Os trabalhos são abertos às 16h30 de sábado, dia 24 de agosto, aniversário de 59 anos do suicídio de Getúlio Vargas. O trabalhismo do velho líder ecoa na fala confessional de um rapaz magro de 20 e poucos anos: “Sou o MC Beto, de São Mateus. Nasci e cresci dentro da favela. Trabalhei a vida inteira, desde os 16 anos, e hoje trabalho na Assembleia Legislativa, como ajudante de pintura, para ganhar R$ 950 por mês. Pego duas horas de condução para ir, duas para voltar. Minha linha de trabalho no estilo do funk é o funk-ostentação. O carro mais barato de que falo na minha música não custa menos de R$ 100 mil”.

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Na mesa estarão três representantes do governo do prefeito Fernando Haddad (PT), os três vestidos de camiseta e tênis, em contraste com o ambiente formal do auditório da biblioteca, mas não com a plateia aqui reunida. Os três são o secretário de Coordenação das Subprefeituras Chico Macena, o secretário de Cultura Juca Ferreira, e o secretário de Promoção da Igualdade Racial Netinho de Paula. Macena chega atrasado e explica que de manhã esteve em Parelheiros com o prefeito e agora estava fazendo hora na Galeria do Rock, porque pensou que o debate começava uma hora mais tarde.

“É até estranho falar como governo, sendo que na verdade o que os caras do funk vivem hoje é tudo que eu vivi”, constata Netinho, trabalhador e funcionário público desde os tempos em que vendia samba de pagode à geral, dentro do Negritude Jr. “Não tem nenhuma diferença. Pagodeiro era alienado que falava de amor. Rapper era ladrão que falava da polícia. E nada mudava. Até que, nos anos 1990, eu e Mano Brown resolvemos gravar juntos para dizer o seguinte: a dor é a mesma, o sofrimento é o mesmo.”

Outra trabalhadora presente, a educadora e professora que se apresenta como Vânia, está grávida e faz carinho na própria barriga enquanto critica nervosamente o culto ao consumo, à erotização e à banalização das relações humanas que vê no funk. “Eu acho lamentável. Não sou a favor de discriminação, de preconceito. Mas as pessoas permitem tudo, hoje em dia não se pode discernir nada, porque é antidemocrático, preconceituoso”, queixa-se. “Não dá pra ficar do jeito que está, porque é um desrespeito muito grande, eu me sinto desrespeitada.”

Chico Macena presta depoimento de caráter pessoal, liquidificando experiências de nordestino, petista e cidadão ligado ao forró do Nordeste e às escolas de samba de São Paulo. Sua fala chega à crítica aberta ao governo paulista, conduzido pelo partido adversário, PSDB: “Há alguns meses participei de uma reunião com a secretaria de Segurança do Estado. A pergunta do governo do Estado era a seguinte: “Como é que a gente pode acabar com os pancadões na cidade de São Paulo?”.

Chico martela um prego numa bigorna: “São Paulo é uma cidade extremamente conservadora, historicamente. Todas as manifestações culturais que se consolidaram em outros estados e cidades do Brasil demoraram muito mais para se efetivar aqui. Os engraxates da praça da Sé eram presos porque faziam samba no pano. O samba era uma expressão cultural proibida. O forró era carregado de preconceito. Salão de forró aqui é o ‘risca faca’. Não é espaço de manifestação cultural, de lazer: é risca faca. Não é rala bucho, é fura bucho, a certeza de que vai ter briga – e tinha”.

