a reportagem “o executivo bossa-nova” ficou apertada na “carta capital” (edição 541, 15 de abril de 2009, nas bancas desde sexta-feira), pouco coube da longa entrevista gentilmente concedida por joão araújo em seu escritório no leblon.

joão, além de pai de cazuza, foi por quase 40 anos presidente de som livre, a gravadora da toda-poderosa rede globo. quase sempre arredio, ele (gentilmente, repito) abriu esta exceção e conversou três horas e meia sem parar. na revista ficou apertado, aqui não ficará. lá não coube muita coisa, aqui tudo caberá.

para começar, o início da odisséia, ops, odisseia: o trecho em que discorreu sobre a indústria fonográfica e sua tão alardeada crise – começamos, portanto, em registro parecido ao da série sobre a relativamente nova (e relativamente mambembe) indústria dos dowloads musicais.

pedro alexandre sanches – quais são atualmente suas atividades?

joão araújo – eu continuo como presidente da associação [associação brasileira dos produtores de discos, abpd], um cargo que me foi dado por unanimidade pelos diretores lá, muito simpaticamente. fiquei muito gratificado com o gesto deles. o presidente-executivo é o paulo rosa, e eu, como presidente de honra, faço parte de uma representação que a associação tem, visitas protocolares, conferências, passar um pouco de meu conhecimento de 50 e poucos anos de música. porque só fiz isso na vida, né? tem um pessoal jovem muito bom, mas, como todo jovem, eles têm suas dificuldades em aprender certas coisas. estão começando a ralar agora, então estão se vendo diante de problemas que para eles são muito grandes, mas que para um cara como eu não são tão grandes. eu já passei por tantos.

pas – você disse que para um cara como você os problemas não são tão grandes, mas a retórica mais comum hoje é de que a indústria vive os maiores problemas que já teve na história. você não concorda com isso?

ja – eu concordo em parte, porque uma indústria que já gerou o faturamento anual de 1,8 bilhão de dólares, chegando a ponto de passar pelo canadá e ficar em sexto lugar no ranking mundial, hoje vive o constrangimento de ser uma indústria que não chega a 300 milhões de dólares. vejo os jovens penando, trabalhando muito para poder desenvolver um trabalho, porque evidentemente as gravadoras hoje não têm mais as verbas que tinham para promover os artistas, fazer um trabalho maior. mas digo que é outro tipo de problema em que eles se encontram, na própria relação com os artistas. sinto que eles têm dificuldade. porque o artista é uma entidade diferente, e é muito difícil para um produtor entrar no ritmo da cabeça de um artista.

pas – essa foi sua atividade nesses anos todos, não?

ja – exatamente, eu sempre fui muito chegado a fazer um trabalho psicológico. na cabeça do leigo que está de fora, a indústria de disco é a vilã, e o artista é o bonzinho. você precisa compatibilizar isso de forma a não chatear o artista e não passar à gravadora que você está traindo os ideais empresariais dela. é uma coisa bastante delicada.

pas – são estereótipos, não? por que a indústria se deixa ficar no papel de vilã?

ja – é. um trabalho que pretendo fazer como presidente de honra é tentar incutir nos meus companheiros da indústria a necessidade de as empresas terem um curso preparatório, um cursinho para artistas jovens. para dizer o que ele vai enfrentar, como é que vai ser. porque ele entra completamente cru, não sabe o que está por trás daquelas portas e cortinas.

houve um tempo que a redução do icms deixou as gravadoras bastante nutridas de dinheiro. foi quando acho que não houve por parte da indústria certa responsabilidade com as regras gerenciais. isso foi de 15 anos para cá, na década de 1990 a indústria teve seu auge de faturamento brilhante. e muita gente começou a dar adiantamentos errados, a usar o dinheiro de forma indevida. esse dinheiro era para você cobrir, aumentando a possibilidade de as gravadoras gravarem mais produtos nacionais. gravação custa caro, pô. tem que pagar estúdio, regência, músicos. você não paga o que quer aos músicos, eles têm um sindicato. temos que pagar o que o sindicato comanda. hoje, certos excessos terminaram.

o problema que temos hoje é que o disco faz parte do lazer doméstico. há 30 anos o lazer doméstico se compunha talvez de dez ou 12 itens, um gravador, um disco, o rádio. hoje o lazer doméstico deve ter alguma coisa como cem itens, todos saindo do mesmo bolso. fora um combate desleal que a gente tem por conta dos piratas. antigamente a associação podia se reunir, aprovar uma verba xis de cada gravadora e fazer uma campanha promocional muito bem-feita que dizia: não aceite, não compre disco pirata, porque ele vai quebrar seu toca-discos. e não dizer que quem vai se prejudicar com isso é o compositor, o artista ou a gravadora, que são argumentos que não sensibilizam o povo. hoje tem o computador, o mp3, a internet. meu filho morreu em 1990, ele não conheceu nem o computador, nem o telefone celular… essas coisas vieram depois, e vieram rápido demais.

pas – isso é irreversível, na sua opinião?

ja – olha, hoje eu daria 1 milhão de dólares para saber o que vai acontecer com o disco. ninguém sabe. lido com presidentes de gravadoras daqui, dos estados unidos, da europa, com técnicos de som. primeiro havia a veleidade de alguns técnicos pensarem que teriam encontrado a solução para a pirataria por mecanismos usados no próprio disco. acontece que hoje qualquer garoto de 16 anos vai lá e desarma isso. então a indústria ficou absolutamente à mercê. perplexa, de certa forma, porque realmente não há nada que possa assegurar que vá haver uma solução. é dramático o quadro, dramático.

pas – discute-se na associação o fato de que esse adolescente de 16 anos sempre foi o consumidor preferencial, o que sustentava a indústria, e hoje virou o inimigo?

ja – é verdade. e o artista também mudou muito a cabeça hoje. conheço alguns artistas que não veem nada na pirataria. pelo contrário, acham até boa a pirataria, porque já que as gravadoras convencionais não gravam com eles pelo menos a pirataria está expondo o trabalho de alguma maneira. é uma luta muito séria em que a gente está. numa guerra, é muito fácil invadir um país. difícil é ocupar o país. é fácil a gente combater, agora dominar isso aí… eu não estou vendo no horizonte nada positivo.

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Editor de FAROFAFÁ, jornalista e crítico musical desde 1995, autor de "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004)

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