Um dos maiores fenômenos musicais dos últimos anos está em crise, o funk ostentação. Nascido no ano de 2008 em Cidade Tiradentes, extremo leste de São Paulo, é cada vez menos ouvido entre o público que o consagrou: a juventude da periferia paulistana.

A mudança no cenário cultural começou no ano passado, quando todos os MCs da ostentação ainda gastavam milhares de reais para produzirem seus clipes, mas passaram a falar de artigos de luxo AAA, estes cada vez mais caros e distantes do poder de consumo da nova classe C. No começo da explosão do funk ostentação, o MC Boy do Charmes se imaginava dirigindo um carro modelo Megane ou uma moto 1100 cilindradas. Hoje, as músicas falam em Ferraris e Lamborguinis.

MC Naldinho (centro)
MC Naldinho (centro)

MC Naldinho e a música “Ui Chavoso, meia na canela” conseguiu se tornar um hit com um vídeo clipe amador, tendo um automóvel Jetta como seu maior objeto de “ostentação”. Na letra, gírias quase indecifráveis para quem não faz parte desse segmento de juventude e exaltando uma moda muito própria, a meia na canela. Foi como se a juventude da periferia dissesse aos agora nacionalmente famosos MCs da ostentação que não se identificava mais com eles.

Outro fator que colaborou com a crise do funk ostentação foi o engessamento da divulgação das músicas e clipes. Antes clipes e músicas eram copiados por qualquer jovem e colocados em seus canais no YouTube. Atualmente, os MCs lançam seus trabalhos em canais próprios e dificilmente deixam que eles sejam copiados para outros canais não oficiais.

Se essa estratégia gerou uma receita extra para os próprios artistas, complicou a situação financeira e desmotivou os divulgadores naturais e orgânicos do YouTube, os fãs, que ganhavam algum dinheiro com suas milhares de visualizações.

As primeiras formas de divulgação na internet impulsionaram o funk ostentação para o sucesso, e o fez emergir como uma potência comunicacional, independente do mainstream. O tradicional sistema de divulgação, que envolve rádios, TVs e grandes gravadoras, nunca havia dado o menor espaço para o movimento.

O funk como música mais escutada entre os jovens não começou com a ostentação, porém foi a partir da consolidação dessa vertente que a grande mídia e as gravadoras começaram a abrir espaço para os MCs paulistas e ajudaram que o movimento ganhasse dimensão nacional.

Antes da ostentação, o proibidão, muito forte na Baixada Santista, e a chamada “putaria”, oriunda do Rio, já eram febre nas periferias de São Paulo. Mas pelo conteúdo de suas letras fora dos padrões comerciais (a regra era falar de crimes, facções, consumo de drogas ou sexo de maneira explicita) os artistas dessas vertentes não se apresentavam em programas de TV, nem eram assediados por grandes gravadoras. Só serviam como pauta de jornais e revistas nas páginas policiais, quando ligavam suas músicas ao crime organizado.

E então surgiu a ostentação. Com esse tipo de funk em alta, muitos dos MCs acostumados a cantar apenas em salões de periferia e bailes de rua começaram a se apresentar em casas noturnas de luxo. A classe alta assimilou bem suas músicas e se tornou consumidora de funk ostentação. Foi parar em trilha de novela.

Com milhões de acessos no YouTube, os MCs da ostentação passaram a ser disputados por emissoras de TV, tiveram suas músicas veiculadas em grandes rádios comerciais e se aproximaram das grandes gravadoras – as mesmas que torciam o nariz para movimentos que não controlavam.

Essa aproximação fez com que os MCs da ostentação mudassem suas letras e ritmos para um formato mais adequado ao gosto de seus novos consumidores, a classe alta, e aos padrões do que exibe a grande mídia.
Outro fato que deve ser levado em conta quando falamos na crise do funk ostentação é o momento que vive a economia brasileira. Quando surgiu, o movimento teve seu ápice acompanhando a “ascensão da nova classe média”.

O resultado dessa crise é que os atuais sucessos do funk nas periferias em São Paulo voltaram a ser um misto de proibidão e da chamada “putaria”. O Passinho do Romano, hoje a maior febre, surgiu depois que um dos jovens dançava se contorcendo após ter inalado o que chamam de lança perfume, que na verdade é uma fórmula amadora e imprecisa que reúne éter, aroma de alguma fruta e acetona, além de outras possíveis químicas.

MC Bin Laden
MC Bin Laden

O Passinho do Romano surgiu antes mesmo que as músicas falando sobre ele fossem lançadas. Hoje, embora tenha tomado uma enorme proporção e não estando mais tão diretamente ligado ao consumo de lança perfume, os primeiros sucessos que falavam do “Romano” tinham citações explicitas ao consumo de drogas como “Lança de Coco”, de MC Bin Laden, “Passinho do Romano”, de MC Crash, e “Não quero Flash”, de Juninho Jr.

Além de fazer sucesso com suas músicas para o Passinho do Romano, MC Bin Laden ressuscitou o funk proibidão, falando do crime na periferia de São Paulo. Na fase áurea da ostentação, essa vertente sobrevivia apenas na voz do MC Kauan. Bin Laden tem entre seus primeiros sucessos a música “Barulho do motor -Bololo” e “Bololo – Haha”.

MC Pedrinho
MC Pedrinho
Entre as músicas da chamada “putaria” é o MC Pedrinho, com apenas 11 anos e que ganhou o apelido de “príncipe da putaria”, quem incendeia os bailes. Seu maior sucesso é a música “Dom, Dom, Dom”. Além de Pedrinho, os MC Livinho, com “Picada Fatal”, e MC Japa, com “Perereca Suicida”, são alguns dos novos Mcs que fazem sucesso dentro desse subgênero do funk.