O diagnóstico do coordenador de subprefeituras (instituições que na gestão anterior eram ocupadas exclusivamente por militares) é reto e direto como um funk: “Eu poderia dar vários exemplos dp aparato do estado sempre agindo como polícia. A prefeitura de São Paulo, tradicionalmente, tem uma cultura e uma formação de polícia administrativa, não de organizadora das ações da cidade. As subprefeituras sempre pensam primeiro em como fechar, punir, autuar, multar. A ação inicial é do aparato de polícia administrativa, uma cultura que tem muito a ver com o período de ditadura militar”

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A maioria absoluta dos que se manifestam é formada por habitantes das periferias de São Paulo – de São Mateus, Capão Redondo, Heliópolis, Vila Curuçá… Há até um popstar na plateia, o MC Dentinho (foto à esq.). “Fui o primeiro MC de São Paulo que vim a gravar funk. Aqui está minha filha, que foi criada no funk. Minha família foi criada no funk. Comecei com Netinho, no mesmo festival, e saí de grupo de samba para cantar funk. Fiz todos os programas de TV no Brasil e fui para o exterior, antes de o funk ser reconhecido aqui em São Paulo”, afirma Dentinho, confirmando a falta de sincronia entre o funk carioca (e brasileiro) e o paulista.

Atualmente devotado ao funk gospel, ele se expõe: “Fui dependente químico por 30 anos, acabei sendo morador de rua, e na rua eu via a força que o funk tem. Há seis anos me converti, saí da rua e através do funk hoje estou levando para o Brasil inteiro a transformação que Deus fez na minha vida. As pessoas não imaginam, estou cantando funk nas igrejas, uma coisa meio impossível. O funk está em todos os lugares, dentro das penitenciárias, das igrejas”.

Uma espectadora angolana, negra, defende o funk brasileiro, o kuduro angolano e a sensualidade na música e na dança. Uma espectadora mexicana, branca, se preocupa com a manipulação exercida pelo narcotráfico mexicano sobre a juventude.

Juca Ferreira, baiano “importado” por Haddad para a secretaria de Cultura, se espanta: “Genial isso, São Paulo é realmente uma cidade incrível. Que cidade do mundo permite que na comunidade, discutindo um fenômeno como o funk, venham uma companheira angolana e uma companheira mexicana falar de suas experiências de vida, e com opiniões contraditórias?”. Ele provoca a plateia, justamente no quesito sexual: “Eu, por exemplo, não tenho nada contra a sensualidade. Ai das sociedades que sufocaram sua sexualidade. A sensualidade sai de uma forma doentia”.

De repente Juca parece ecoar seu ex-chefe no Ministério da Cultura, Gilberto Gil, trazendo pimenta ao ambiente histórico, mas um tanto asséptico, da biblioteca que leva o nome de um dos pais do modernismo antropofágico paulistano e brasileiro: “Muitas vezes a gente repete um discurso cabeça sobre a sexualidade e cobra dos povos do hemisfério sul que domestiquem seus corpos como os do hemisfério norte domesticaram. Eles domesticaram para viver a sociedade industrial, o capitalismo. Antes do capitalismo não era assim. Tiveram que matar mais de 1 milhão de mulheres para domesticar a sexualidade na Europa”.

Seja admirador ou não do funk o(a) leitor(a), o painel na Mário de Andrade oferta material precios0 e abundante para reflexão. A explosão tardia do gênero na cidade parece espelhar, por um lado, o proibicionismo hoje vivido pela cidade originária do Rio de Janeiro e, por outro, o rompimento momentâneo de um dique de repressão que vigorou em São Paulo por décadas. É significativa e perturbadora a presença de rappers convertidos em funkeiros, nas plateias deste e de um debate anterior do mesmo ciclo (que termina neste sábado, no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, com uma “Batalha do Passinho”).

O DJ Teles faz convite-provocação à plateia, para que ouça o funk “Isso É Brasil”, do MC Garden, que (depois descubro via internet) é um paulistano de 19 anos do bairro periférico de Americanópolis. Transfiro o convite à(o) leitor(a), demarcando que o vídeo abaixo foi acessado mais de 1,1 milhão de vezes desde sua publicação, há dois meses, e que Garden também estrela o não tão bem-sucedido (numericamente) “Funk da Educação“.

