Primeiro, ela engavetou o sobrenome Espíndola e virou Alzira E. Atualmente, desdiz-se até mesmo como Alzira e prefere ser integrante qualquer da banda Corte, completada por três rapazes da big band afropaulistanabeat Bixiga 70 – Marcelo DworeckiDaniel Gralha Cuca Ferreira -, mais Fernando (ou Nandinho) Thomaz. A única mulher da banda é líder que não quer se dizer líder, nem sequer proclamar seu nome.

Parceira essencial de um dos mais geniais vocalizadores do NÃO na história da música brasileira, Itamar Assumpção (1949-2003), Alzira, integrada no Corte, elabora uma lista sofisticada de canções de NÃO no álbum de estreia do grupo, lançado no ano passado. O combo, unido, concedeu a seguinte entrevista (em texto e vídeo) na calada de uma noite de fevereiro, depois de um show em que a sul-matogrossense Alzira, aos 61 anos, esquartejou carne com navalha afiada no baixo, na voz e no baile do Corte.

Pedro Alexandre Sanches: Estamos aqui com Alzira Espíndola e o projeto Corte…

Alzira E: É Alzira E.

PAS: Alzira E, desculpe. Vou pedir primeiro para vocês se apresentarem, dizendo idade e onde nasceram. Sei que Alzira é sul-matogrossense, mas queria saber dos rapazes.

Daniel Gralha: Daniel Gralha, trompetista, nascido em São Paulo, mas crescido no ABC paulista. Não pareço, mas tenho 39 (risos).

Marcelo Dworecki: Parece 49. Eu sou Marcelo Dworecki (baixista e guitarrista), sou paulistano também e tenho 37.

Fernando Thomaz: Sou Fernando Thomaz, baterista, nasci aqui em São Paulo, dei rolê no estado, mas fui criado aqui mesmo. Tenho… 38. Última vez que chequei era 38 (risos).

Cuca Ferreira: Sou Cuca Ferreira (sax e flauta), sou de São Paulo também, tenho 47.

PAS: O Fernando é o único que não é do Bixiga 70, é isso?

Fernando: E a Alzira.

Alzira: E eu. Eu sou só da bexiga (risos). Sou da bexiga cheia.

PAS: Alzira, vou começar com você. Com quantos nãos se faz um sim?

(No vídeo, Itamar Assumpção canta “Vou Tirar Você do Dicionário”, dele com a poeta Alice Ruiz, também parceira de Alzira: “Eu vou tirar você de mim/ assim que descobrir com quantos nãos se faz um sim”.)

Alzira: Pô, meu (risos). Nesse show, pelo menos, são 11. Com 11 nãos se faz um sim, porque são 11 músicas que a gente toca no show, e todas elas falam não, né? Não a tudo isso que está rolando aí, não, não, não. Tem um monte de não aí embutido. Quando chega no fim do show, pelo menos tem um sim, ou seja, acabou o show (risos).

PAS: Apesar de sul-matogrossense, você vive aqui em São Paulo, que é uma cidade do não, e a música feita aqui tem essa característica muito recorrente, e acho que o trabalho de vocês também.

Alzira: Não, Pedro, e você sabe, eu sou do Mato Grosso do Sul, mas sou da parte não de lá. Eu tento manter essa dignidade de ser a parte do não sempre. Porque eu não convivo com certas coisas, eu não aceito e eu não crio em função de certas coisas. Então continuo sendo do não. E esses caras aqui são do não comigo.

PAS: Mas são assim mesmo, ou foi ela que levou vocês?

Alzira: Não, não, não. Eles são assim.

Marcelo: A gente se encontrou no não (risos).

Alzira: É, eles são. Olha este cara aqui (aponta para Daniel). Este cara aqui nasceu em São Paulo, mas ele é do ABC paulista. Ele sabe das coisas, porque as coisas lá são diferentes daqui.  Existe um não entre lá e cá. Aquele cara ali (aponta para Fernando) também é do não. Porque ele é tudo não, não, não, não, não, até inventou um negócio estranho que só ele inventou.

Fernando: É isso aí, também pra dar um pouco de vazão à loucura. Às vezes não tem ali, você dá um jeito de colocar: não.

Entre os dez rocks de "Corte" estão "Nada Disso", "Não Existe", "Não Me Invente" e "Desmonte"
Entre os dez rocks de “Corte” estão “Nada Disso”, “Não Existe”, “Não Me Invente” e “Desmonte”

PAS: Eu sinto, principalmente no show, que adorei, uma agressividade, não só nas palavras, mas também nos instrumentais. E aí o nome é Corte. De que corte vocês estão falando?

Fernando: Na pele.

