pa – você é tido como um cara da música mais comercial, bem-sucedida, mas tinha uma afinidade com os “malditos” também, não?

ja – tinha, sim. gostava muito de fazer poesias que ninguém lia. ah, a música [em parceria com tom zé] se chamava “distância”. [mudamos de sala, e joão mostra um quadro encostado à parede, uma fotomontagem em que presidentes de gravadoras brasileiras aparecem vestidos de super-heróis.] essa foi a primeira versão da associação brasileira dos produtores de discos, um gaiato fez isso aí e nos presenteou. estamos aqui beto [boaventura], da warner; o locutor que vos fala; roberto [augusto], presidente da sony; manolo [diaz], presidente da associação; roberto souto, que era advogado da som livre e também da associação; luiz oscar niemeyer, que era presidente da bmg; aluísio reis, que era da odeon [emi]; e marcelo castello branco, da universal.

pas – tem dois navios-piratas no fundo da foto [risos].

ja – é. isso aqui [olha para a grande tv ligada à sua frente] eu botei porque me dá uma sensação fantástica. às vezes me sinto muito rico, e, segundos depois, muito pobre, porque vai mudando ali, ó [aponta para as cotações da bolsa que correm no canto inferior da tela]. quando você pensa que está rico, está pobre, o dólar agora foi a r$ 2,27.

pas – você fica prestando atenção?

ja – não. deixo para ter alguma coisa, faz parte da decoração.

pas – voltando à rge…

ja – é, tom zé eu contratei quando estava na rge de são paulo. foi meu companheiro de noites “indormidas” pela labuta. era muito louco tom zé. mas é uma pessoa fantástica. esses baianos todos devem muito a ele.

pas – aí entramos na som livre.

ja – aí tinhamos essa renovação de contrato das trilhas de novelas que não foi feita. o armando nogueira, que não tinha nada a ver com disco, era um companheiro que eu tinha nas peladas de fim-de-semana que fazíamos num clubezinho chamado 30 por 30. eram 30 sócios com mais de 30 anos. eu tinha 24, fui o único que entrou com menos de 30. entre os outros estavam armando nogueira, cacá diegues, luiz carlos barreto, tiago de melo, o cônsul da áustria no gol [ri], paulo mendes campos, e outros mais. um dia, acabada a pelada, armando, que já estava na globo havia algum tempo, perguntou: “você não mexe com negócio de música?”. “mexo, você sabe.” disse que lá estava ouvindo umas conversas nas reuniões de diretoria de que eles estavam querendo fazer uma gravadora, e estavam em busca de um profissional do disco. “tudo bem, armando, mas o que eu faço? não posso me oferecer, estou numa empresa que me dá tudo.” conheço walter clark desde o tempo que a gente pegava bonde para trabalhar, ele na interamericana, e eu na minha copacabana discos. conheço, mas depois que fez a globo, o sucesso todo, via ele muito pouco. só sei que na semana seguinte me liga a secretária de walter clark, me convidando em nome dele pra um almoço no museu de arte moderna, almoço esse a que ele não compareceu [ri]. o apelido dele era vento, porque estava aqui, ali, ali, ali. mas foram dois homens de confiança dele, e quando terminou o almoço eu tinha concordado em fazer. só pedi um tempo necessário pra poder ter uma conversa legal com o pessoal da rge. sempre saí bem dos lugares em que trabalhei. saí de lá numa fase muito ruim, era novembro de 1969.

pas – essa data você lembrou.

ja – é, eu sei a data do meu aniversário e do dia em que entrei na globo. porque eu tinha que fazer uma novela para março, se não me engano, que era “o cafona”, uma coisa muito em cima. e a globo estava em obras, o prédio da rua von martius estava cheio de poeira. eu não tinha nem lugar onde ficar, ficava um pouco na sala de cada um, uma confusão. então eu esperava acabar a hora do almoço e ia para o único lugar que se mantinha em ordem, que era o restaurante depois do almoço. contratei uma secretária que trazia a máquina olivetti da casa dela e ia pegando pessoas aleatórias para gravar.

