Acabo de chegar de um congresso em Salvador, e foi uma experiência terrível. O voo, não o congresso. Tinha um índio com chato na poltrona ao meu lado no avião. Sei que era chato porque ele coçava o saco aflitivamente, e depois se coçava todo, as pernas, o peito, a cabeça. Eu ocupava a poltrona 27F, tava na janelinha e encurralado pelo índio com chato. Rezei para que fosse só sarna, mas certeza que era chato. Apavorado com a ideia de os bichos migrarem para o meu lado, abri totalmente o ar no teto. Darcy Ribeiro deve ter apanhado chato dos urubu-kaapor, eu pensei, mas ele sabia dos riscos, foi até lá porque quis. Eu não tive escolha. Eram três índios no voo para Salvador, todos com cocares e pinturas ritualísticas. Os outros dois estavam em outros assentos e eu notei que não se coçavam. Pataxó, talvez. Se é que ainda existem pataxós. Uma hora o índio quis olhar pela janelinha e inclinou-se para o meu lado, e eu senti o corpo todo coçando, como se um exército de um milhão de chatos estivesse avançando pela pradaria. Um vôo de duas horas que virava um pesadelo. Rispidamente, pedi para o índio se afastar.

Por favor, não me julguem mal, não sou do tipo prestes a entrar numa milícia de extermínio ou coisa do tipo. Tenho até um canudo: Sociologia, USP. Na verdade, sou mais o tipo do homem sem qualidades. A polícia não me pára em batidas provavelmente porque sou elemento insignificante, sem especiais signos de perigo espalhados pela carroceria. Também não me visto com algum especial indício de personalidade, aquilo que alguém algum dia chamou de “correntes subterrâneas, as formas secretas das coisas” – qualquer ar misterioso que possa sugerir uma natureza oculta e desafiadora. Tive infância miserável e isso, creiam-me, infesta a personalidade do sujeito com uma modéstia meio servil, humildade ao ponto da autodepreciação. Alguns dizem que sou pessimista, pela forma crua como resumo as coisas. Sei lá, prefiro pensar que sou realista. A verdade é que não fui até o fim de nada na vida, tudo que tenho é incompleto, até o tênis do momento é financiado, em três vezes. E o que é pior: não fui sequer até o fim da vida.

TRECHO DO INÉDITO ‘A MORTE ENGARRAFADA’, UM THRILLER FUTURISTA QUE, AGORA SIM, TALVEZ SEJA PUBLICADO

Precisamos de um quilo de farinha pra fazer FAROFAFÁ!

Mascote FAROFAFÁ Somos o único veículo crítico e progressista dedicado exclusivamente ao jornalismo cultural, nas suas mais variadas frentes: livros, filmes, música, artes, teatro etc. Se você chegou até aqui é porque está do nosso lado. Ajude FAROFAFÁ a fortalecer o debate e a cultura brasileira.

Diferente dos grandes veículos, não somos donos bilionários e não corremos atrás de cliques a qualquer custo. Isso significa duas coisas:

1. Farofafá trata do que importa para a cultura brasileira — do teatro de grupo às periferias musicais, da literatura marginal às artes visuais — sem precisar agradar patrocinadores.

2. Praticamos jornalismo de fôlego. Críticas, reportagens e ensaios nascem de quem foi ao teatro, ouviu a música, leu o livro, viu a exposição. E tudo o que publicamos é gratuito para qualquer leitor — e queremos que continue assim.

Você pode ajudar a deixar Farofafá mais forte e vibrante! Escolha sua forma de contribuir e vamos farofafar juntos!

Escolha como apoiar

Saiba mais em farofafa.com.br/apoie

PUBLICIDADE

DEIXE UMA REPOSTA

Por favor, deixe seu comentário
Por favor, entre seu nome