olha só que interessante o seguinte trecho, que capturo da (excelente) biografia de clara nunes, “guerreira da utopia” (ediouro, 2007), escrita pelo jornalista vagner fernandes.

é quando ele cita a criação do grêmio recreativo de arte negra escola de samba quilombo, uma dissidência da portela, fundada em 1975 pelo ex-policial (agressivo, como relata o livro) e sambista-poeta (sensibilíssimo, como todo mundo sabe) candeia.

carlinhos maracanã, então diretor da portela, aparece no texto explicando o imbroglio:

“Havia uma resistência tremenda dos veteramos aos compositores novos que chegavam à Portela. Eles mesmos criaram uma espécie de estatuto, por meio do qual pregavam que, para um novato ingressar na ala dos compositores, não bastava ter talento, mas cumprir um estágio de cinco anos dentro da agremiação. Então se o cara fosse excelente e fizesse um samba muito bom não poderia cantá-lo porque era estagiário. Isso causou muita confusão dentro da escola. Por que não abrir espaço para os novos? A turma não admitia. Houve um episódio que acabou sendo a gota d’água. Em um ensaio da Portela (…), David Correa, na época cumprindo o tal período de estágio, quis cantar um samba. Pediu a Candeia, que negou, pois era norma da ala dos compositores. O David ficou mal e foi falar comigo. Eu repassei o caso para o [então presidente da portela] Natal na mesma hora. (…) Pronto: o tumulto se formou. Natal ficou uma fera e decidiu acabar com aquilo. O pessoal da ala dos compositores argumentava: ‘Natal, isso é regra’. O Natal bateu o martelo: ‘Regra o cacete! A regra aqui sou eu, porra! Ele vai cantar’. David subiu no palco e soltou o vozeirão. O pessoal não gostou. Candeia nem se fala. Como já estava insatisfeito, rompeu com a escola a partir dessa confusão. Mas Clara não se envolvia nessas histórias”.

o que fiquei pensando ao ler esse trecho é que, bem, as coisas funcionam meio assim até hoje, seja na escola de samba, na escola da mpb, na escola que for, até mesmo fora da escola, não é mesmo?

não me atrevo a entrar no mérito daquele episódio nem examinar as razões específicas daquela velha guarda e daquela jovem guarda (que eu não teria a menor condição). mas a tendência geral não é mesmo a gente alinhar automaticamente a velha guarda (qualquer velha guarda) a alguma espécie de santidade intocável, e ao mesmo tempo engavetar apressadamente a jovem guarda (qualquer jovem guarda) enxergando nela(s) um tipo de mediocridade compulsiva?

e será que nesse novelo não tem velha guarda sendo pintada demais como “santa”, sob nossa discreta cumpliciade?

e, no espelho, será que o olho de quem olha com pressa e desprezo não pode ser tão compulsivamente “medíocre” quanto a avaliação que se faz habitualmente do “novo”, e tão automaticamente superficial quanto a santificação compulsiva do “nobre”?, seja na escola do rock, do rap, do funk ou do tecnobrega?

e a clara, e todas as claras (e tins, e bens, e tais), será mesmo que nunca se envolvem “nessas histórias”, como o curso da história costuma fazer parecer?

ok, “não deixe o samba (nem a tropicália) morrer”, não, claro que não!, mas… será que ele(a) sofre mesmo esse perigo todo de extinção? e as baleias que cruzaram o oceano, dr. roberto?

(em tempo: um viva perene à maravilhosa clara nunes, primor de contradição.)

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000), "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004) e "Álbum" (Edições Sesc, 2021-2026)

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