FAROFAFÁ indica “Isso É Brasil” como excelente trilha sonora para a geleia geral que vem a seguir, de declarações dos participantes ao debate sobre funk e política cultural. Os faladores estão identificados do modo como se apresentaram, ou por pontos de interrogação quando não se identificaram. A sequência das declarações não segue a ordem em que aconteceram, mas sim um mashup-mistureba criado por este observador sob critérios subjetivos – se você preferir uma transcrição mais (ou menos) literal e reta do debate, acesse aqui.

(Uma últtima observação, antes do re-debate: o título deste texto, impreciso e francamente sensacionalista, foi escolhido a dedo, e à moda muito apreciada pela mídia tradicional, para capturar a SUA atenção distraída.)

 

Juca Ferreira: “O fato de esta discussão acontecer aqui, na segunda maior biblioteca do Brasil e uma das dez maiores bibliotecas do mundo, é simbolicamente muito importante. Quer dizer que o funk é praticado na periferia, mas é objeto de atenção dentro da principal biblioteca da cidade. Parabéns a todos os funkeiros”.

Netinho de Paula: “São Paulo foi o último estado a aderir ao funk, o mais resistente. No entanto, quando chegou, chegou com uma força que ninguém entendeu. É a maior expressão popular nos últimos 20 anos em São Paulo, movida e dominada por uma juventude que conseguiu fazer isso sem a ajuda de ninguém, usando simplesmente tecnologia”.

Chico Macena: “Existe, sim, um movimento de criminalização do funk na cidade de São Paulo”.

Vânia, educadora: “Não concordo com essa comparação com os gêneros musicais anteriores. O conteúdo é muito diferente, muito. O brasileiro, com sua matriz africana, tem sensualidade, tem a malícia, mas não é da forma que é no funk de pancadão. Desculpe, mas não é, é muito diferente”.

Juca Ferreira“A situação que a gente encontrou ao assumir o governo é que há uma criminalização do funk, uma associação preconceituosa e discriminatória do funk com crime, tráfico de drogas, corrupção de menores. Isso é uma coisa construída pela sociedade. É parte de uma sociedade que, apesar de ter abolido a escravatura, manteve muito do ambiente do período no qual alguns eram donos de outros e no qual a população não tinha acesso a direitos”.

Alexandre, morador de Heliópolis: “Eu vivo diariamente a questão do funk. O espaço é o que mais me incomoda. A juventude ocupa a rua. Abre a porta do carro, toca o som, fica até tarde, é uma coisa que incomoda, porque o trabalhador adulto está ali presente também”.

IMG_9490? (foto à dir.), da Associação SerUmano: “Sou da zona sul de São Paulo e faço parte de uma associação chamada SerUmano, voltada para o hip-hop. Há algum tempo tomei a decisão política de me somar ao funk. Resolvi correr para o funk porque comecei a ver minha sobrinha no funk, meu sobrinho no funk, meus filhos no funk, minha família toda no funk. Percebi que se eu não fosse agora daqui a pouco até minha mãe estava no funk (risos). Eu ia ser o último, então resolvi ir antes da minha mãe”.

Wesley Alves de Lima, morador da Vila Curuçá: “Eu estava em casa revoltado com o som do batidão na minha porta às 2 horas da manhã, e nós temos que trabalhar”.

?, da Associação SerUmano: “O samba já foi criminalizado. Fazer samba lá fora era vadiagem, vejam se pode. Isso quer dizer que no carnaval temos 50 milhões de vadios, no mínimo? As pessoas que pulam carnaval são todas vadias, não têm nada pra fazer, é tudo vagabundo?”.

Wesley Alves de Lima: “Na minha infância curti o funk, mas o funk atual não consigo curtir, nem minha família. Eu me sinto envergonhado com a tratativa das letras”.