Marcelo: Cara, acho que foi um som que ficou meio urgente de fazer. A gente toca com o Bixiga 70 e mais um monte de projeto. A gente é influenciado por muitas coisas diferentes, ouve muita coisa diferente, bem diferente de muitas das coisas com as quais a gente trabalha, com os tipos de som que a gente toca. O Corte foi meio a gente se juntar num canto no ensaio do Bixiga e falar: “Pô, você curte esse som também, nós também”. E eu, já fã da Alzira de outros trabalhos que faço com ela, e querendo fazer mais coisas com ela, chamei pra ela trazer o substrato desse aparato dissonante que a gente põe em cima da canção dela.

PAS: A palavra não é tão importante no Bixiga quanto é aqui.

Em 2011, o primeiro de três álbuns "Bixiga 70"
Em 2011, o primeiro de três álbuns “Bixiga 70”

Marcelo: É, mesmo porque é instrumental, né? Aqui é um show de canção.

Cuca: A gente também já vinha fazendo ou buscando esse tipo de som em outros projetos. Mas quando veio a possibilidade de jogar isso a serviço de canções, ficou uma coisa que nos surpreendeu. A gente faz muito isso em improvisações coletivas e livres, um ambiente já naturalmente propício pra maluquice sonora e experimentação. Mas o que fez a gente brilhar o olho foi a possibilidade de fazer isso a serviço da canção. Aí Alzira entrou com a canção, trouxe as composições e as parcerias.

Alzira: Não, e eram canções que não tinham lugar pra eu colocar. Não existia nenhum cenário favorável pra eu colocar essas canções.

PAS: Você já tinha elas?

Alzira: São canções com Tiganá Santana, de poesia de Tiganá Santana…

PAS: Que é um cara da Bahia.

Alzira: …De arrudA, que é poeta paulista, paulistano. Essas músicas não tinham lugar. Quando Dworecki quis fazer uma banda, coisa de quem não tem mais o que fazer (risos).

Marcelo: Uma coisa tranquila. Estava monótono.

Alzira: É, muito tranquilo. A gente pegou um ônibus, um metrô, com instrumento nas costas, foi pra casa do Nandinho. Parecia que a gente tinha 17 anos.

Marcelo: Desculpa fazer você passar por isso de novo.

Alzira: Não quero ser desrespeitoso, mas o que uma senhora como você está fazendo no meio dessa molecada?

Alzira: Então, eu não sei. Eu deliro, né? Eu tinha deixado de ser uma senhora, eu estava com 17 anos.

PAS: Hoje no show você estava.

Alzira: Eu descia a Brigadeiro com o baixo nas costas, Dworecki dizendo que era logo ali, mas era demorado o lugar (risos). Mas eu fui, né? Eu estava iludida com aquilo tudo, achando aquilo uma maravilha, começar uma banda!

PAS: Iludida é uma palavra forte. Os garotos iludiram ela?

Cuca: O Marcelo, né, cara? O Marcelo abduziu ela.

PAS: Abduzida é melhor.

Alzira: Porque nada, no normal, faria acontecer essa banda. Então isso tudo é uma contraproposta do normal.

Cuca: É um não.

PAS: Sim, é um não.

Cuca: Chegamos num não.

PAS: Inclusive nessa diferença geracional, que não é comum.

Marcelo: É que a gente já era parceiro.

PAS: É rock. Não que tudo isso seja estranho à Alzira.

Alzira: Não, mas quando a gente pega o mesmo ônibus passa a ser comum.

Marcelo: Não, mas também tem o lance de que eu e Alzira já estávamos trabalhando juntos em várias coisas.

PAS: O que exatamente?

Em "O Que Vim Fazer Aqui" (2014), quase todo o repertório leva a assinatura de Itamar Assumpção, em parcerias com Alzira e com Alice Ruiz; "Itamar É" é uma das faixas
Em “O Que Vim Fazer Aqui” (2014), quase todo o repertório leva a assinatura de Itamar Assumpção, em parcerias com Alzira e com Alice Ruiz; “Itamar É” é uma das faixas

Marcelo: O disco anterior da Alzira, O Que Vim Fazer Aqui, foi um disco que a gente meio fez junto. Foi quando conheci ela, “ah, quero fazer alguma coisa que seja homenagem ao AMME“.

Itamar Assumpção também dominava o repertório de "AMME" (1991), iniciais de Alzira Maria Miranda Espíndola
Itamar Assumpção também dominou o repertório de “AMME” (1991), iniciais de Alzira Maria Miranda Espíndola

PAS: Você era fã desse disco?

Marcelo: Sim, claro, de tudo.

Alzira: Não, são dois virginianos, horrível isso.

Marcelo: Maravilhoso.

PAS: Me explica, pelo que está dizendo é você que acaba fazendo essa reunião. O que tem em Alzira que te atrai?

Marcelo: Ah, o que atrai a todos. Densidade, consistência, trabalho artístico comprometido.

Alzira: Não, mas ele não me pediu alguma coisa que fosse muito diferente de tudo.

