Segundo a Wikipedia (sorry, não tenho fontes muito diversificadas nessa área), o cartão vermelho só foi introduzido nas Copas em 1974. “Até então, as advertências e expulsões eram feitas de forma verbal. O árbitro avisava os atletas e anotava as advertências em sua caderneta. Porém, muitas vezes essas advertências não eram entendidas. Assim, para que os torcedores e jogadores pudessem compreender o que se passava em campo, o cartão amarelo e vermelho foi introduzido. Já o cartão amarelo apareceu na Copa 4 anos antes, em 1970”, diz o verbete.

Imagine o cara desenhando o episódio Suárez na caderneta: uma arcada dentária em cima de uma pizza calabresa e uma anotação à frente: 3 X (três vezes). Um jeito gráfico de mostrar que o uruguaio era reincidente. A cabeçada do Zidane no Materazzi seria anotada assim: “Irmã no meio, cabeça no plexo solar do italiano”.

O primeiro jogador a receber o primeiro cartão vermelho foi o chileno Carlos Caszely (já tinha recebido um cartão amarelo no jogo anterior). O cartão foi dado pelo juiz turco Dogan Babacan (um sobrenome desses é sopa no mel para a piada, não?).

O episódio Suárez acirrou os ânimos do debate (cheguei a ver argumento do tipo: “Se a Fifa é desonesta, que moral ela tem para punir o Suárez?”). É aquele velho negócio: se fulano é picareta, então tudo é permitido, estou liberado para ser desonesto (ou covarde) também. Para começar, o futebol não é a Fifa, o futebol somos nozes.

Mas como isso tudo também despertou uma suposição, paranoica, de que haja um mirabolante plano para beneficiar o Brasil, busquei alguns dados para o debate. Descobri que o Brasil, na verdade, nunca foi muito poupado. Foi o País que mais levou cartões vermelhos na História das Copas: 11. Em segundo lugar está a… Argentina, com 10 vermelhinhos. O Uruguai está em terceiro, com 9, e com 8 estão Camarões e Itália.
Essa Copa também pode terminar como uma das menos violentas da História – isso se ninguém abrir a caixa de ferramentas em cima do adversário daqui por diante. Até agora, foram 9 cartões vermelhos: Marchisio (Itália), Valencia (Equador), Pepe (Portugal), Defour (Bélgica), Alex Song (Camarões), Katsouranis (Grécia) Rebic (Croácia), Max Pereira (Uruguai) e Palácios (Honduras). Digamos que a expulsão de Suárez foi um cartão vermelho do tamanho de uma tela do Rodchenko.

A mais violenta das copas recentes foi a de 2006, com 28 cartões vermelhos. Em 2010 e 2002, foram distribuídos 17 vermelhinhos em cada uma. Curioso notar que a expulsão de Felipe Melo, em 2010, lhe valeu a execração pública no Brasil – talvez por ser perna-de-pau, talvez pela falta de sutileza. O brasileiro não foi complacente com seu destempero e covardia.

O camaronês Rigobert Song foi o primeiro futebolista a receber 2 cartões vermelhos – um em 1994, e o outro em 1998. Zinedine Zidane fez o mesmo, em 1998 e 2006. Com a expulsão de Alex Song (primo de Rigobert Song) em 2014, a família Song passa a ser a família com mais expulsões em copas: 3.

Maradona ficou indignado com a expulsão de Suárez. Excluído por doping de uma Copa, ele sabe o que é o papel de réu. Sempre também se gabou de ter feito um gol de mão contra a Inglaterra. “Lo marqué un poco con la cabeza y un poco con la mano de Dios”. Craque eterno, mas convenhamos que não é o melhor conselheiro para assuntos de natureza ética.
Escrevi sobre o assunto Suárez no Facebook. Foi curto meu arrazoado:

 Tanto Lugano quanto Mujica sustentaram a tese da normalidade da agressão, decorrência da hostilidade natural de um jogo. Gosto de ambos, mas discordo. A bola não estava em jogo, e a ferocidade insólita de Suárez não me pareceu mera desforra. Fora o aspecto da covardia, do ataque sorrateiro. Já briguei no futebol algumas vezes, e os brios se revelam no tête-à-tête. Muitas vezes, o pequeno se insurge contra o gigante por conta do clamor da Justiça imediata – é no ato que se busca a reparação pela via da ignorância. Suárez mastigou seu ressentimento. Não sei quanto ao tamanho da punição, mas seria um passaporte para a barbárie se ela não viesse.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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