Chico Macena: “Quem era reggae era maconheiro. Quem era bicho-grilo era maloqueiro. Quem era do samba era ligado ao tráfico – durante muito tempo, o samba foi vinculado ao tráfico. Atuo em escola de samba até hoje, venho do movimento e da periferia de São Paulo”.

Dênis, professor, morador de São Mateus:  “Sou professor pela prefeitura de São Paulo e mestrando pela Universidade Federal de São Paulo. Apesar desta aparência burguesa de branco, cabelo liso, barbudo, estudante da UFF, nasci cresci e vou morrer na periferia. Sou da região de São Mateus. Morando nessa região, curti muito o rap e sofri pra caramba com o movimento, sofri várias discriminações na escola. Para a escola, era música de bandido. Ainda bem que o rap teve um ícone que entrou para a academia sem ter diploma: Mano Brown. Ele é discutido na academia. É questão de tempo, porque o funk, no que depender de mim, vai chegar lá.

Fernando Morgato, sociólogo: “Sou da Escola de Sociologia e Política e estudo funk aqui em São Paulo. Compreendo a fala da companheira, também sou educador, mas infelizmente sou obrigado a ir contra ela. Se você culpabiliza um jovem pelo que ele fala, pelo modo como ele se expressa, não necessariamente você está auxiliando ele a sair desse caminho. Ao contrário. Você está criminalizando uma ação dele, da qual ele propriamente é vítima”.

Juca Ferreira: “Como secretário de Cultura, recebo uma quantidade enorme de cartas de pessoas e associações de bairro pedindo para proibir o funk, os bailes. Muitas vezes são até pais dos que estão no funk. Nós temos que compreender que às vezes a discriminação está dentro de casa. E há críticas corretas também, na hora em que se abordam as letras. Os pais não são totalmente desprovidos de razão”.

Chico Macena: “Nas subprefeituras nós recebemos, sim, centenas de reclamações por conta dos bailes funk. É o pai do funkeiro, a mãe do funkeiro, o vizinho do funkeiro, que acabam por reclamar e por exigir o poder de polícia da prefeitura, para que se impeça esse tipo de manifestação”.

Alexandre: “A questão do uso de drogas me incomoda no ambiente. É todo mundo usando latinha de inalante, cheirando muito pó. As cápsulas de cocaína que ficam no chão depois do funk são coisa que impressiona qualquer um que passa”.

Juca Ferreira: “O traficante vai estar presente, porque é uma parte da sociedade e uma parte do território que o Estado deixou ao deus-dará. Criminalizar quem vive perto, com um nível de desproteção razoável, me parece que é acrescentar um erro em cima do outro”.

Dênis, professor, morador de São Mateus: “Na quebrada existe a praça do vinho, que aglomera 3.000 favelados. Isso, para a sociedade burguesa, é um pânico, são 3.000 favelados juntos (risos). Para mim é lindo, mas para a burguesia é horrível, 3.000 favelados! A polícia chega e chega batendo, chega e chega atirando. Morrem trocentos neguinhos lá e não sai uma linha no jornal. A sociedade não fica sabendo“.

Juca Ferreira: “Não acredito que a polícia seja a melhor crítica cultural que a sociedade tem. A gente acaba se acostumando com essa ideia de que o estado tem e direito de proibir. Tem direito de proibir até certo ponto”.

DJ Teles: “O funk não é responsável pelo tráfico, pelo amor de Deus, o funk é música. É óbvio que o tráfico existe nas comunidades, é óbvio. Mas não nasce ali dentro, não. É uma ação imensamente maior. A relação das drogas não é com a música, é com o todo”.

?, promotor de bailes: “Comecei a fazer eventos em escola, para a comunidade. Nos meus bailes nunca morreu ninguém, nunca houve acidente, nunca tive problema com a polícia. Para mim era muito importante, porque os jovens se divertiam na sua própria comunidade, na sua própria escola. Quando veio o funk, foi fazer uma baile funk na Cidade Ademar. Depois desse baile, foi proibido pela Delegacia de Ensino, porque houve muitas críticas por parte dos pais”.

Juca Ferreira: “Não cabe ao Estado ficar dizendo ‘isso pode’ e ‘isso não pode’, ‘isso é bonito’, ‘isso é feio’. O Estado não tem o direito de escolher qual letra é boa ou não é. Na história da humanidade, toda vez que o Estado determinou o que é esteticamente positivo ou negativo na área da cultura, sempre deu errado. Acaba predominando um conceito de bom gosto da elite que não quer dizer muita coisa também. Muitas vezes está apenas associado a um esforço de manter o status quo da sociedade”.

Netinho de Paula: “Proibir, esta prefeitura não vai. Nós não queremos. Nós entendemos que a prefeitura tem que estar mais próxima desses jovens. Vamos ficar numa discussão aqui para dizer que a gente não deve se aproximar do funk porque a letra é uma baixaria, porque desrespeita a mulher? Não dá”.

Amanda: No Centro Cultural da Juventude, onde trabalho, às vezes alguém pede para ouvir uma música, a gente deixa, pode ouvir. E quando alguém coloca um funk, em cinco minutos aparece alguém na sala: “Estão ouvindo funk lá, alguém autorizou?”. Sim, autorizou, pode ouvir, tudo bem. Acontece nos espaços culturais”.

Juca Ferreira: “Não vai poder ter manifestação cultural na rua? Que cidade é essa? Isso é uma cidade ou um convento, um mosteiro?”.

IMG_9492(foto à dir.), angolana: “Sou amante do funk, ouço funk lá em Angola. Nós temos uma cultura musical que é parecida com o funk, que passou por esse processo. A gente dança o kuduro, e as pessoas ficam assim: ‘Que escândalo!’, ‘que sensualidade!’. Dança o kuduro escandalosamente quem quer dançar escandalosamente.

Juca Ferreira: “Nós, até porque fomos desprezados como periferia, conseguimos sobreviver e, na sociedade pós-industrial, essa inteligência corporal que nós temos vai ser um fator importante”.

Netinho de Paula: “É mais simples do que a complexidade que se levanta. O funk vai carregar o problema da saúde, da polícia, da droga, da educação? A coisa é muito mais simples. Durante mais de 20 anos a juventude do estado de São Paulo não teve a atenção devida, ponto. Em função disso, ela está reproduzindo o seu nível cultural através da sua arte”.

Juca Ferreira: “Proibir é uma palavra muito forte, que sociedade democrática tem que restringir ao mínimo necessário: proibir de matar o outro, de desrespeitar. Mas proibir de dançar, se divertir, produzir música? É parte de um lado obscuro que o Brasil carrega desde os períodos da escravidão até hoje, criminalizando práticas culturais de parcelas grandes da população, exatamente aquela que não tem todos os direitos e acesso à cultura e aos demais serviços prestados pelo Estado a outros segmentos da sociedade”.

?, promotor de bailes: “A mulher tem que se dar respeito. Não significa que, porque uma vai lá de minissaia e shortinho curto, o funk está desvalorizando a mulher. É ela que está se desvalorizando

Amanda, mediadora do debate, negra, funcionária do Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoeirinha: “Como única mulher na mesa, eu queria dizer que me incomoda a expressão ‘a mulher tem que se dar o respeito’. É um lugar-comum da sociedade, mas a mulher que veste uma roupa apertada ou curta e vai pro baile se divertir está se dando respeito. Está respeitando sua vontade, seu corpo, seus desejos. A mulher tem que ser respeitada, é um pouco diferente. Cada um sabe o que é se dar o respeito e se respeitar. A mulher tem que ser respeitada em todas as ocasiões, em todos os espaços, independente da roupa que veste“.