Marcelo: Mas eu sabia que você tinha o que eu queria que você me mostrasse. Eu vejo na sua canção inteira o que você traz no Corte. Na verdade, no Corte tem um elemento desse niilismo em relação à existência…

Alzira: Nãonão adianta, cara, eu acho que esse cara aí…

Marcelo: …Que na verdade é inerente à composição da Alzira, mesmo quando ela está falando de “o vermelho”…

Alzira: …Esse cara aí trouxe à tona um negócio foda. Alice Ruiz até comentou sobre isso, Ney Matogrosso também.

PAS: O que eles falaram?

Alzira: Ah, eles falaram que eu apareci com um trabalho surpreendente, que mexeu com as pessoas, que esta banda aqui deu uma coisa que surpreendeu. Faz hora que não acontecem essas coisas. Eu acredito muito nessas pessoas, com quem eu convivo mais, fora pegar o ônibus e ir pra Brigadeiro Luís Antônio (risos).

PAS: Ela está revoltada com esse ônibus. Ou ela adorou.

Marcelo: Agora a gente já vai de Uber, né, Alzira? Você que paga, mas a gente vai.

Alzira: Não, eu pago, mas pago com a grana da banda, não sou nem trouxa.

Marcelo: Mas é isso aí, o negócio tem um lastro.

PAS: Eu nem estava ligado que Marcelo está nos dois, mas são completamente diferentes O Que Vim Fazer Aqui Corte.

Marcelo: São completamente diferentes. E naquele disco não tem bateria, e neste é quase um motor.

Alzira: Inclusive aquele disco não tem bateria porque toda a poesia dele é do Itamar, e acho que as palavras do Itamar ali são tão percussivas que falei: ah, pra que bateria?, já tem essas palavras aí fazendo toda a batucada do negócio.

Marcelo: Por que a gente decidiu fazer sem bateria?

Alzira: Então, e você concordou, falou “ah, é, não precisa”.

Cuca: O cara já pensou no que ia dar menos trabalho.

Marcelo: Acho que a maioria dos trabalhos que produzi foi sem bateria.

PAS: Perguntei pra Marcelo por que Alzira. E por que eles, Alzira? Bixiga 70 é o que pra você?

Alzira: Nossa, eu já tinha delirado com eles.

Marcelo: Não, mas  antes acho que vale um aparte, Alzira. O que a gente traz aqui não vem de lá. A gente é orgulhosíssimo do trabalho do Bixiga 70 e da nossa participação neles, fizemos coisas incríveis com o Bixiga 70, mas… É uma relação comum que fazem, de tratar a banda como “a galera do Bixiga 70”, mas acho que não cabe tanto, porque a gente está andando por um outro caminho. A gente não nega o Bixiga 70, que é do nosso currículo com certeza, mas…

Fernando: A primeira vez que eu me lembro que tive a maior vontade de tocar com a Alzira foi na participação dela na Strombólica.

Alzira: Né? Foi na Strombólica!

"Bichos do Mundo" (2010), primeiro álbum da Strombólica, com Marcelo Dworecki, Lia Martins, Nandinho Thomaz e Daniel Xingu
“Bichos do Mundo” (2010), primeiro álbum da Strombólica, de Marcelo Dworecki, Lia Martins, Nandinho Thomaz e Daniel Xingu

Fernando: Falei “Marcelo, caramba, chama ela, vamos fazer um trampo”. Passaram anos e anos, ou não, mas agora vai.

Alzira: Não, é tudo muito perto, uma coisa da outra, é tipo uma amálgama. E assim, comecei a assistir Bixiga 70 e comecei a me apaixonar por esse grupo. Porque eu ia ia lá e ficava dançando.

PAS: Tem um Itamar Assumpção ali.

Cuca: Nunca falaram isso pra gente (ri)…

Alzira: Tem um som que faz você dançar. É uma energia muito forte. Eu achei isso muito bonito, que é uma coisa necessária pra este nosso Brasil, necessária, porque é uma banda gigante, é uma big band.

PAS: Jovem, moderna, contemporânea, né?

Alzira: Exato. Onde tinha outra? Não tinha outra, cara, sinto muito. Bixiga 70 entrou pra fazer esse lugar necessário e estimulador. Isso vai estimular outras bandas, outros grupos instrumentais, e isso é muito bom, porque é a nossa riqueza. Eu desde sempre gostei de Bixiga 70, desde que conheci eles eu me apaixonei. Mas eu já tinha uma relação direta com o Dworecki, e quando ele botou o Nandinho, com quem eu já tinha participado da Strombólica,  e falou “vou chamar os dois caras”… O Gralha, pelo amor de Deus.

PAS: Está quietinho ele.

Alzira: Esse aqui era criança (beija o rosto de Daniel) quando eu apaixonei por ele. Era tipo pedofilia, não dava. E o Cuca eu conheci na Trupe Chá de Boldo.