nessa época a indústria do disco tomou conhecimento de que a tv globo ia fazer disco, e ia fazer não no mercado convencional. eu não achava razoável nem inteligente pegar um canhão como a tv globo e trabalhar em cima do mercado convencional, que era muito pequeno. tinha 800 pontos de venda. eu queria trabalhar para um mercado não-convencional: supermercados, lojas de conveniência, farmácias, armazéns, livrarias, tudo que não fosse convencional.

pas – isso foi concretizado?

ja – eu queria fazer isso. mas nessa altura existiam perto de 20 gravadoras no mercado. elas ficaram ameaçadas com o negócio da som livre, se reuniram e fizeram um negócio exatamente igual ao que a som livre fazer. fizeram uma firma chamada discofita que nada mais era que trabalhar no mercado não-convencional. foram para as supermercados, contrataram gôndolas. e foi um insucesso enorme, porque tudo que é para você fazer em termos de supermercado é medido por segundos. se você põe uma gôndola e ela não te fatura xis, não vende tantos produtos por hora, você procura outro produto imediatamente. como os 20 fabricantes eram os 20 acionistas da Ddscofita, todos os 20 queriam ter discos nas gôndolas. não pensaram em fazer sucesso com a firma, e sim queriam ver seus discos lá dentro. conclusão: foi uma confusão danada, ninguém vendeu coisa nenhuma e tiveram que acabar com o negócio. e já não dava mais tempo para eu esperar, eu já tinha entrado no mercado. me antecipei e entrei com uma parceria da odeon.

pas – as gravadoras fizeram essa empresa unicamente para fazer frente à gravadora da globo?

ja – é, eles queriam ocupar um território que sabiam que seria ocupado pela marca da tv globo.

pas – quer dizer, a Ggobo era jovem, mas já era poderosa o suficiente para causar esse impacto nas gravadoras?

ja – a globo tinha quatro ou cinco anos. mas em 1969 a globo já era a globo, já tinha o “jornal nacional”. o que fez a globo foi pegar um jornal e botar em edição nacional. que pela primeira vez havia um jornal que ia ao ar ao mesmo tempo no brasil todo. em jornalismo inovaram completamente, e nos outros aspectos foi questão de competência mesmo.

pas – qual era o tamanho da ambição da globo ao criar a som livre?

ja – a globo era um “repórter esso urgente”, ela não podia parar. não podia ficar dependendo de gravadoras para ter suas trilhas sonoras. não pensou em nada mais, nada menos que nas trilhas sonoras.

pas – talvez sem a dimensão exata de que isso viraria uma mina de ouro?

ja – isso nunca, com certeza não tinha. era exclusivamente pras trilhas. claro que eu, sendo de disco, entrando lá e vendo as possibilidades que a televisão tinha, comecei a criar linhas de programação que nunca passaram pelas cabeças deles, fazer discos de montagem. teve uma época que fiz um pequeno cast lá. a dificuldade de ter artistas era tão grande que fiz um cast com rita lee, cazuza, djavan, jorge Ben. cheguei a ter um cast importante lá. mas que acabei, porque as ideias de uma gravadora não se coadunavam com uma empresa de artista, de cast artístico.

pas – durou bastante a fase com elenco.

ja – não foi tanto, não. quatro, cinco anos.

pas – o que são discos de montagem?

ja – é disco que você não grava, que usa fonogramas de outros, ou seus mesmos.

pas – …que é o que são hoje as trilhas de novelas.

ja – é. novela não foi feita para usar música dos outros, não, foi feita pra ter música nova. mas aí muita gente começou a dar palpites, autores, diretores. era difícil fazer uma trilha, porque nem sempre você podia ao mesmo tempo a todas atender às pessoas internas da própria globo.

pas – essa relação acabou virando um jogo pesado de poder, não?

ja – era complicado, pelo seguinte. quando fundei a som livre, procurei estabelecer uma relação que fosse do tipo agência-cliente. ou seja, a som livre seria a agência e a globo, o cliente, um cliente espetacular, preferencial e único. mas acontece que todo brasileiro acha que conhece tudo, não tinha uma pessoa que não chegasse pra mim e dissesse como fazer uma trilha de novela, dos mais modestos aos mais respeitados. era impossível agradar todo mundo, mas a gente foi levando mesmo assim. se as trilhas de início fossem um insucesso seria muito difícil continuar com a som livre.