Outro duro golpe no funk ostentação foi a ampliação dos “fluxos”, os bailes de rua chamados pela grande imprensa de “pancadões”, onde surgiu o Passinho do Romano e as músicas de proibidões e putarias são as mais tocadas. Os “fluxos” fizeram com que caísse a demanda por MCs. Os cachês despencaram. Os “pancadões” são realizados apenas com a aparelhagem de som dos próprios carros, sem apresentações ao vivo.

As casas noturnas da periferia, que contratavam MCs de sucesso e garantiam bons cachês para ter suas pistas cheias de jovens, estão vendo seu público minguar. Elas não têm como concorrer com os “fluxos” que brotam espontaneamente na rua. É muito mais barato para quem frequenta, por não pagar entrada e se pode comprar bebida muito mais barata nos camelôs ou levando de algum supermercado.

Os novos MCs de sucesso fazem menos apresentações e por vezes tem um cachê reduzido. Sua fama acaba por se limitar, em muitos casos, a uma ou duas músicas, em uma cena musical muito mais volátil.

Embora a vertente da ostentação não apareça mais na grande mídia como no ano passado, a força do funk continua sendo a principal trilha sonora da juventude que vive na periferia. Mas o que se vê agora é que, mais uma vez, ela está em rápida transformação e se identifica com outros MCs e letras de outros temas.

10 COMENTÁRIOS

  1. Difícil em Farofafinha…

    E os fluxos continuam importunando os moradores trabalhadores da periferia…

    O som automotivo rolando solto e ninguém consegue dormir, estudar e etc…

    Quebraram o Hip Hop no meio para nunca mais existir…

    Agora para a periferia de SP onde um dia começou existir consciência com Racionais, Rapin Hood, Sabotage, Thaíde e principalmente Facção Central, remanesce apenas o “boquete bom”…

    Eu tô avisando que o funk faz mal a São Paulo desde 2003 quando ouvi os primeiros proibidões na quebrada (Renatinho e Alemão – “Parque dos Monstros”, Careca e Pixote – “E se mexer com nóis” e etc)… agora a periferia amargura ao som do pepeca do mal…

    • Isso, quem mais sofre com os fluxos são os moradores de periferia que não conseguem dormir no fim de semana ou estudar de noite.
      Não basta só exaltar o funk por ser produto da periferia, o próprio Sabotage chegou a criticar o funk quando este estava surgindo. Eu vejo com pessimismo quem empurra com a barriga o funk como sendo algo saudável para os jovens de periferia.

  2. Cada um escuta o que quiser, mas, não gosto do funk ostentação, pelo simples motivo de pregar um capitalismo selvagem, pois, só se ostenta que a maioria não possui, água ninguém ostenta, porque a maioria têm.
    Sobre o funk “putaria” para quem é homem gosta para “dançar” com uma mulher, mas, não quer que sua filha dance, portanto, acho muito apelativo.
    O Rap com criticas sociais é uma dos melhores na minha opinião.

  3. Difícil em Farofafinha…

    E os fluxos continuam importunando os moradores trabalhadores da periferia…

    O som automotivo rolando solto e ninguém consegue dormir, estudar e etc…

    Quebraram o Hip Hop no meio para nunca mais existir…

    Agora para a periferia de SP onde um dia começou existir consciência com Racionais, Rapin Hood, Sabotage, Thaíde e principalmente Facção Central, remanesce apenas o “boquete bom”…

    Eu tô avisando que o funk faz mal a São Paulo desde 2003 quando ouvi os primeiros proibidões na quebrada (Renatinho e Alemão – “Parque dos Monstros”, Careca e Pixote – “E se mexer com nóis” e etc)… agora a periferia amargura ao som do pepeca do mal…

  4. Arte quer dizer técnica! Não há nenhuma técnica na confecção disso que se alcunha como Funk Ostentação, haja visto que qualquer moleque analfabeto de bonezinho pra trás e corrente de bicicleta no pescoço é capaz de “criar” uma ou duas rimas pobres e já se considera um poeta, na verdade, um MC, mestre de cerimônias! Quão pobre são as pessoa que impõem às outras essa porcaria à taxa de milhões de decibéis, infernizando a vida de todos em detrimento de nenhum benefício estético ou artístico que não seja a própria orgia da consumação de fumo, pó e álcool em plena luz do sol aliada a cenas de sexo explícito de moçoilos e moçoilas de parcos 13… 15 anos. Isso é cultura da periferia? Isso é o fim do mundo, nada mais!

  5. Funk ostentação é a legalização da pedofilia.
    “Novinha”, é termo para as meninas menores de idade, que com seus 11 ou 12 anos, já sentam como ninguém, segundo as letras. Também chupam e, como 1 cara só já não satisfaz, partem pra orgia. Isso tudo é reconhecido como cultura brasileira. E assim seguimos…
    Sem falar no MC Brinquedo e sua turma. Garotos de 12 anos gravando videos completamente chapados de maconha com os pais aplaudindo.
    Mas…isso tudo vem da periferia (eu MORO na periferia e sei como é) e para a esquerda brasileira marxista, tudo que vem dos pobres é digno e deve ser respeitado. Inclusive o bandido que matou minha prima essa semana, dia 25/03, pois ela não entregou o celular. Para a esquerda, esse que matou minha prima é vítima do sistema, ou seja, um ser que perdeu 100% sua capacidade de raciocinar por ter visto um comercial de celular e agora é totalmente dominado pelo sistema. E ele não pode mudar. Só derrubando o “capitalismo opressor”, que aliás é endeusado pelos funkeiros, é que o mundo será feliz para sempre.

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