Marcelo: E a gente fez Os Saltimbancos, né?

Cuca: Ah, é, cara! Você fez uma parada com o Bixiga!

Alzira: Eu era a galinha, lógico.

PAS: Por que lógico?

Alzira: Lógico, eu era a galinha aposentada. Eu ia pra panela, mas não fui.

PAS: Quem era a gata?

Cuca: Era Anelis Assumpção. O cachorro era o Maurício Pereira e o jumento era o Skowa. Um puta time.

Alzira: Era tudo perfeito. E aí toquei com o Bixiga todinho.

PAS: Eu amei no show as projeções. Têm momentos que remetem pro Bixiga e outros pra Mato Grosso, água, Pantanal.

Alzira: Nãonãonão remete. É demais. É Marina Tomé. Ela é uma cineasta jovem, já muito premiada, teve uns curtas aí. E ela está fazendo um documentário meu, viu, Pedro?, eu até vou falar pra ela te procurar, pra ela procurar alguma coisa mais antiga contigo. Marina Tomé é foda, é uma mina muito legal na imagem, cineasta mesmo. Aquelas imagens da Índia ela pegou tudo pessoalmente.

PAS: Aquilo é bem Bixiga.

Cuca: Ela comprou mesmo, curtiu o som, se envolveu.

PAS: Que paralelos poderíamos fazer entre Lírio Selvagem e Corte, se é que podemos fazer algum?

Alzira era a caçula do psicodélico "Tetê e o Lírio Selvagem" (1978), com os irmãos Tetê, Geraldo e Celito Espíndola
Alzira era a caçula do psicodélico “Tetê e o Lírio Selvagem” (1978), com os irmãos Tetê, Celito e Geraldo Espíndola

Alzira: Acho que não podemos fazer. Não, porque… Podemos fazer, talvez, num aprendizado muito importante que tive com o Lírio Selvagem, de ser um grupo. Como um grupo o Lírio Selvagem tem todo o meu respeito, porque foi ali que aprendi a ser grupo, em 1977. Aprendi como é você fazer um som que não depende só de você. E agora estou até compondo assim, viu? Não componho mais uma música inteira, componho já pensando em vocês tudo.

Daniel: Uma delícia isso.

Alzira: Não está dando, já tem três músicas assim. Não rola mais.

PAS: Vai ter mais disco do Corte então?

Marcelo: Vai, claro. Em breve.

Alzira: Não sei o que acontece…

PAS: Mas então, o Lírio foi um grupo e este está sendo outro. Teve outros no meio do caminho? Não?

Alzira: Não.

PAS: É uma coisa histórica, um ciclo completo.

Alzira: Mas eu me sinto muito mais assim… Eu entrei neste grupo porque eu quis. No Lírio Selvagem não, no Lírio Selvagem eu era obrigada a estar (risos).

PAS: Você era criança, né?

Alzira: É, porque já nasceu em casa, aquele negócio todo, eu era a mais nova…

PAS: Era mais da Tetê Espíndola aquele grupo…

Alzira: …Então eu era obrigada a estar lá. Não é a mesma coisa.

PAS: Então hoje você é a… não sei se posso dizer a líder…

Marcelo: Mas claro.

Alzira: Ah, eu não me sinto líder de nada, porque eu acho também que isso tudo está falido.

PAS: Sim, é um clichê achar que quem canta é o líder.

Alzira: É um clichê, não tem nada a ver esse negócio de “fazer seu nome”. Pra quê? Fazer seu nome pra onde? Pra nenhum lugar.

Daniel: Mas o líder é o texto. O texto é o líder.

Marcelo: É claro.

Cuca: Total.

Daniel: Aí é o norte do negócio.

Alzira: Tem o que se diz, o que se faz e o que se toca. É isso que é.

PAS: O Lírio é uma referência pra vocês? Pra você, Marcelo?

Marcelo: Ah, não só o Lírio, a família Espíndola inteira.

Alzira: E o Almir.

Marcelo: É, o Almir Sater, sou muito fã, demais.

Alzira: O Dworecki toca uns puta violão.

Marcelo: Pô, a gente foi na casa do Almir em Campo Grande, foi um momento luminoso.

Alzira: A gente ficou debaixo de um pé de qualquer coisa.

Marcelo: Foi mágico.

PAS: Foi ela que levou?

Marcelo: É, a gente foi tocar lá e depois acabou a noite na casa dele, com o violão debaixo da jabuticabeira.

Alzira: Não, e ele ouviu o nosso som, falou “nossa, muito legal esse som aí, cheio de cordas”. Foi o AMME que a gente foi fazer lá.

Marcelo: Mas tem isso, você conhece um da família da Alzira e já conhece todo mundo. Já sou amigo de todas filhas, de vários irmãos.

Alzira: Isso porque meus irmãos estão lá no Mato Grosso.

