos do partido comunista.

PAS: Roberto Freire é ex-Partido Comunista Brasileiro. A senhora e Orlando são do Partido Comunista do Brasil. São pessoas que, de alguma maneira, têm origem no mesmo campo político.

JF: No caso do Fraga, tem também um campo do ódio à esquerda, aos comunistas.

PAS: Mas e no caso do Freire? Por que pessoas que saíram do mesmo campo estão partindo para esse nível de conflagração?

JF: A reação do Freire é destemperada, agressiva. Ele é assim. E ele veio se dirigir exatamente a uma mulher e a um negro, você tem razão. É uma boa percepção.

PAS: Esse PCB que virou PPS, do qual Freire é presidente, ainda é um partido de esquerda?

JF: Não, na minha opinião não é.

PAS: E vai se fundir com o PSB, que é um partido socialista (risos). Tá tudo muito louco, deputada!

JF: Muito louco, muito louco. Essa legislatura, vou te dizer, viu? Aliás, Ulysses Guimarães dizia isso. Perguntavam para ele: “Deputado, o que está havendo aqui?”. Ele respondia: “Espere a próxima”. Estou aqui há seis mandatos e toda legislatura é pior em relação à anterior. Porque tem uma coisa chamada poder econômico firme na eleição. O poder econômico distorce e piora a representação, cada vez mais.

PAS: E como colocar isso em paralelo ao fato de estarmos vivendo governos federais populares, progressistas, de um partido de origem de esquerda?

JF: É que são eleições diferentes. Parlamento e executivo não têm a mesma lógica.

PAS: Não era pra ter? Não era pra termos um legislativo mais progressista?

JF: Com certeza, mas nessa última eleição o grau de polarização foi muito alto. E a não-aceitação da vitória, tem uma série de componentes, que já na campanha se deram. O nível de preconceito contra Dilma Rousseff é absurdo também, né? Há cartazes nas manifestações que a agridem pessoalmente, você deve ter visto.

PAS: Vi de dentro, inclusive, cobrindo aquilo. Foi horrível (risos). Bate-se panela para calar a boca de uma presidenta mulher, sendo a panela um símbolo que evoca um monte de coisa. Espancam-se professores, e a gente sabe que a grande maioria dos professores é de mulheres. Não está configurada uma situação de agressão ao feminino, às mulheres propriamente ditas, que a senhora viveu na carne ontem?

JF: Exatamente, não tenha dúvida disso. Isso é real. O pior são algumas mulheres na rua fazendo isso.

PAS: Na sua avaliação, por que isso está acontecendo? Essa virou uma entrevista abstrata, mas tudo bem…

JF: É abstrato mesmo, tem que analisar melhor. Toda vez que o conservadorismo cresce, que essas forças saem do armário, todas os preconceitos se agudizam: contra comunista, contra esquerda, contra mulher, contra negro, contra gay, porque faz parte do contexto conservador. Há muitos anos essa direita não sai do armário de golpe militar, intervenção, impeachment, rupturas. Quando cresce o conservadorismo, reduz a democracia. 

PAS: Então a atitude conservadora é de alguma maneira uma saída do armário? Tem gente indo para a rua pedir ditadura explicitamente.

JF: Sim, exatamente. Quando o conservadorismo cresce, reduz o espaço do estado democrático de direito e o preconceito fica muito agudo. Em todos os momentos que a democracia é ameaçada os preconceitos aumentam, pode olhar historicamente. É um contexto, a quantidade de jovens negros que estão morrendo não é brincadeira. É um grau de preconceito e um estado judicializado, policialesco. O estado democrático de direito fica ameaçado.

PAS: Deputada, encerrando, #JornalistasLivres estamos com a senhora, apoiamos qualquer atitude da senhora contra as agressões. Nossa festa de lançamento será no dia 24 de maio e a senhora vai receber o convite.

JF: Ah, que ótimo, obrigada.

 

 

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