com fotos de JUVENAL PEREIRA

Há 18 anos, São Paulo tem um baile com 99,9% de frequência e som blacks, e que só rola duas vezes por ano

Jotabê Medeiros


De jeans e tênis ninguém entra. Se arrumar confusão, o pai dá um corretivo ali mesmo no meio do salão – ou a mãe, ou o avô, ou o tio, ou o padrinho, já que está todo mundo na mesma balada.

Na São Paulo do PCC e do maior toque de recolher do planeta, há um outro mundo que dança e brinca e galanteia e teima em perguntar como vai a família? como foi o casamento? como foi o batizado? Enquanto um mundo caminha resoluto para o enfrentamento e a brutalidade, um outro mundo pede insistentemente que o DJ toque Pérez Prado, El Rey del Mambo.

Parece que esse mundo todo de gente amável e atenciosa está no baile nesta noite de sábado. E o baile fica no coração da Penha, no lugar onde a Rua Guaraúna faz a curva, na zona leste de São Paulo. Chegar lá foi difícil, para quem não conhecia a área. E a cidade está hostil, as viaturas jogam luz dentro dos carros nos baixos da Radial Leste.

Mas, na metade da curva da Rua Guaraúna, já é possível ouvir I Started a Joke, dos Bee Gees. Logo em seguida, no estacionamento, O Homem do Braço de Ouro, com Os Incríveis.

Desta vez veio gente da Penha, Itaquera, Lapa, Carrão. Veio gente até do Guarujá e da Argentina para o baile. Não saiu anúncio em jornal nenhum, não tem flyer, não tem filipeta. É só no boca-a-boca, e pelo jeito funciona: o salão está cheio. Com um detalhe: é um baile black. Não é black só pela predominância do samba rock que esquenta as picapes do veterano DJ Biló: ali, 99,9% dos freqüentadores são negros (a exceção somos ‘nozes’).

O DJ só toca vinil, nada de CD. Tem uma pilha de uns 500 elepês em engradados de plástico às costas do DJ Biló, discos que ele vai tirando e limpando com uma flanela: Originais do Samba, Roberto Ribeiro, Wilson Simonal, George Benson, Sergio Mendes e Brasil 66, Grupo Favela & Genaro.

São apenas dois bailes como este por ano. Quem não se deu bem, só no próximo. E o próximo demora. Todo ano, em maio (mês da libertação dos escravos) e novembro (data da morte de Zumbi dos Palmares), o baile do Lu (codinome de Luís Antonio Peters) junta mais de mil pessoas em algum salão da zona leste – já recebeu mais de 2 mil, num remoto ano dos 80, naquele fantástico baile que Lu considera o maior de todos que já realizou, no Clube de Regatas Tietê. “A idéia é resgatar aquele tempo de dançar todo mundo juntinho”, diz Lu.

Aqui na Penha, nesta noite de sábado, encontram-se todas as profissões na pista: mecânico, dona de casa, operário, vendedor, cabeleireiro, pedreiro, historiador. “Vou deixar para dormir quando morrer, daí não acordo mais”, brinca o homem-baile Paulino Nostalgia, que distribui convites para o seu próprio arrasta-pé. Ele saiu de uma festa na Vila Matilde às 5 da manhã, tirou uma soneca até o meio-dia e daí já saiu para distribuir seus convites.

O DJ Biló, codinome de Antonio Luís de Campos, aparenta ter uma milhagem dez vezes maior do que a dos seus filhotes Marky e Patife. Não dá para conversar direito com ele, o homem está nas picapes o tempo todo. Não usa fones de ouvido, acerta o ponto do vinil no olho. Qual é o segredo para manter a pista fervendo?, pergunta o estranho. “Tem de pegar o embalo da pista”, responde Biló, a simplicidade em pessoa.

E se todo mundo sair de uma vez só e deixar a pista vazia?, insiste o chato do intruso. “Aí fica complicado, não é?”, ele responde, com um sorriso maior que a noite. Não está nem um pouco preocupado: com uma seqüência matadora de Simonal cantando Samarina, Corcovado e Ela É Carioca, ele garante o leite das crianças.