Juca Ferreira: “É inevitável para os que fazem funk se acostumarem à ideia de que as mulheres estão cada vez mais presentes na esfera pública e cobrando respeito, como minha amiga aqui ao lado cobrou o uso de um termo tradicional, mas que transfere para a mulher a responsabilidade da agressão masculina”.

?, mexicana: “Queremos mulheres que possam decidir seu futuro. Eu não quero mulheres violentadas. Propomos e fazemos cultura em nossa sociedade? Ou privamos as mulheres da oportunidade de manifestá-la?”.

Juca Ferreira: “Foram emitidas aqui opiniões bastante contraditórias, e foram assimiladas como parte do ambiente. Todos tiveram muita grandeza em lidar com a diferença. Isso é muito importante. A sociedade brasileira não está acostumada a divergir. As pessoas partem logo para tentar destruir o outro, para tentar desqualificar o que pensa diferente”.

Netinho de Paula: “Infelizmente, vai demorar um tempo pra gente poder fazer uma análise. Por que esse cara falavam tanto palavrão? Por que esse cara não respeitava a figura feminina? A gente vai entender que a ausência, a ausência do estado, durante anos na vida dessa juventude fez com que ela seja o que é hoje. Ou a gente ouve nossos jovens e os chamamos para tentar melhorar e representar o Brasil, ou a gente vai perder a chance. E vai perder para o tráfico, que é o que já acontece”.

DJ Teles: “Eu só via ação do poder paralelo. Quando um funkeiro quer mostrar sua arte e ninguém olha por ele, existe uma pessoa, uma figura que chega e diz:  ‘Você tem talento, vai lá, grava sua música. Mas não esquece de exaltar quem te ajudou’. Aí nós entendemos o porquê de muitas letras contestáveis pela sociedade. Mas quem você vai elogiar? A mão que te abandona ou a mão que te alimenta?”.

?, da Associação SerUmano: “O questionamento que tenho às letras de funk que uma molecadinha está fazendo, à forma como é apresentado o crack, à vulgarização da mulher. eu quero fazer é ao governo do estado, que está há 30 anos aí e não olha para a cultura lá da quebrada. O município não leva nada para os CEUs, nada”.

Dênis: O aparelho cultural que existe na periferia hoje se chama polícia, uma polícia bem armada. Bala de borracha, velho, é de vez em quando que os caras usam, porque sempre é bala de verdade, que mata, e mata molecada. Quando se fala que o funk é violento, primeiro existe a violência que é feita com essas crianças desde quando elas nascem”.

Juca Ferreira: “O poder público ainda tem uma tradição autoritária que vem desde a formação da sociedade brasileira. No caso do hip-hop, é diretamente por ser uma manifestação de crítica aberta à desigualdade, ao racismo e à discriminação. É isso que incomoda”.

Wesley Alves de Lima: “Sou morador de periferia, participei do ciclo de debates desde o primeiro dia. Fui mais ou menos com a mesma ideia da educadora, porque sou pai de três filhos, uma de 15, uma de 13 e um de 11”.

Vânia: “Eu sou da cultura hip-hop, que tem também as suas questões, mas na maioria o hip-hop não é do crime, não é da droga. Eu só queria colocar a minha visão, porque eu não concordo. A meu ver a prefeitura tinha que se aproximar, sim, mas eu acho que teria que ter algum critério. Não dá pra ficar do jeito que está, porque é um desrespeito muito grande, eu me sinto desrespeitada”.

Juca Ferreira: “Fiz uma reunião com o hip-hop, e as mulheres entraram pesado criticando o machismo do discurso cultual do hip-hop. Os rappers ficaram um pouco incomodados, como se fosse ilegítimo mulheres que fazem hip-hop estarem criticando o movimento. Mas o rock’n’roll passou por isso, havia um nível de misoginia que as mulheres é que se encarregaram de superar”.

