Em 10 de abril de 1996, eu soube que a poeta Orides Fontela estava sem casa. Tinha sido despejada. Com informações do editor dela, dirigi-me ao único canto que ela tinha arranjado para morar. Moraria ali de favor por uns tempos. Entrevistei-a e essa entrevista saiu publicada no jornal. Ela morreria dois anos depois.

A poeta Orides Fontela está sem casa. À beira do despejo, abrigou-se no começo da semana numa república de estudantes na Avenida São João, onde uma amiga muito fiel ofereceu-lhe um sofá para dormir. Os carros passam zunindo na janela da sua nova casa, porque é rente ao Elevado Costa e Silva, o famigerado Minhocão.
Na realidade, Orides nunca teve um lugar no mundo. Não sabe de parentes (“Talvez uma prima e um tio, que não ajudam nem atrapalham”) nem guarda fotos de amores passados. Sua existência é delineada pela poesia que a fez ser considerada, por gente como Antonio Candido, Davi Arrigucci e Marilena Chauí, como uma das mais importantes poetas brasileiras atuais.
Formada em Filosofia pela USP, ela lê Heidegger e os estruturalistas, mas prefere poetas como Baudelaire, Mallarmé, Wallace Stevens. Dela, acaba de sair o livro Teia, pela Geração Editorial. A Prefeitura de São Paulo comprou 1.065 exemplares do livro para o programa Salas de Leitura, destinado a estudantes do segundo grau.
De seu sofá temporário, ela concedeu a seguinte entrevista.

A sra. é considerada uma das mais importantes poetas brasileiras…
Orides Fontela — Não tenho instrumento para medir poeta. Quem diz isso são os críticos, é deles a tarefa de examinar.

A sra. se considera influenciada por alguém?
Orides — Claro. Os simbolistas brasileiros, como Alphonsus de Guimarães, depois os modernos, Bandeira, João Cabral. Todos esses brasileiros interessantes. Mas chega uma época em que se acha um jeito próprio de escrever e nada influencia mais.

A sra. vive da poesia?
Orides — Vivo da aposentadoria. Recebo R$ 423,00 de aposentadoria como professora de pré-primário.

Nunca foi casada?
Orides — Nunca quis casar. Sempre achei as leis do casamento muito rígidas para mim.

Mas certamente houve um grande amor…
Orides — Não, não aconteceu. Nunca amei ninguém.

Sente-se frustrada por isso?
Orides — Sei lá. A vida é tão maluca, tão imprevisível. Quem sabe ainda não vou encontrar um grande amor? Tenho 55 anos, minha madrasta casou com meu pai aos 60 anos. Mas não vou casar.

Não é mais difícil fazer poesia sem nunca ter amado alguém?
Orides — Qual a relação entre amor e poesia? Sei que o poeta homem tem mais facilidade de falar do amor e nesse campo fracassei. Mas o que deu certo em mim além da poesia?

Quanto tempo vai ficar hospedada aqui?
Orides — Quanto for necessário, quanto me permitirem ficar. Foi bom ter vindo para cá, as pessoas são amigas e eu estava muito solitária. Vai ser terapêutico para mim. A solidão e a desocupação só dão em confusão. Preciso apenas arrumar um trabalho agora. Sou insistente.

A sra. gosta de viver?
Orides — Às vezes é satisfatório; às vezes, uma porcaria. Tudo na vida é muito maluco, impulsivo, aberto. E ninguém sabe imaginar outra coisa além da vida.

Como começou a fazer poesia?
Orides — Foi algo tão forte, tão espontâneo que teria feito poesia com dinheiro ou sem dinheiro. Gosto de todos os meus poemas ou quase todos. Alguns caem no gosto das pessoas com mais facilidade. E acho que cada um tem a liberdade de ler como quiser. Acho que hoje se pode fazer poesia de qualquer maneira: popular, concreta, barroca. Não há uma linha cultural decisiva nesse final de século chocho.

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Jotabê Medeiros, paraibano de Sumé, é repórter de jornalismo cultural desde 1986 e escritor, autor de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), Raul Seixas - Não diga que a canção está perdida (Todavia, 2019) e Roberto Carlos - Por isso essa voz tamanha (Todavia, 2021)

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