todo mundo vai ao circo, menos eu. menos eu. como pagar ingresso, se eu não tenho nada? fico de fora escutando a gargalhada.

a minha vida é um circo. sou acrobata na raça. só não posso é ser palhaço, porque eu vivo sem graça. (*)

e, não, o lindo circo de que se trata não se chama plutão. este lindo circo se chama brasil.

O CIRCO BRASIL (**)
Na periferia das grandes cidades, a arte circense, em sua forma mais tradicional, luta pela sobrevivência


POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES

Crianças e adultos gargalham gostosamente, concentrados nos melhores lugares de uma platéia semi-ocupada, sobre o chão de serragem e sob o céu de lona. É quinta-feira, horário nobre, e as pessoas que preenchem parte das 1.700 cadeiras não estão vendo telenovela nessa noite. Preferiram ir ao circo, aproveitando o preço promocional do ingresso em dia de semana, de indistintos R$ 5 para todo e qualquer espectador. Estamos na Vila Iracema, periferia de Barueri, município periférico da Grande São Paulo, a 29 quilômetros da capital, numa sessão do Circo Stankowich, 155 anos de idade, cuja agenda de espetáculos se encontra com dificuldade em roteiros da grande imprensa ou na internet.

O elefante Bambi faz entrada triunfal, sob a autoridade do domador argentino Fred Andreoli, pouco depois de um desfile de lhamas, pôneis, ovelhas, jegues e um dromedário. O locutor em off explica que aqueles bichos “são criados livres e soltos, contrariando a tese de que os animais de circo são maltratados”. Nos bastidores, o domador de todos eles garante: “Não utilizo nenhuma espécie de violência. O adestramento é com comida, só”.

As ressalvas são necessárias, pois o Stankowich vive sob bombardeio de instituições defensoras dos direitos animais, por ser dos poucos que ainda resistem à tendência de eliminação de números com bichos no picadeiro. Eles já são proibidos por lei em cerca de 30 municípios brasileiros (inclusive a capital paulista) e em todo o estado do Rio de Janeiro.

“Proibir os animais é uma besteira grande. Você mata a alma do circo”, protesta o italiano Orlando Orfei, 86 anos. O circo que leva seu nome se ressente da ausência completa de animais – e, em muitas sessões, também de público, como aconteceu em quatro sessões presenciadas por CartaCapital num domingo ensolarado, na Vila Baeta, em São Bernardo do Campo.

Ancorado no Brasil desde 1968 e ex-domador por preferência, Orfei hoje apenas encerra o espetáculo, com o tradicional “balé das águas”, de que se diz inventor. Assim ele se refere à lida circense: “Às vezes ganhei muito dinheiro. O circo me deu tudo. Dinheiro, satisfação, aplausos. É uma vida linda”. Dura, além de linda? “Não pode ser dura uma coisa de que você gosta. É duro, e fadiga, mas para mim estar fora do circo é estar fora do mundo”.

É forte o contraste entre esse cenário e o do chamado “novo circo”, presente nas companhias internacionais que têm passado pelo Brasil. Há os que não se utilizam mais do formato de lona e picadeiro (apresentam-se em teatros elegantes), como o Cirque Plumme, francês. Mas mais emblemático é o caso da companhia canadense Cirque du Soleil, em cartaz em São Paulo com o espetáculo Saltimbanco, misto de circo com superprodução da Broadway. Sua lona, montada em terreno asfaltado da Eletropaulo, ao lado da Daslu, abriga até 2.500 pessoas dispostas a pagar entre R$ 50 (em meia-entrada para estudantes) e R$ 400.

A vinda do Soleil causou controvérsia, porque a empresa CIE Brasil, promotora da turnê no País, obteve autorização do Ministério da Cultura, via Lei Rouanet, para captar R$ 9,4 milhões em patrocínio. Depois que a polêmica eclodiu na imprensa, o MinC afirmou que vetou parte dos R$ 16,6 milhões solicitados originalmente para a temporada paulistana e todos os R$ 5,8 milhões para a carioca. “O Soleil, que vem de fora, ganha US$ 10 milhões de patrocínio, é ridículo. Os circos brasileiros não têm apoio”, critica Mário Orfei, filho e assessor de Orlando.

Márcio Stankowich, pertencente à sexta geração da família e representante do segmento nas Câmaras Setoriais instaladas pelo MinC, mira a questão sob outro ângulo: “Circo-família não tem tempo para correr atrás de patrocínio”. E completa, fazendo comparação com as novas gerações formadas em escolas especializadas e muitas vezes desconectados das tradições familiares que governam os circos mais antigos: “Um circo-escola pode ficar dois meses parado no mesmo lugar, a gente não pode, é circo de estrada. O circo tradicional não precisa de dinheiro, precisa de condições. Se tiver uma área apropriada e apoio da prefeitura, ele se ergue sozinho”.