Marcelo: Você se sente em casa, claro que é uma influência gigante.

PAS: Estive lá no Festival de Bonito, com Alzira e Tetê no palco, e desde então não paro de pensar nisso, que maluquice, que vínculo louco é esse com São Paulo, que é o contrário do Mato Grosso do Sul em alguns sentidos, mas vocês duas são as duas coisas. E aí você vem fazer com esses caras esse som altamente urbano.

Alzira: É, porque eu me joguei aqui em São Paulo, tive meus cinco filhos aqui, paulistas.

Marcelo: Mas Itamar também é, o cara te trouxe o negócio de Londrina (PR). Na verdade São Paulo, que a gente está falando do não, do não e do não, é muito uma cidade do sim nesse sentido. E outra, essa música paulistana tão genial, porra, é um pouco londrinense, um pouco mato-grossense, agora muito cearense, baiana e paraense… É demais.

Daniel: É o Brasil desaguando neste lugar.

PAS: É um pouco como se não houvesse uma música paulista. Mas vocês são todos paulistas, fora ela.

Marcelo: É tudo misturado.

Alzira: Os caras são paulistas, é isso que é foda. São Paulo tem essa coisa, e um know-how dos músicos, você vê esses monstros aqui.

PAS: Eles são a vanguarda paulista viva, da qual você sempre fez parte?

Alzira: Gente, não, vamos falar a verdade, nós somos trabalhadores, a gente batalha pra caralho, mas os dois caras (aponta para Cuca e Fernando) são monstros, nos engolem.

Marcelo: A gente rala.

Alzira: Foda-se, a gente tem que ralar, se não vai ser engolido.

Marcelo: Por isso que a gente chamou eles, né, Alzira?

Alzira: É, a gente está com eles, né, bicho?

Marcelo: Pra dar um lustre no negócio.

Alzira: Pra dar um lustre. Nós três somos bem bonitinhos, mas…

PAS: Mas, escuta, você está bem à vontade no meio deles…

Cuca: Está cada vez mais, principalmente no baixo.

PAS: A voz… Está com uma voz de bruxa…

Cuca: A voz a gente já sabia, mas o baixo…

Alzira: E agora eu descobri que eu sou uma sul-matogrossense e eu sou uma vaca. Porque eu tenho uma pata…

PAS: Malhada?

Alzira: Não, eu tenho uma pata pra tocar o baixo. Se eu não fosse uma vaca e não tocasse com uma pata eu não podia tocar com eles.

Marcelo: É, a patada está o máximo, cara.

Alzira: Então eu sou tipo sul-matogrossense, a vaca com uma pata.

Marcelo: Pra “carcar” o casco.

Alzira: “Carca” o casco na porra do negócio.

PAS: Só pra esclarecer, é a pata da vaca, não a pata da Fiesp (risos)?

Alzira: É a pata da vaca. Tem que ter pata pra pastar aquele Mato Grosso do Sul.

PAS: Numa passagem do show você sublinhou “armando para que aconteça o desmonte”. O que é isso?

Alzira: É. Não, tudo que é armado com certeza acontecerá o desmonte. Você não acha?

PAS: Sim. Mas essa frase é sua?

Alzira: É.

PAS: Não é de uma letra?

Marcelo: Veio hoje, né?

PAS: Inventou hoje? É muito boa.

Alzira: É de hoje, no momento.

Fernando: Aconteceu ali.

Daniel: Ela falou exatamente depois de a gente tocar o “Desmonte”.

Marcelo: Tem uma música chamada “Desmonte”.

Alzira: Aconteceu essa frase aí, porque nós estamos vivendo isso, gente, pelo amor de Deus.

Fernando: “Dízima” vinha depois, ela falou antes de começar “Dízima”.

Daniel: Eu senti que você falou pro agora, pro momento que a gente está vivendo.

PAS: Desmonte é tudo que a gente vê hoje em dia.

Marcelo: É, exatamente.

Alzira: O desmonte é um negócio que infalivelmente vai acontecer.

Marcelo: Até por isso a gente trata com uma efemeridade saudável os lançamentos e a produção artística. Pelo menos aqui sinto muito isso, Cuca tem o disco que fez com o trio dele, o Atønito, quase junto com o Corte. Nandinho sempre está envolvido em mil coisas, inventou esse instrumento. Essa urgência que falei no começo que gerou o Corte é a mesma urgência de “vamos produzir, mesmo porque, já que vai desmontar toda essa porra, vamos fazendo o nosso do jeito que dá, que seja verdadeiro”. Essa efervescência do momento atual tem muito a ver com isso também. Vamos tocar, vamos gravar, preciosismos depois a gente vê. Pelo menos aqui eu almejo que a gente chegue numa frequência produtiva que tenha isso como norte. O Corte mesmo nasceu já numa temporada, a gente fez poucos ensaios e já marcou uma temporada, toda segunda tocava com a galera, errava, fomos entendendo o som junto.

