os filhos escoltam o pai do bar para casa
foto: matt

desde que caiu do cavalo meu pai mal reconhece as pessoas.
pode reconhecer agora, mas daqui a pouco esquece de novo.
não soube dizer quem eu era, e minhas piadas de visitante eventual não ajudaram muito.
dormi no sofá e, de noite, eu o vi levantando e dizendo meu nome no escuro, como se me procurasse.
teria se lembrado que eu cheguei?
bom, meu nome também é o nome dele, então não sei…
confunde o filho com o pai, a filha com a neta.
fica sentado na varanda e olha as mulheres passando na rua e faz comentários que gente da família jura que são indecentes.
eu não entendo uma palavra, mas devo concordar que ele faz caras e bocas de david cardoso em pornochanchada nacional.
aos 92 anos, o desejo permanece firme, muito mais do que a memória danificada.

meu pai não lembra de porra nenhuma, apenas repete os nomes que você pergunta para ele como se fossem chaves para alguma caverna da memória.
de vez em quando você olha para ele sentado ali e ele está te encarando, os imensos olhos azuis sorrindo de um jeito que parecem dizer: ah, então você está aí, seu malandro?
meu pai tem manhas de gato, como a mania de encher o saco rapidamente quando não está em seu lugar preferido, a casa dele.
desconfortável, simula dores e faz caretas.
também cheira as pessoas como um sinal de afeto, coisa que já fazia quando era completamente são.
meu pai me lembrou minha gata, a piuí.
piuí acaba de chegar ao mundo, mas já se afeiçoou a um cão de pelúcia e um colchão velho. quando alguém se apropria de algum dos seus bens, ela mia desesperadamente.
ela olha toda a movimentação de pessoas na casa de um jeito blasé, como se apenas tolerasse aquilo. de vez em quando, escala as pernas jeans de alguém com as unhas, para deixar claro seu papel naquele principado.
meu pai agora tem a paciência curta de um gato.
sua presença, no entanto, não é triste nem doentia.
meu pai tem as coisas mais simples e básicas da vida como seu reino: um sono reparador, um prato de cuscuz com ovo, umas fitas k-7 de aboio nordestino, uma multidão de filhos e netas bonitas a dançar na sua sala muito quente, quente de um calor que nenhum ventilador consegue aplacar.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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