CartaCapital testemunha uma realidade em tudo diferente da do luxuoso Soleil, numa segunda-feira em que a caravana Stankowich está prestes a partir de Barueri para Franco da Rocha, outro município periférico da Grande São Paulo. Em pleno processo de desmonte, ainda há tempo para dois derradeiros espetáculos, em uma platéia semidesativada (mais da metade das cadeiras foi acondicionada nos caminhões).

O carro de alto-falante passou o dia circulando e anunciando duas derradeiras sessões às 19h e 21h, a “preços populares”. Não há Jornal Nacional nessa noite, para centenas de crianças e adultos que se amontoam na fila e depois abarrotam em cadeiras ou de pé, nos corredores. O preço, para brancos, pardos e pretos que enchem o ambiente de gargalhadas, é R$ 3. Para todos, sem ingressos VIP. Durante o espetáculo, o locutor em off interrompe as atrações para o breve aviso: “Estamos precisando de cem homens para ajudar a desmontar o circo, hoje e amanhã. Paga-se por hora”.

Ali, os jovens artistas se desdobram em inúmeros papéis, como é praxe no circo tradicional. Bilheteiro na entrada e vendedor de salgadinhos durante o intervalo, Rodrigo Moura sai correndo no início do segundo ato, para se materializar no trapézio como aparador, agarrando os acrobatas após “saltos-mortais” duplos e triplos. Rodrigo tem 18 anos. “Treino desde os 7 anos, primeiro no balanço, depois lá em cima, por um ano. Cair, a gente não cai. Na hora, não cai. Mas machuca muito, principalmente o joelho”, conta.

Gil Silva, 42 anos, ex-bailarina, hoje é vendedora de tíquetes para pipoca, cachorro-quente, algodão-doce e churros. Tornada circense ao se casar com um dos eletricistas da trupe, tem quatro filhos: “Uma trabalha com circo em Paris, dois são trapezistas da Trupe Stankowich, e a outra não quis ser artista, é pipoqueira aqui no circo”. Diz assimilar plenamente a vida nômade: “A gente sofre um pouquinho, mas já não acho mais dificultoso. A única coisa que me incomoda na vida de praça é a chegada, a demora de dois ou três dias para ter água”.

Mito central da vida nômade, a escassez de água freqüentemente contrasta com imagens de fartura à luz dos holofotes (como as exibidas no balé aquático de Orlando Orfei). Nos bastidores, a chegada a cada cidade significa nova rodada de tarefas de infra-estrutura, como providenciar documentos junto a prefeitura, bombeiros, Polícia Militar, Juizado de Menores etc. e obter acesso a energia elétrica e rede de água.

Embora suntuoso e aparentemente mais bem equipado que o Stankowich, o Orlando Orfei, que viveu o auge de popularidade nos anos 70 e andava fora de circulação (“de volta a São Paulo após 16 anos” é o mote atual), não parece de todo recuperado. Naquele domingo em São Bernardo, os 1.900 lugares estiveram majoritariamente desocupados, exceção feita ao único setor sempre lotado, o das arquibancadas laterais, quase no bastidor do circo, a R$ 15 o adulto e R$ 10 a criança. Nas cadeiras centrais, de R$ 40 (adulto), o panorama é desértico.

Na praça de alimentação, a vendedora Suelen da Silva Gomes, de 21 anos, lembra em tudo a bilheteira do Stankowich: veio para o circo há três anos, por namorar um eletricista. Prepara cachorros-quentes enquanto nina a filha Nicole, de 1 ano. Mas a maquiagem caprichada já evidencia: na abertura e na apoteose do espetáculo, lá estará ela, de plumas vermelhas, bailarina-vedete, dançando a salada mista de músicas em espanhol, inglês, italiano e (pouco) português que escapa das caixas de som.

A peruana Eva Terry, 60 anos, que vende espadas mágicas com luzes coloridas no intervalo, já foi contorcionista, acrobata e mágica. Zanzando pelos escombros em que o circo instalou seus trailers e caminhões, ao lado de um shopping center, conta que o nomadismo também acontece de uma de trupe para outra: “O artista está onde pagam mais e tratam melhor. Não adianta tratar bem e pagar mal, ou pagar bem e tratar mal. Mas nada é difícil para a gente, só a falta de água, o pé na lama. Estudo também é difícil, mas não podemos ficar na cidade, algo nos falta. Falta gente, falta aplauso. Parada, eu fico louca”.