Alzira: É, a gente foi entendendo o negócio mesmo ao vivo.

Fernando: Tem gente que a gente vê desde o primeiro show.

 

Alzira: Não, e o “Cheguei”, né? Lembra que tinha o negócio das flores?, eu tinha que fazer uma doação. Quando Tiganá me mandou essa letra, “cheguei/ e a chegada nem é lugar”, ele tinha acabado de chegar de três meses na África, me mandou um e-mail, e o e-mail virou uma música, essa música (cantarola), “cheguei/ e a chegada nem é lugar”. E aí eu achava que tinha que doar umas coisas pras pessoas, porque tinha chegado com aquela letra do Tiganá da África. Você dá pra entender a loucura do negócio?

PAS: Onde foi inventado o Afrobeat de que a outra banda dos caras gosta.

Alzira: Não sei, e eram os caras do Bixiga 70, e tudo tinha a ver, e eu tinha que entrar dando uns negócios. Dei santinho, seda…

Cuca: Bala uma vez.

Alzira: Dei bala…

Cuca: Mas o geral eram flores, né?

Alzira: E dei flores. Eu dei tudo que eu podia dar.

PAS: Essa é a música da vaia, que você foi dançar com um cara da plateia?

Alzira: É essa.

PAS: Isso acontece sempre?

Alzira: Não, eu sei lá o que acontece ali.

PAS: É um bailão mesmo.

Alzira: É isso, o cara chega da África, me manda um e-mail, eu faço uma música e imagino que tenho que dar as coisas às pessoas. É uma maneira de chegar, só que você não chega em lugar nenhum.

Fernando: O curso mudou. Ela era a primeira do show.

Cuca: E agora é quase a última. Na hora de fazer o disco a gente revisou a ordem.

Daniel: A gente descobriu o som no disco. A gente descobriu o que é o Corte gravando o disco.

Alzira: É verdade. E cada vez a gente descobre mais.

PAS: Como ouvinte (do disco) eu descobri muito mais no show.

Alzira: O show é muito mais forte, eu acho.

Fernando: Mas o CD ficou demais.

Alzira: O CD está muito bom, mas o CD é meio ao vivo…

Daniel: Esse som nasceu ao vivo, nasceu fazendo já temporada com a galera, ensaio aberto praticamente. É um som urgente, do agora, do ao vivo. Mas foi ao gravar que as coisas ficaram nos seus lugares, ficou mais claro pra gente o que era o que, pra onde ir.

Alzira: Não, e acho que isso é regra geral, né? Porque quando você grava você escuta. A gente é criador, precisa gravar pra escutar. Porque senão a gente fica criando, criando, criando, o caralho a quatro, não grava nunca, não recorda de nada. Tem que gravar e ouvir, “ah, eu criei isso aí, ah, tá”, então agora a gente vai imitar aquilo lá. É muito bom, cara, porque é uma energia. Na hora que você imita um negócio, não é essas coisas fajutas de Rede Globo que imita negócio. Não, você se entrega pra aquilo, e sabe que aquilo vai tomar direção, então você vai.

Fernando: Já passou por aquele trecho.

Alzira: É maravilhoso, porque é um som do agora, mesmo que, ah, você teve que gravar pra entender que era aquilo…, só que quando vai aplicar o negócio ele é agora.

Fernando: E o que é o som? Que som é?, pra entender, se posicionar nisso. Eu toco rock e também me solto ali no sentimento, porque tem hora que os gritos, as coisas te levam. Quando estou vendo digo “meu, esta baqueta vai quebrar, com certeza”. Hoje não quebrou.

Alzira: A minha unha também não quebrou.

PAS: Um pouco sobre a música das religiões, esqueci o nome…

Cuca: “Em Nome de Quem”.

Alzira: “Em Nome de Quem” é parceria com arrudA.

PAS: Sempre os parceiros fazem a letra e você a melodia?

Alzira: Não… É, é, os caras fazem as letras e eu milagrosamente faço as melodias. Eu não sei, não mudo nenhuma vírgula das letras deles, e me orgulho disso, porque se o cara escreve aquilo eu tenho que cantar aquilo. Acho muito bonito que isso aconteça, e só faço quando acontece, porque não tem outro jeito de fazer. Ou acontece ou não. E ele escreveu esse negócio há muito tempo, acho que foi em 2010, ó que lindo esse número. Ele escreveu essa coisa e ficou com muito medo, falava: “Alzira, tenho medo dessa poesia. Não sei, estou falando em nome da religião, hoje em dia…”

Cuca: Isso é perigoso.

Alzira: “…Isso pode ser perigoso. Ah, fala que essa letra é anônima (risos)”. Falei, tudo bem, vou falar que a musica é minha e a letra é anônima.