Chico Macena: “Por que o crime avançou? Por que está presente na periferia? Porque o crime avança quando o Estado é ausente. E a forma mais fácil de o Estado ser ausente é quando, em vez de assumir seu papel no diálogo, de interlocutor, mediador, indutor, ele exerce o papel repressivo. É a forma mais fácil. Não requer esforço intelectual. Não requer política mais elaborada. Não requer esforço de educação de base”.

Dênis: O aparelho cultural que existe na periferia hoje se chama polícia. É uma polícia bem armada. Bala de borracha, velho, é de vez em quando que os caras usam, porque sempre é bala de verdade, que mata, e mata molecada. Quando se fala que o funk é violento, primeiro existe a violência que é feita com essas crianças desde quando elas nascem. Não existe aparelho democrático na democracia. Não existe um hospital digno onde o cara entre e seja tratado dignamente.

Juca Ferreira: “É evidente que a estrutura cultural classista e elitista da cidade é excludente”.

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MC Beto (foto acima), morador de São Mateus: “Minha linha de trabalho no estilo do funk é no funk-ostentação. O pessoal fala que ostentação é demais, mas se a gente for falar a nossa realidade, dentro da favela, vai voltar a ser o famoso funk proibidão, porque a real é essa. Hoje em dia, na minha música, falo de carros de R$ 100 mil ou mais. Mas, na minha realidade, a gente mora numa casa de quarto e cozinha, quatro pessoas no mesmo quarto, em duas camas e dois colchões de chão”.

?, da Associação SerUmano: “O moleque está com um monte de energia para queimar, quer ser artista, tem os sonhos dele. Ele não quer carregar caixa, gente. O moleque do funk não quer ser estivador, ele quer ser artista. A questão é que o cara não quer ser humilhado pelo patrão”.

?, angolana: O pai repreende o filho por dançar e cantar funk, mas como o jovem fica se não dança o funk? Fica agressivo, fica violento. A escola devia receber essas pessoas e dar educação. A juventude depende da sabedoria dos mais velhos“.

Wesley Alves de Lima: “No primeiro debate, eu disse que não conseguia identificar essa mentalidade política na juventude que pratica o funk hoje em dia. Só que depois do discurso eu fui amadurecendo um pouco mais minha ideia sobre a discussão. Cheguei ali para combater o efeito, e não a causa. Eu não tinha uma compreensão do todo. Exigir dessa juventude algo mais do que ela oferece é um crime. É chegar para uma pessoa que recebe R$ 600 de salário e dizer: ‘Hoje você vai me pagar R$ 5.000’. ‘Mas eu só recebo R$ 600.’ ‘Mas você vai me pagar”.

?, angolana: “Saber que, com essa revolução toda do funk, ainda se está nessa discussão de governo que não quer, não aceita e não apoia, é quase que incrível para mim, porque lá em Angola o funk é cultura. O governo apoia. É admirável, o nosso kuduro hoje é aceito pela elite! Temos o filho do presidente da república de Angola cantando o kuduro.

Juca Ferreira: “O pessoal da periferia também tem direito à cidade, isso é que a gente precisa afirmar politicamente”.

Netinho de Paula: “A gente propôs o projeto de criar um espaço chamado Território Funk, que fosse organizado pelos funkeiros e tivesse uma margem de horário para começar e acabar. Nós não poderíamos tutelar, nem interferir na questão das letras, de nada. O que a gente podia fazer era entrar com palco, luz, segurança, ambulância. É importante frisar que nós não pretendemos, de forma alguma, tutelar o movimento”.

Juca Ferreira: “O funk faz parte de uma realidade de afirmação, de expressão, de desejo, de alegria, está ligado ao direito de dançar. É um direito que muitas vezes os cidadãos mais conservadores da nossa sociedade não conseguem compreender. Mas faz parte da saúde e da qualidade de vida das pessoas. Como você vai cercear uma coisa dessas? A não ser que você tivesse algo muito melhor para oferecer, mas mesmo assim não acredito que uma postura correta fosse proibir”.