No Orfei, o palhaço é vivido em tons melancólicos por Gleiston Guinner, paulista de 24 anos, casado com Priscila Krateyl, acrobata colombiana naturalizada, filha de romena com brasileiro. Dividido entre o Orfei e o Circo di Napoli, Guinner expõe o lado pragmático do ofício de palhaço: “Ganho bem. O que manda é proposta de trabalho. A gente é como jogador de futebol”.

Estudo, saúde e cidadania são calcanhares-de-aquiles importantes para a população circense, como atesta Joelma Costa, presidente da Associação de Famílias e Artistas Circenses (Asfaci): “O circense não é tratado como munícipe. Educação é um problema sério. Não dão vaga, muitas vezes os atendentes não estão nem informados de que existe uma lei que obriga as escolas a receber itinerantes de circo e parques de diversão, os alunos-cometa, como falamos. Consulta médica é difícil, pois nunca se sabe onde vai estar daqui a um mês. Na polícia também é complicado, circense não tem endereço fixo”.

Nascida no Mato Grosso do Sul, ela é afilhada da cantora Inhana (da dupla caipira com Cascatinha) e cresceu no Circo Disparada, batizado em homenagem à canção homônima do engajado Geraldo Vandré. Fechado o pequeno circo, foi bancária e radialista, casou-se e foi à universidade, onde se surpreendeu ao descobrir que o circo poderia ser seu objeto de estudo acadêmico.

Fundadora da Asfaci a partir de Araraquara (SP), onde mora, defende a vida nômade que já não é sua: “Vai embora com o circo quem não se habitua, quem é à margem. Há muitos preconceitos que é preciso enfrentar. O circo serve como álibi para ladrão atuar na cidade, e o circense é que vai levar a culpa. É como minha mãe brincava, e estou sendo leve: ‘Recolhe as galinhas, que o circo chegou'”.

Uma das atitudes recentes do grupo de mobilização foi o encaminhamento de uma carta aberta aos prefeitos do País, reivindicando o fim da discriminação dos circenses pelos poderes públicos locais e co-assinada por mais de cem entidades.

Falando da questão dos animais, Joelma aborda uma dicotomia que fica mais à sombra e que opõe proprietários de circos e seus operários: “Muitos artistas reclamam que o dono valoriza mais o animal que o circense. O cara quase fica aleijado, quase se mata, recebe míseros aplausos e um macaquinho vestido faz a alegria da molecada”. Mas contrapõe: “Sou radicalmente contra maus tratos, mas o que se vai fazer com os bichos que já estão aí, adestrados? Vai colocar no zoológico? Os domadores e tratadores vão receber indenização? É preferível regulamentar, e aí proibir quem infringe a lei”.

Um dos projetos de regulamentação é o do senador Alvaro Dias (PSDB-PR), aprovado no Senado em abril e agora em tramitação na Câmara. Ele se posiciona sobre a disputa em torno dos bichos: “A questão é polêmica, já que muitos animais não são tratados com o devido cuidado. Mas é possível estabelecer uma relação de respeito, garantindo que os animais, muitos deles nascidos nos circos, estejam sempre saudáveis e em segurança. Nosso projeto prevê que o Ibama mantenha um cadastro de todas as espécies da fauna brasileira e fiscalize o cumprimento das normas de proteção e segurança”.

Apesar de muitos percalços e da constante tensão entre o “novo” circo e as formas tradicionais, há quem veja no presente momento uma tomada de fôlego do setor, num cenário de mobilização dos próprios profissionais e conseqüentes conquistas junto aos diversos poderes públicos. Diz a historiadora Erminia Silva, quarta geração de uma família de donos de circo: “O segmento está se articulando muito. Com o surgimento das escolas, os novos grupos não têm mais prática nômade. São viajantes, como todo artista, mas têm inserção política e intelectual na cidade. Eu e outros pesquisadores também entramos nessa militância”.

Egresso de circo-escola, Hugo Possolo, do grupo Parlapatões, acaba integrando nessa percepção até mesmo o Soleil: “Sua vinda é importante como é importante a vinda de uma banda de rock estrangeiro para o rock que se faz no Brasil. Faz barulho, é um blockbuster que está vindo. É bom porque arrasta um pouco de visibilidade, volta o olhar das pessoas para o circo. Há um estudo que mostra que o circo só aparece na grande mídia quando morre um artista, ou quando um acidente acontece. Ou seja, sempre nos cadernos de cotidiano e polícia”.

Em associação com a trupe de “bonequeiros” Pia Fraus, os Parlapatões testam uma nova experiência com o Circo Roda Brasil, em cartaz em São Paulo, no Memorial da América Latina. O espetáculo Stapafúrdyo é o primeiro em que os Parlapatões aderem ao formato tradicional, com lona de design arrojado (não há mastros dentro do picadeiro, e a sustentação se dá por dois arcos externos), cenografia moderna, ingressos a R$ 20 e público predominante de classe média.