PAS: Ela é um não também, ou nãoNão é um não?

Alzira: Não, mas aí ela vem com a pergunta crucial, de hoje, de um momento superagora. O cara fez faz tempo. Era uma loucura na cabeça dele quando ele fez, porque não tinha nenhum sentido. Hoje ela faz todo sentido.

PAS: Pode fazer a pergunta de novo pra quem está ouvindo?

Alzira: “Em nome de quem você vai se perdoar?” Isso é poeta, né? Poeta faz essas coisas com a cabeça da gente, com a música, com tudo. Ele fez essa poesia há muito tempo, e acho que “em nome de quem você vai se perdoar?” é uma frase muito forte hoje. Faça o seu exame de consciência. Porque é isso, em nome de quem?

PAS: De qual divindade?

Alzira: Né?

PAS: Itamar é o cara da vanguarda paulista que morreu. São Itamar Assumpção está sobrevoando tudo isto (silêncio)? Sem querer citar um santo católico, mas já citei (risos).

Alzira: Não, mas você já esteve em um lugar parecido comigo e com Itamar, não é verdade? Num ensaio, num estúdio de ensaio. Acho que você continua sentindo isso forte.

PAS: Sou paranaense, acho que vocês não sabem. Itamar é deus, não é santo.

Alzira: É. Mas tipo assim, cara, eu acho que Itamar mesmo disse: “O que é, o que é?/ AMME”, não é? Depois eu me tornei Alzira E.

PAS: Alzira Maria Miranda Espíndola.

Alzira: É. Eu sinto isso. Sinto que o negócio da minha geração e do Itamar, que nem é a mesma, mas é perto, é isso. O cara sempre fez questão de estar agora, de incomodar, de dizer não claramente.

PAS: Você também?

Alzira: Eu acho que estou na mesma onda, né, cara? E os caras aqui também. É tipo uma evolução de um negócio que é dizer não a várias coisas. Tipo assim, não me interessa mais ser Alzira E, eu quero ser Corte. Eu não vejo mais motivo nenhum pra batalhar esse patamar. Isso aí não existe mais, acabou. E se Itamar estivesse aqui ele também iria ver isso, que ele não era bobo nem nada.

PAS: Alguém que já fez um disco so de Maysa pode dizer se ainda é difícil pra uma mulher ser compositora e se fazer ouvir.

Em "Ninguém Pode Calar" (2000), AMME canta composições de Maysa (1936-1977), como "Meu Mundo Caiu", "Resposta" e "Ouça"
Em “Ninguém Pode Calar” (2000), AMME canta composições de Maysa (1936-1977), como “Meu Mundo Caiu”, “Resposta” e “Ouça”

Alzira: Ah, é difícil, cara. É difícil pros que vêm aí. Porque pra mim, cara, não é mais nada difícil. Já estou fazendo, já tenho fórmula, não estou nem aí. Foda-se se é difícil, pra mim é fácil (risos).

PAS: E pros caras ter uma líder, uma senhora líder?

Fernando: Apaixonado, é um puta aprendizado a cada momento, em várias situações.

Daniel: É o seguinte, cara, ela tem mais idade que a gente, mas é o frescor, o frescor…

Marcelo: Estava pegando ônibus lá comigo porque estava a fim de fazer sonzêra, sangue nos olhos, querendo tocar o bagulho, rock’n’roll. É o que a gente faz. Quanto mais legal for, melhor. Porque o negócio de ganhar dinheiro não é o forte, né?, do músico. Então não tenho nada a perder, vamos embora.

PAS: Dizem que os paulistas sabem, mas estamos todos nós aqui (todos falam juntos)…

Cuca: Não sabe porra nenhuma.

Marcelo: A gente sabe, a gente é sobrevivente aqui nesta porra.

Alzira: É, cada um tem sua fórmula de sobreviver.

Marcelo: Tem um jeito de viver bem de música, por isso que Alzira está nessa, ela não é besta.

Alzira: E depois tem o seguinte, dizem que sou aposentada, mas…

PAS: Quem diz? Por que você está falando isso?

Marcelo: Nunca ouvi falar isso.

Cuca: Que passo é esse?

PAS: Você conseguiu se aposentar? Não existe mais isso…

Cuca: Não existe mais, acabou esse negócio.

Alzira: Claro que consegui. Minha filha, que é uma funcionária do INSS, me aposentou. E eu hoje, como aposentada, vejo o quão difícil é pra uma pessoa aposentada. Graças a Deus eu não me aposentei ainda.

PAS: Longe disso, eu diria. Estava até se jogando no chão no palco.

Alzira: É, mas isso não existe, entendeu? Porque isso é tipo assumir que a pessoa não tem mais objetivo na vida, e aí você aposenta ela. Isso está tudo errado, como todo o resto no governo, na política governamental. Tudo isso está errado. As coisas deviam ter outro parâmetro. As coisas estão antigas, ultrapassadas. Então eu, atualmente, sou uma mulher que luta para o… Você é recriminado porque você é aposentado. Você é senil, não está sabendo das coisas, você não lembra sua senha (risos).