Na pista, as irmãs “argentinas” Sergina e Inês dançam de se acabar. “Me gusta desfrutar esta nostalgia das raízes”, diz em um bom portunhol Sergina Anunciación da Boa Morte, brasileira que se casou há 40 anos com um uruguaio e foi viver na Argentina. Não fala mais o português fluentemente, mas nunca se esquece dos bailes daqui. Hoje viúva, com os filhos criados, ela está há quatro dias na cidade e já descobriu onde o samba rock está pegando.

O dono do baile, Lu, dá uma gostosa gargalhada quando o visitante estranha seu sobrenome, Peters. Não é sobrenome de negão nacional, certamente – só se for de negro sul-africano. Pois é justamente essa a explicação. O pai dele era Worrel Thomas Peters, um boxeador aventureiro que, aos 17 anos, já corria o mundo em busca de emoções fortes.

Worrel Thomas veio parar no Brasil para uma luta, na qual foi apresentado como “o campeão sul-africano”. Não era. Ao ganhar a luta, num cambalacho digno de nota, foi entronizado como campeão brasileiro dos pesos-pena. Acabou indo parar na academia de Kid Jofre e ficou por aqui mesmo, constituindo família. “O português dele a turma não entendia muito, mas o inglês era perfeito”, lembra o filho, hoje um anfitrião da gentileza e do suingue.
 
“O negão só quer saber de dançar”. Sentado em uma mesa à esquerda do palco de onde o DJ Biló põe fogo na pista, o historiador Paulo Rafael da Silva, o Paulão, solta a frase em tom de ironia. Na verdade, ele contesta a visão de que o bailão da nostalgia seja uma reunião de negros alienados, que não têm combatividade em relação às questões raciais.

   “Como é que podem falar isso de alienação? O baile é o ponto de encontro, é o lugar das questões comuns”, ele diz, rebatendo o lugar-comum. Paulão comenta recente afirmação de Ronaldo Fenômeno, da seleção, que se disse branco. “Com a ascensão social, o jogador de futebol acaba tendo acesso a muitos lugares que a maioria negra não tem. Isso faz com que esqueça um pouco a questão da identidade.”

   E continua. “O Ronaldo Fenômeno, na verdade, casou com um castelo. O castelo é uma coisa que atrai. O negro que chega à academia, à faculdade, também chega ao castelo. Aí ele olha e diz: já passei por ali, agora estou aqui. E se esquece de onde veio. Mas tem uma hora que tudo retorna. Você pode não querer sua história, mas que é sua história ela é. Você vê como é no futebol: o Ronaldo Fenômeno se diz branco, mas sua mãe é negra de cabelo esticado. Enquanto isso, o Ronaldinho Gaúcho comprou a briga do Eto’o, que é discriminado na Espanha. Ele se identifica com sua raça.”

   O baile black é, na visão do historiador, um bunker de resistência da comunidade negra. “É parte da tradição de sociabilidade. Antes, o negro cantava e dançava no fundo do quintal. Mas a sociedade o via como o negro maloqueiro. Aí, ele foi para o salão, o lugar onde ele se mostrava ‘regenerado’. Funcionava também como uma proteção. Na rua, a polícia ia lá furar instrumento. No salão dava um ar de respeito. O samba também foi para o barracão da escola. Aí, o negro ia com a família, se mostrava despreocupado, discutia as questões comuns. Era o ponto de encontro e continua resistindo.”

    Você pode não querer sua história, mas que é sua história ela é. Aqui, no lugar onde a Rua Guaraúna faz a curva, a música que se ouve agora é a do branquelo Ray Conniff, e está todo mundo de rosto colado. No baile black, o termômetro democrático é o timing e a qualidade da canção. Como diz o DJ Biló, “tem de pegar o embalo da pista”. Caso contrário, é melhor colar o umbigo no balcão do bar.      

 PUBLICADO ORIGINALMENTE NO ESTADO DE S.PAULO NO DIA 6 DE JUNHO DE 2006, CURIOSAMENTE TAMBÉM NUMA ÉPOCA DE ATAQUES CRIMINOSOS NA CIDADE

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome