Renato e Seus Blue Caps
Renato e Seus Blue Caps com um negro gato

Renato Barros (1944-2020) ficará na história como cabeça de um dos principais conjuntos da jovem guarda, Renato e Seus Blue Caps, provavelmente o principal. Os Blue Caps podem ser considerados fundadores do movimento, já que tocavam juntos desde  cinco anos antes da estreia do programa Jovem Guarda, em 1965. No começo de tudo, o grupo tocou no programa do onipresente Carlos Imperial, por onde também circulavam os jovens Roberto CarlosErasmo CarlosWilson SimonalEduardo Araújo etc. Eram um conjunto de surf rock instrumental, que às vezes contava, nas gravações, com vocalistas convidados – casos de Cleide Alves e Reynaldo Rayol (irmão do romântico Agnaldo Rayol).

"Renato e Seus Blue Caps" (1963)
“Renato e Seus Blue Caps” (1963)

Quem integrava a formação na época do segundo LP, Renato e Seus Blue Caps (1963), era um muito jovem Erasmo (na capa acima ele está no centro e atrás), que já compusera “Eu Quero Twist” com Imperial para o primeiro LP dos Blue Caps, Twist (1962). Sua voz solo é perceptível no rock “Lobo Mau” (regravada por Roberto Carlos em 1965), versão para “The Wanderer”, e na balada “Estrelinha”, versão para “Little Star”. Estava consolidado o hábito jovem-guardista de cantar versões, aprendido com Celly Campello e a geração roqueira anterior.

"Wanderléa" (1964)
“Wanderléa com Renato e Seus Blue Caps” (1964)

Por esse tempo Roberto Carlos iniciava a revolução iê-iê-iê, e os grupos e cantores de rock viraram galinhas dos ovos de ouro para as gravadoras. Os Blue Caps se mudaram da Copacabana para a multinacional CBS, casa fonográfica também de Roberto e Wanderléa. O primeiro trabalho lançado na nova gravadora seria o álbum de 1964 de Wanderléa, com o nome do conjunto impresso na capa e versões de apelo pop como “Meu Bem Lolipop”, “Capela do Amor”, “Não” e “Exército do Surf”.

Renato e Seus Blue Caps
Renato e Seus Blue Caps

Em 1965, Erasmo lançou o rock “Beatlemania”, em parceira com Renato. Era a senha para a outra característica distintiva dos Blue Caps na vigência da jovem guarda: incontáveis versões abrasileiradas para os rocks dos Beatles. A primeira foi “Menina Linda” (1965), versão de “I Should Have Known Better” (1965). O hit dos Beatles ganhava versos de contornos pedófilos, como “deixa essa boneca, faça-me o favor/ deixa isso tudo e vem brincar de amor/ (…) sua boneca vai quebrar/ mas viverá o nosso amor”. Seguiram-se “Feche os Olhos” (1965), versão de “All My Loving” (1963); “Eu Sei” (1965), de “I’ll Be Back” (1964); “Meu Primeiro Amor” (1965), de “You’re Going to Lose That Girl” (1965); “Sou Tão Feliz” (1965), de “Love Me Do” (1963); “Dona do Meu Coração” (1966), de “Run for Your Life” (1965); “Até o Fim” (1966), de “You Won’t See Me” (1965); “Escreva Logo” (1968), de “Please Mr. Postman” (1963), “Não Volto Mais” (1969), de “Paperback Writer” (1966)…

Outra versão que os Blue Caps colocaram nas paradas de sucesso foi “Escândalo” (1965), decalcado de pioneira versão reggae de “Shame and Scandal in the Family” por Shawn Elliott. Os versos são daqueles de durar para sempre: “Co/ nheci/ um capeta em forma de guri” (no original era “oh/ it’s me/ shame and scandal in the family”).

"Um Embalo com Renato e Seus Blue Caps" (1966)
“Um Embalo com Renato e Seus Blue Caps” (1966)

Os Blue Caps também cravaram sucessos originais, compostos em português. Os primeiros foram “Negro Gato” (1965), de Getúlio Côrtes (que explodiria em 1966 na voz de Roberto), e “Gatinha Manhosa” (1965), de Roberto e Erasmo (que faria mais sucesso no ano seguinte, na versão de Erasmo). “Primeira Lágrima”, do disco mais bem-sucedido da banda, Um Embalo com Renato e Seus Blue Caps (1966), era criação do cantor e guitarrista Renato, que desde o primeiro LP vinha se testando timidamente como compositor. Esse, no entanto, faria mais sucesso na voz de outros cantores, como Erasmo (“O Pica-Pau”, com Lilian Knapp, de 1966), Jerry Adriani (“Triste Amor”, de 1965, “Devo Tudo a Você”, de 1966), Leno & Lilian (“Devolva-Me”, com Lilian, de 1966, “Eu Não Sabia Que Você Existia”, de 1966) e Leno (“A Pobreza”, de 1967).

Roberto Carlos seria o responsável pelos maiores sucessos do Renato compositor, com “O Feio” (com Getúlio Côrtes), de 1965, e os clássicos de soul branco “Você Não Serve pra Mim”, de 1967, e “Não Há Dinheiro Que Pague”, de 1968. Então Roberto implodiu a jovem guarda (o movimento) e o Jovem Guarda (o programa) e foi buscar a manutenção e a ampliação do sucesso em território mais pop e popular que iê-iê-iê. Roberto ainda gravou, de Renato, a balada chorosa “Maior Que o Meu Amor” (1970) e o blues “Você Não Sabe o Que Vai Perder” (1971), mas muitos artistas ficaram à deriva a partir daí, inclusive Renato Barros e os Blue Caps.

O grupo continuou firme, lançando LPs anuais até 1977. Renato, no entanto, não fez a transição que Roberto inventou e outros (como Erasmo e Wanderléa) seguiram. Continuou cantando jovem guarda, quando o modismo já era passado, e não conseguiu mais chamar a atenção do mainstream musical brasileiro. Virou diretor artístico da CBS e produziu discos de Jerry Adriani, Leno e Lilian, Márcio Greyck e outros. A versão “Domingo Feliz” (1972) teve grande sucesso popular, mas mais na voz de Ângelo Máximo que com os Blue Caps. O grupo saiu da CBS em 1981, e a partir daí as gravações rarearam. Renato viveu, até o fim, sob o guarda-chuva da jovem guarda.

 

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