Os animais estão presentes apenas como alegorias, na forma de bonecos infláveis híbridos – giravacas, porcoletas – e de coloridos poodles de papel. Uma artista anã, Verônica Ned, 30 anos, integra o elenco, mas Possolo transmite a preocupação de não utilizá-la de modo desrespeitoso. Quase uma mestre-de-cerimônias, a certa altura ela aparece cantando liricamente, com vozeirão digno de diva da canção e secundada por banda ao vivo que brinca com os elementos da música “brega”, sob direção de André Abujamra.

Verônica é publicitária, filha do cantor Nelson Ned e está no circo há menos de um ano. E fala assim da exploração freak, sensacionalista, que o circo do passado legou a programas como o Pânico na TV: “Sou amiga dos caras do Pânico, mas é ridículo e medieval o que eles fazem com os pequenos. A gente está em 2006, não sei como o povo acha isso engraçado. As pessoas são cruéis. Mas, se estiverem me abusando, dou ataque”.

Não é fortuito o nexo entre música e circo, embora já vá se distanciando o tempo em que o picadeiro era palco preferencial para praticamente todos os cantores mais populares do País, inclusive um Roberto Carlos em início de carreira.

Autor da célebre balada Na Rua, na Chuva, na Fazenda (1975), o cantor e compositor baiano Hyldon dá testemunho: “Comecei a acompanhando cantores como Paulo Sérgio em circos contratados por caras que tinham programas de rádio, eram as caravanas de Mário Luiz, Jair de Taumaturgo etc. Era um ‘jabá’, os cantores iam de graça em troca de execuções de suas músicas na rádio”. Adiante, a estratégia seria adaptada à tevê, sobretudo nas caravanas de Chacrinha.

Não só na música, a lista de artistas com vivência circense é extensa: Pixinguinha, Oscarito, Grande Otelo, Angela Maria, Ronald Golias, Os Trapalhões, Daniel Filho (cujo livro de memórias sobre a Globo leva o título Circo Eletrônico), a maioria das duplas sertanejas…

A historiadora Erminia Silva cita o jovem Silvio Santos como um dos integrantes de shows no circo de seu pai, Charles Barry Silva, entre as décadas de 50 e 60, e fala sobre as conexões entre arte, entretenimento e informação, sob a ótica do circo: “Na origem da tevê e da indústria do disco há muito circense. O debate dos letrados e intelectuais se distanciou de valorizar o circo como patrimônio cultural. Eles não querem ser comparados”.

Nesse viés, ela critica também o comportamento dos formadores de opinião. “Na mídia, quando se quer referir a bagunça ou esculhambar a política, se fala em circo, picadeiro, palhaçada. Quando vocês vão colocar o circo como uma coisa séria?“, pergunta.

Aos 52 anos, Erminia conta que sua geração testemunhou a extinção dos diversos circos da família (“de 17 primos, nenhum foi de circo”). “Minha geração coincide com a valoração e a valorização social através do diploma. Não foi o circo que perdeu valoração social, mas todos os conjuntos de saberes artesãos, o que vale para benzedeira, sapateiro, costureira, circense, indígena…”, justifica.

O assunto poderia terminar por aqui, mas falta ainda o depoimento de um dos rapazes dos bastidores, que recebem o auxílio de exércitos de desempregados de cada cidade para montar e desmontar um circo, na periferia da periferia da periferia.

Fala um faz-tudo do Orlando Orfei, Denilson Oliveira Guimarães, 24 anos, dez de circo: “Faço faxina, sou assistente de palco. Se precisar, sou palhaço. Montar e desmontar é a parte mais difícil, é cansativo. Mas amo a parte que faço, amo de paixão o circo. Não é porque sou analfabeto, podia ser polícia. Minha mãe foi gerente do Itaú, tenho irmão que é capitão da Rota, outro tenente. Eles tentam me convencer a ser como eles, mas é maravilhoso o trabalho de circo. A gente anda a América Latina inteira, conhece um montão de gente. É emocionante”.

O circo em que ele mora poderia se chamar Brasil.

(*) versos de “o circo”, do sambista baiano batatinha, conforme cantados pela recém-sessentona maria bethânia, no (melo)dramático álbum “drama”, de 1972.

(**) reportagem especial publicada à “carta capital” 406, de 16 de agosto de 2006; a foto principal com o elefante bambi, reproduzida acima, é de olga vlahou. aqui, há um link para algumas das melhores fotos feitas por olga para esse trabalho.

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