menino jesus esculpido em tronco de oliveira em belém, palestina

foto: nana

Quando se vai a Jerusalém, a pergunta mais comum que se ouve na volta (geralmente em tom de galhofa) é: “Lá você se sentiu mesmo mais próximo de Deus?”.
Estive em Jerusalém, Kapharnaum, Bethlehem (ou Belém), Caná, toda a Galiléia, Tel-Aviv e Jaffa.
João Batista que sou, o batizador de Jesus, eu me rebatizei no Rio Jordão, que estava coalhado de lontras nadando (podem me chamar agora de Rubens Feijão, sempre admirei aqueles dribles dos quais só eu me lembro).
Lontras têm um dente vermelho na frente e rabo de gambá brasileiro, coisa bem esquisita.
Mas não enrolarei, vou direto à resposta.
Confesso que senti uma sensação asfixiante, claustrofóbica, quando fui ao Santo Sepulcro.
Mas não creio que tenha sido Deus, apenas o cheiro de vela queimada e os turistas ziguezagueando sem direção pela basílica.
Já o Muro das Lamentações é light, aberto, iluminado e tem sabor de praça de cidade do interior.
Mas se havia Deus lá ele era algum dos gatos abandonados que escalavam as pedras do caminho.
Há muitos gatos maltratados em Israel, acho que é ali que fica o Inferno dos gatos.
No Monte das Oliveiras, fiquei sabendo que o Rei Davi era o maior mulherengo e ia com tudo para cima das mulheres dos outros. Chegava a mandar neguinho para a guerra para cantar a mulher do cara.
Ali entrei no Horto Ghetsêmani, que fotografei para o Marião (o Bortolotto tem peça e filme com esse título, que não vi).
As oliveiras ali são mais antigas do que a Hebe Camargo, têm uns dois mil anos de azeitonas.
Em Belém está a igreja mais alto astral, a Igreja da Natividade, onde teria nascido o Homem.
Os palestinos de Belém ouvem música em alto volume e são engraçados. Suco de frutas deles parece tudo falseta, Tang mal adoçado. São os paraguaios do Oriente Médio – causou frisson uma loja pirataça da Starbucks na avenida, batizada de Stars & Bucks. Quero ver os americanos irem lá cobrar direitos autorais.
Mas Deus também não deu as caras do lado palestino.
Quer dizer: comi um carneiro na brasa divino por ali.
Acho que a coisa que mais me impressionou foram os beduínos. Só os vi do ônibus. Vivem em casas precaríssimas no meio do deserto, em lugares que nem o Inri Christo imagina que existam. “Os beduínos usufruem de todas as benesses do Estado israelense, mas estão se bandeando para o lado dos palestinos”, reclamou um guia judeu.
Resistindo à assimilação, os beduínos estão para os israelenses como os índios isolados para os paraenses.
Toda aquela região é um lugar fantástico.
As escrituras dizem, a arqueologia desdiz, a fé reconfirma, a guerra soterra.
As ruínas deixam as histórias semicontadas. Seria mesmo aquela a casa onde Pedro, o primeiro papa, rezou as primeiras missas? A primeira igreja?
O Mar Morto tem uma pinta de Piscinão de Ramos.
O Mar Morto é primo-irmão de Veneza, uma Veneza às avessas – está secando um metro por ano, desidratado pelo deserto. Se você tem um machucado na mão, a água vai fazer você arder de maneira estranha, como se fosse ácido.
Mas é claro que, para quem crê, Deus está em todo lugar por ali. Mesmo onde sua autoridade não vale nada. Deus é tudo que acende a imaginação.
Minha imaginação ferveu quando o joalheiro marroquino Omar me mostrou a cisterna que fornece água há 380 anos para sua família.
Também fiquei encantado com o jornal palestino que deu quase uma página para o Sócrates.
E com as panelas ferventes do restaurateur Abu Daher.
E com a família esquiva do florista de Tel Aviv, Avi Tal.
E com o comerciante judeu russo de Yaffo, que me vendeu um quepe de um motorista de tanque do Exército comunista soviético.
Isso está ficando longo demais, logo mais a gente volta.
Um verso de Borges para fechar:

“amamos o que não conhecemos, o já perdido
o oriente que, na verdade, não existe para o afegão, o persa ou o tártaro”

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