Uma das maiores indelicadezas dessa Copa do Mundo (ao menos até aqui) foi cometida contra um senhor de 87 anos, Alcides Ghiggia. Carrasco da seleção brasileira no Mundial de 1950, o ex-jogador uruguaio veio ao Brasil e, quando chegou, na semana passada, a Fifa não tinha providenciado para ele nem credencial nem ingresso. Era convidado de honra. Com problemas físicos, ainda o deixaram esperando em pé por mais de meia hora.

Ghiggia é um patrimônio de todas as Copas do Mundo. Ghiggia é o nosso fantasma e a nossa ligação com o futuro. E o maior legado de uma Copa do Mundo é a própria Copa, essa é a lição histórica. Não é o edifício, não é o lucro, não é o oportunismo político: é o humano, o balé cultural. A maior mobilidade que se pode legar é a que acontece dentro da cabeça. A elevação das expectativas.

De Beckenbauer a Higuita, tudo vira História, tudo vira cultura, tudo serve para aproximar o Planeta de si mesmo.Por causa da Copa, hoje o Brasil todo descobriu que há um novo Rei da Espanha, e debate para que serve um Rei, o que um Rei está fazendo no meio de um desemprego de 25%, que tipo de benefício ele pode trazer para a abalroada seleção espanhola (e para seu País). Na ressaca da derrota, os japoneses deram a maior lição de civilidade ao mundo, recolhendo seu próprio lixo após o jogo.

Tudo é símbolo, tudo é signo. A língua de fora de Van Piercing (ooops, Van Persie) impõe-se como um exorcismo anti-Mick Jagger, a língua que erra. O maravilhoso primeiro gol da Bósnia numa Copa tinha que ser no meio das canetas de um argentino. O gol mais bonito tinha que ser de um (improvável) australiano, Cahill. Os norte-americanos, tarados por recordes, marcaram o gol mais rápido. A maior zebra tinha de ser a Costa Rica.

Pirlo foi um Claudio Abbado regendo um Il viaggio a Reims de Rossini para cima da impecável Inglaterra, mantendo a sua máscara de indiferença mesmo com o calor de 40 graus. Alexis Sanchez foi um tornado vindo desde o deserto do Atacama para fuzilar as esperanças espanholas.

Dessa Copa, tudo já é legado: os alemães e seus sofás no meio do estádio, o ônibus cheio de argelinos fascinados olhando uma única moça sem véu passando na calçada, o selfie de Podolski e Angela Merkel. Mesmo os chilenos invadindo o Maracanã como um enxame de abelhas vermelhas é um legado, um enxame a ser estudado e documentado. Como o são o chute no vazio de Boye que fez do rosto de Dempsey uma máscara de borracha;  os milagres do desempregado Ochoa, do México; o sorriso mestiço de Benzema cantando versos sufis na atônita defesa de Honduras.

O futebol faz a mediação final de todas as coisas. O futebol é soberano. Não foi a empáfia que vitimou a Espanha. Não foram as sobrancelhas aparadas do Cristiano Ronaldo que abalroaram Portugal. Foi o futebol. Não foi por excesso de virilidade que o Pepe foi expulso, foi por ignorar o futebol. Foi por tomar o futebol como pretexto, como muleta, que a vaia se voltou contra os vaiadores.

Ontem, olhando o material das agências, vi a notícia que talvez seja a mais desprezada de todas: o atacante Fellaini, da Bélgica, promete tosar o curly hair, o cabelão black power, se chegarem à final. É tão provável quanto um palpite de Mick Jagger, mas não se pode deixar de reconhecer que ele tem topete.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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