entrei dentro da empada à meia noite e em seguida caguei o grãozinho
negro dentro da privada de âmbar e comecei a cantar um canto chulo de
amoras negras mas, belo, coloquial e absurdo como é a vida aos domingos

depois do arroto e do gorgolejo das tripas
fétido mas e com sovacos quentes
quero falar do amor, esse pudoroso que só se mostra
ausente marmórea mãe de todos nós
nós de um negro transparente
o outro gritou no lado dentro da empada:
cho cho baiacu carniceiro: eu baia? eu da tua laia?
eu um de alguém? eu cu de quantos
refestelou-se na poltrona de prata dedilhou a harpa
e começou a falar uma língua impossível de gordas guturais
e aves roucas e
espevitados magriços canibais tomando sopa, uma de ossos e inchaços de
fígado, verdolengos (poucos, esses mais pro negro):
ó cara da empada, ó cara aí
ó rei da poltrona de prata e eu ela
olha o dedo, e tu quem é, como é que entrou
na empada? que é a minha casa?

fiquei gelado de horror e requestionasse mágoas e me lembrei de kaspar
que sou eu, de aspargos também que aqui não tem, e das aspas que é
quando eu falo com o coisa (agora me caguei)

o grãozinho negro voltou, pôs as mãos na cintura rala e interpelou: tu é
aquele de sempre é? demorou voltou, ficou doente? ó pai, devolve-me
o corpo

fragmento de “o koisa”, texto inédito de hilda hilst surpreendentemente publicado na revista serafina no final de semana

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