Chico Macena: “O funk é um código novo, diferente daquilo que a gente foi acostumado a construir em São Paulo. Nós não compreendemos ainda. Por isso essa dificuldade muito grande que temos, na minha geração e em gerações intermediárias, com a juventude. Não conseguimos compreender o que o jovem quer e espera do Estado. Essa resposta para nós é essencial, porque senão vamos desenvolver políticas de estado equivocadas”.

Juca Ferreira“Temos que ouvir muito. O estado democrático tem que ter uma orelha enorme, uma capacidade de compreender o que está sendo dito pela sociedade, seja de uma maneira elegante ou deselegante. Nem sempre o recado vem empacotado. Vem às vezes cru, grosso, pesado”.

?, da Associação SerUmano: “Tenho muita preocupação com setores de esquerda e movimentos sociais que se levantam contra o funk. Eu queria fazer um apelo aqui às pessoas que se dizem progressistas e querem uma sociedade mais justa e igual, para que reflitam melhor nas abordagens. Não posso dizer que um menino de 14, 15 ou 16 anos que está fazendo funk-ostentação me incomoda porque esta fazendo funk-ostentação. É o MEU papel orientar ele. Se ele está errado, em alguma coisa eu, que tenho quase 40 anos, estou errado”.

Juca Ferreira: “É genial a periferia de São Paulo ser talvez a mais forte do Brasil. Isso tem de ser parte do processo de democratização da nossa sociedade: abrir as portas para que a periferia possa realizar plenamente o sonho de criador, que é uma parte importante do trabalho de constituição de uma nova sociedade, uma sociedade mais solidária, que ultrapasse as divisões que nós herdamos de 500 anos de subestimação e redução da condição humana das pessoas”.

MC Dentinho: Hoje o Brasil inteiro está ouvindo o funk de São Paulo. A gente fica feliz por saber que começou da gente e hoje o Brasil inteiro ouve, vários MCs fazem parte da popularização do funk de São Paulo  – e hoje vemos a prefeitura de São Paulo comprando uma ideia que no início foi muito discriminada. Éramos três loucos, eu, Marcelo e Zé Colmeia. Saí daqui e fui para o Rio de Janeiro porque aqui ninguém abria a porta. E hoje fico muito feliz de ver o Brasil inteiro ouvindo o funk de São Paulo, nem que seja de ostentação”.

DJ Teles: “O funk não é feito por pessoas alienadas. Eu não sou alienado. É chegado o momento de usar essa ferramenta de mobilização da juventude em estado de vulnerabilidade para fazer algo positivo, e graças a Deus estou vendo isso com o governo da cidade de São Paulo. Vamos jogar a flor, nos abraçar, ajudar – é isso que peço aos senhores que não entenderam ainda o movimento”.

Juca Ferreira: “Passamos uma tarde discutindo temas que envolvem o funk com muito respeito. Todos nós estamos de parabéns pela capacidade que tivemos de nos tratar, independente da diferença ou da concordância, com muito respeito, como devem ser sempre as discussões em espaço público”.

Chico Macena: “Devemos incluir a todos, não é só o funk. A todos”.

Régis, morador de Capão Redondo, acompanhante de Vânia, em versos: “Eu sou artista e respeito o dom que tenho/ incentivo o dom dos outros/ de criação com consciência/ mas expresso nestas linhas o meu desejo de ser respeitado/ e dizer uma palavra crítica a um amigo/ isso não é discriminação/ (seguem-se versos críticos ao funk) parece essa uma causa justa/ em prol da qual usarmos nosso direito à expressão por essas batidas capazes de arrastar multidão?/ se sim, eu respeito o funk“.

 

P.S.: a foto que ilustra esta reportagem na página inicial do site é de uma reunião entre o prefeito Fernando Haddad e funkeiros, ocorrida em 23 de julho passado, com cobertura mínima da mídia.

 

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