pas – como a gôndola do supermercado?

ja – é, seria muito difícil, porque ninguém ia aguentar a pressão. mas as trilhas da globo começaram a vender muito, e eu inaugurei as trilhas internacionais na segunda fase da novela. explodiram, vendiam quatro vezes mais que a trilha nacionl, o que era totalmente atípico, porque a venda do produto nacional representa 85% do mercado brasileiro. as trilhas internacionais eram exceção.

pas – alguns dos primeiros artistas da época que a som livre teve elenco eram experimentais, transgressores, como luiz melodia, jards macalé, alceu valença. a gravadora da globo, no início, era audaciosa em termos artísticos.

ja – era. eu tinha muita vontade de que ela fosse uma mola propulsora de novos talentos, que desse oportunidade a quem tivesse talento. como ela tinha um poder de fogo muito grande, poderia promover melhor. mas nunca é a realidade, a realidade era diferente. pra mim às vezes era muito mais difícil colocar um artista da som livre na globo que numa outra televisão. é ou não é? [dirige-se à assessora, que confirma: “até hoje”.] tinha um negócio difícil de passar por cima, que uma coisa chamada a resistência passiva. você não diz não, mas quando você cobra do cara, “você vai botar rita lee no ar no domingo no “fntástico?”. “não tem problema, maravilha, que ótimo.” você fica lá o programa todo e nada. e isso com o poder do boni lá dentro, todo mundo lá dentro tinha um cagaço terrível dele.

pas – você inclusive?

ja – é uma coisa que eu até faço questão de dizer, só consegui implantar a som livre com muita ajuda do boni, assim mesmo furando as coisas como furavam. eu contava para ele no dia seguinte, ele ficava louco, só faltava comer o fígado do cara. mas o cara dizia “eu adorei, mas imagina, o caminhão virou, a lata bateu”. enfim, isso vocês [para as assessoras] estão cansadas de ouvir, é resistência passiva.

pas – era como se fosse uma rivalidade de globo com globo?

ja – tinha um problema sério, quando uma empresa cresce muito em curto espaço de tempo… hoje a globo é bastante organizada, mas na época, por mais que se fizesse era impossível. a globo tinha um problema que a gente chamava de canal 9. depois das 9 da noite o pessoal da própria globo entrava lá para gravar, fazer copiagem, tape, pra competir às vezes com a própria globo. isso foi problema de uma época, já deve estar diferente.

pas – quando mariozinho rocha passou a ter a importância que teve?

ja – quando comecei a sentir o problema das trilhas, eu disse para o boni que só íamos encontrar solução para os problemas se colocássemos uma pessoa específica para controlar a novela, não lotada dentro da televisão ou da som livre, mas que fique lá no… como é o nome do parque de produção? projac. sugeri mariozinho rocha, que já era conhecido. a tv globo pagava metade do salário dele e eu pagava a outra metade, e assim começou mariozinho lá. agora como está não sei, mas era assim.

pas – e mariozinho ficou poderosíssimo.

ja – é, porque passou a ser muito procurado pelas gravadoras. houve uma época que todo mundo achava que só podia fazer sucesso se entrasse numa novela, o que não era verdade, porque, puxa, muitos estouraram fora da novela.

pas – mas sem dúvida era um instrumento a mais, realmente poderoso. se entrasse na novela, seria ouvida por milhões de pessoas.

ja – é. a trilha nunca foi o que eu idealmente pensava em fazer. talvez fosse um sonho, sonhar não custa nada, mas não consegui botar na realidade esse sonho de ter uma trilha. eu achava que você não pode pegar músicas antigas e botar numa novela nova. têm que ser temas novos, mesmo que seja pra tratar de músicas antigas. se quiser regravar francisco alves, tudo bem, entra um cara e grava, mas sempre procurando botar alguma coisa nova. sei que é difícil encontrar música, a globo tem seis novelas por ano. no começo tivemos o sonho de ter trilhas compostas por duplas. chegamos a fazer roberto e erasmo, marcos valle e o irmão paulo, raul seixas e paulo coelho, toquinho e vinicius. aí parou, não teve como continuar. era para dorival caymmi fazer a trilha interia de “gabriela”.

pas – tinha jabá nessas negociações?

[continua…]

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