foto ernesto rodrigues/ae

há muito tempo o santos f.c. explora o trabalho infantil.
pelé veio de trem de bauru e pegou no batente aos 16.
diego e robinho iam treinar de calói aos 16 e 17.
paulo henrique veio de busão do pará aos 16 e neymar era amamentado atrás das placas de publicidade da vila belmiro.
diferentemente dos meninos-carvoeiros, no entanto, esses aqui são meninos bailarinos.
que fizeram o batente se transformar em playground.
o técnico henry mancini, sabendo como são gloriosos the days of wine and roses, não hesitou: escalou seus dois magricelas virtuoses do meio de campo para a frente: neymar e paulo henrique.
do outro lado das trincheiras, o técnico duque de luxemburgo contou na TV que pressentiu o momento em que sua maionese ia desandar: foi quando o menino-bailarino deu três dribles fenomenais no miolo da sua zaga, mas não bateu, hesitou.
momentos depois, o pivete recebeu a bola e olhou para a direita, e toda a zaga obviamente olhou para a direita.
mas neymar foi para a esquerda e o balé de zagueiros de pernas arreganhadas foi junto, abrindo túneis maiores do que os da imigrantes.
o descabelado marcos esperava um passe à direita, que não aconteceu. o chute veio cruzado, no contrapé.
o gol se consumou antes mesmo de a bola morrer lá dentro, e a torcida comemorava sabendo que ela ia entrar, gozando por antecipação o líquido e o certo.
o grande & pragmático comentarista do futebol de resultados pode achar que tudo se resume em força e em eficiência.
eh, mas que maravilha que é a pura festa pura!

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter desde 1986 e autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019), Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021), O Último Pau de Arara (Grafatório, 2021) e A Culpa é do Lou Reed (Reformatório, 2024)

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