E a propensão em apontar o dedo para o quintal-espelho do vizinho, que sai da toca bem obsessivo-compulsiva nestas primeiras horas de 2011?

Roberto Carlos DEVE assumir sua deficiência física, proclama Elio Gaspari. Dilma “pecou” (alguém sempre “peca”, nessas circunstâncias) por não defender os gays em seus discursos, incomodam-se os próprios gays.

Incomodados pela performance da recém-presidenta, adolescentes Brasil afora desejam um franco-atirador para interromper em pleno voo o curso recém-iniciado de Dilma Vana (misoginia explícita, não mais concentrada em Marcela, mas em Dilma nela-em-si-propriamente-dita – adolescentes são piores, ou simplesmente mais sinceros, que adultos?).

Ou seja, todos cobram do OUTRO o que o OUTRO não fez.

E o que Elio Gaspari, como Roberto Carlos, poderia ter feito (e assumido), mas nunca fez (nem assumiu)?

Quantos gays (e bis, e heteros etc.) resmungam de abandono por parte de Dilma, de dentro de seus próprios vários armários? Nossos patrões, chefes, pais e padres sabem, por nossas próprias bocas, que somos gays?

E os pais que “educaram” seus filhos a desejar o assassinato da presidenta? Empunhariam o fuzil para consumá-lo? Ou, melhor, teriam CORAGEM de apontar uma arma para suas próprias têmporas?

OK, dirá você, estou aqui resmungando, MAS eu mesmo vivo apontando os dedões para, por exemplo, os jornalistas e a nossa “grande” mídia. Sim, tem razão, EU sou igual a VOCÊ. Mas…

MAS eu SOU jornalista, e há alguns anos não faço outra coisa senão espinafrar meus pares (ou seja, a mim mesmo, mesmo quando não uso a primeira pessoal singular explícita) e (portanto) tentar espanar poeira no meu próprio terreiro. Foi-se o tempo em que minha principal diversão (“diversão”?) era pixar a vida de artista.

Eu não precisava ir ao quintal-espelho do vizinho (quintal-espelho abandonado é lâmina baldia, sra. japonesa Yoko). Meu próprio quintal estava cheio de quiçaça, entulho e carrapato, e eu fingia (para mim mesmo) que não percebia.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000), "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004) e "Álbum" (Edições Sesc, 2021-2026)

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