Painel em homenagem ao centenário de Jackson do Pandeiro no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza/CE. Criação coletiva dos artistas Douga, Mils, Pirata e Bulan, no Movimento Ação Hip Hop de Fortaleza. Foto: Gabriel Gonçalves

Farofafá conversou com exclusividade com a cantora Alexandra Nicolas, representante do Maranhão no Fórum Nacional Forró de Raiz. 2019 marca o centenário de Jackson do Pandeiro, o rei do ritmo

Mais de 250 forrozeiros e entusiastas do gênero nordestino lotaram as dependências do Centro Cultural Cais do Sertão e do Paço do Frevo, ambos no Recife (PE), onde aconteceu, entre 8 e 10 de maio, o Seminário Forró e Patrimônio Cultural, que deu início à pesquisa sobre as Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil, segundo informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Processo de registro; forró, dança e patrimônio; forró, mídias e acervos; compartilhamento de experiências na salvaguarda de bens culturais imateriais e as perspectivas para a salvaguarda estiveram entre os temas debatidos nas mesas da programação.

O forró está literalmente a alguns passos de figurar no Livro do Registro das Formas de Expressão, ao lado das Matrizes do Samba do Rio de Janeiro, do Tambor de Crioula do Maranhão, do Samba de Roda do Recôncavo Baiano e do Frevo.

A Associação Cultural Balaio do Nordeste encaminhou o pedido de registro do Forró como patrimônio ao Iphan em setembro de 2011. O período junino terá grande importância no trabalho de pesquisa: é quando mais se veem apresentações de forrozeiros nos arraiais espalhados pelo país.

A cantora Alexandra Nicolas é a coordenadora que representa o Maranhão no Fórum Nacional Forró de Raiz. Sobre o evento, o processo e o centenário de Jackson do Pandeiro (1919-1982), ela conversou com exclusividade com FAROFAFÁ.

A cantora durante apresentação na temporada junina, em São Luís (2018). Foto: Veruska Oliveira

Zema Ribeiro: Há quanto tempo está ocorrendo o debate sobre o forró se tornar patrimônio do Brasil e como você entrou na discussão?

Alexandra Nicolas: O pedido ocorreu em 2011 a partir da iniciativa da presidente da Associação Balaio Cultural do Nordeste, com sede em João Pessoa (PB), a senhora Joana Alves, que sempre defendeu a importância do registro. Foi a partir de um convite dela que eu entrei para o Fórum Nacional Forró Patrimônio, na ocasião de uma visita minha à associação Balaio Cultural. Depois que conversamos horas sobre o forró, ela usou a expressão: “você caiu do céu, menina, e por isso eu queria te fazer um convite. Você aceitaria representar o seu estado nessa causa?”. Eu fiquei estarrecida com o convite e ao mesmo tempo eu tinha certeza dentro de mim de um belo sim, por considerar a causa minha também. Mesmo assim não dei a resposta e voltei pra casa certa de que aceitaria, mas como tudo que faço participo à minha família, resolvi consultá-los. A força foi única e assim, a seguir, liguei pra dona Joana e aceitei o convite, e já em dezembro de 2018 lá estava eu no Fórum Nacional em Brasília representando o Maranhão.

Com Chambinho do Acordeom, que encarnou Luiz Gonzaga no cinema. Foto: acervo pessoal

ZR: Em que pé está a discussão sobre o forró como patrimônio? Qual o percurso e quais os próximos passos?

AN: O Iphan realizou o chamamento público e a Associação Respeita Januário foi aprovada e agora será a responsável em fazer a pesquisa das Matrizes do Forró até o ano de 2020. E para dar início ao processo oficial de instrução técnica, foi realizado recentemente o Seminário Forró Patrimônio Cultural, no Recife, onde estavam reunidos técnicos, artistas da música, da dança e representantes do Iphan de todo o país a fim de dialogarmos e trocarmos os saberes e o futuro dessa pesquisa, para podermos apontar o que realmente vamos priorizar. Vale ressaltar, antes de falarmos das próximas iniciativas, que a instrução do registro acabou de ser iniciada com o Seminário Forró e Patrimônio Imaterial e isso é o ponto de partida de um longo caminho que teremos pela frente. Durante três dias intensos de diálogos, onde o assunto principal foram as matrizes de fato, falamos das iniciativas de cada estado, de fazer um levantamento do território, das comunidades, características e demandas para que possamos traçar um plano de curto, médio e longo prazo. Falamos de abrir canais de comunicação com transparência para o coletivo e fornecermos como detentores o máximo de dados dessas iniciativas para o Iphan.

Com Anastácia, de quem gravou “O sucesso da Zefinha” e “Teu” (parceria com Zeca Baleiro) em “Feita na pimenta”. Foto: acervo pessoal

ZR: Este ano é o centenário de Jackson do Pandeiro, grande representante do gênero. É o momento oportuno para essa definição?

AN: O momento é oportuno sempre e acredito que já seja até tarde, porém sou positiva e prefiro usar a velha expressão: antes tarde do que nunca [risos]. Quanto a Jackson do Pandeiro, que considero parte da tríade das raízes do forró, é grandioso ter essa coincidência, 100 anos do rei do ritmo e o forró virando patrimônio cultural. Eu, como devota de Jackson do Pandeiro e tendo me aprofundado um pouco em sua vida, posso dizer que isso é a cara dele, astucioso e cheio de surpresas, com certeza ele ressurgiria num momento tão oportuno.

ZR: O que você diria a quem não compreende a importância do reconhecimento do forró como patrimônio? O que significa, de fato?

AN: Apenas uma formalidade para estabelecer melhorias e fortalecimento, e para que as nossas ações possam ser legitimadas pelo poder público e pela sociedade civil, por que o forró é e sempre será um dos berços da música brasileira e com toda certeza já é e sempre foi um patrimônio cultural do Brasil.

ZR: Haverá também um festival de forró. O que você pode adiantar?

AN: Será o primeiro Festival de Forró do Maranhão. Tenho interesse no levantamento de dados, na valorização e na troca de saberes dos forrozeiros de São Luís com os forrozeiros de todo o Brasil. Não será um festival de cunho competitivo; estão programadas oficinas, palestras e vivências. Faremos um grande show com a presença de grandes mestres e teremos uma banda base que receberá muitos nomes emblemáticos do forró.

ZR: Você também está desenvolvendo um projeto para celebrar o centenário de Jackson do Pandeiro junto a uma escola particular de São Luís. No que consiste?

AN: Jackson do Pandeiro, em sua abundância musical e rítmica, é de fato um ser capaz de ser ferramenta de estudo para os alunos de base do nosso país. Em se tratando de um menino pobre, negro e do mato, você poderia dizer que ele seria qualquer coisa, menos um rei e assim ele foi e será lembrado pelo resto da vida, como o rei do ritmo. E é a partir dessa premissa que fiz questão de inseri-lo nos estudos e na prática das aulas da Escola Crescimento, que abraçou a causa junto comigo. Pretendo, com esse projeto, oferecer aos alunos da escola, ou seja a base, que é onde eu realmente acredito que possamos mudar alguma coisa, a propriedade e domínio da cultura da qual provém, para que haja o real sentimento de pertencimento; estimular e promover o pensamento original nordestino, ou seja, a leitura da realidade a partir do olhar da nossa cultura; imunizar os alunos contra tentativas de discriminação da cultura nordestina; e, por fim, conferir aos alunos um diferencial competitivo cultural do qual possam realmente se apropriar e amar.

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Ouça “Feita na pimenta” no Spotify:

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