PAS: Como se os jovens lembrassem…

Alzira: Você é uma pessoa aposentada, que está com os cabelos todos brancos. Cara, é muito foda, bicho. Eu fizz 60 anos e passei a ter essa posição perante a sociedade.

PAS: Mas que louco que você está incomodada com isso no mesmo momento em que está nesta banda.

Alzira: É, mas eu sempre fui incomodada. Eu sempre incomodei a sociedade. Porque eu fui mãe muito cedo, fui descasada muito cedo, fui mãe solteira. Eu estou acostumada com isso. Só que porra, meu, eu vejo as pessoas ao meu redor e vejo o tanto que elas sofrem. Então eu tenho que fazer alguma coisa, já que estou numa posição que consigo ver certas coisas.

A estreia solo aconteceu aos 26 anos, com o compacto duplo "Terra Boa" (1983), com tema-título de Almir Sater e "Nossa Senhora do Pantanal"
A estreia solo aconteceu aos 26 anos, com o compacto duplo “Terra Boa” (1983), com tema-título de Almir Sater e “Nossa Senhora do Pantanal”

PAS: Acho que nunca vi um artista falando isso que você está falando sobre a idade da aposentadoria.

Alzira: Então.

PAS: E tem dezenas de artistas trabalhando aos 70, aos 80, alguns aos 90.

Alzira: E quanto eles estão sendo recriminados?

PAS: Eles estão, com certeza, embora não falem isso?

Fernando: Esquecidos também. Muito esquecidos.

Alzira: Não sei, cara, tudo depende do próprio ser. Só que a sociedade é muito maligna. Se eu chego como uma pessoa comum, e eu tenho 60 anos… Vai pra fila da aposentadoria, vai pro caralho a quatro.

Marcelo: O trabalho é um negócio que à parte, né? É uma atividade que a pessoa dedica a vida inteira, mas não exatamente tem envolvimento com aquilo. Então quando dá a idade diz, “ufa, graças a Deus, tocou o sinal, vou me aposentar e nunca mais quero fazer isso”. Por isso que o artista tem esse privilégio, o artista tem o privilégio de levar com ele e viver do que é a vocação e a paixão do cara. Esse é o grande lance do artista.

Cuca: Até porque se a gente não tivesse isso não faria, porque economicamente é uma cagada completa. Só faz sentido fazer se você realmente tem um envolvimento pra além do racional.

PAS: Mas os artistas da música souberam contornar isso. Essa imagem de que o rock é uma coisa de jovem, acho que hoje em dia não tem mais isso.

Cuca: Não, né? Eu tenho essa viagem às vezes, de como a cronologia perdeu um pouco o sentido na música. Não só na questão da idade dos artistas, mas por conta da revolução digital, que começou na música antes das outras artes, de do nada você começar a ter acesso a sons feitos há 50, 60 anos, e que ninguém conseguia ouvir. Nos anos 80, quem conhecia e tinha acesso a música africana? Só o Gilberto Gil tinha os discos dos caras. Hoje dia pro moleque está tudo lá, graças a Deus. Isso é muito revolucionário no jeito de fazer música. Um dos derivados, dos efeitos colaterais disso, é que a cronologia perdeu muito o sentido. Por isso a gente ouve tanta coisa que soa como feita lá atrás e está sendo feita agora. Tudo foi relançado e redisponibilizado pra todo mundo. Talvez a idade também faça parte desse mesmo raciocínio, no sentido que as pessoas não querem se aposentar do som porque amam aquilo. Paciência se o cara tem 90 anos, vai continuar fazendo porque a vida do cara é aquilo. A gente mesmo toca com pessoas com bem mais idade que a Alzira, toca com Elza Soares, com João Donato, e são exemplos que pra gente são muito lindos. O cara não está pensando que tem 90 ou 80 anos, ele está fazendo, o que ele quer é viver.

Alzira: E depois é o seguinte, a idade que você tem não é nada, porque você é o que você é desde que nasceu, na verdade.

Marcelo: Às vezes a gente tenta fugir, mas um dia embarca forte.

PAS: Dizendo em outras palavras o que Cuca disse, se não fosse a mudança que acontece, à indústria fonográfica jamais teria interessado que todo mundo conhecesse por exemplo o afrobeat, que hoje é uma referência pra vocês.

Cuca: É, como mil outras coisas, mesmo coisas brasileiras. Por exemplo, pra falar um pouco de quem influenciou o Bixiga, o Pedro Santos Os Tincoãs, até pouco tempo atrás eram coisa de pesquisador. De repente começou a ficar acessível pra todo mundo, todo mundo começou a sacar. Então, sim, a indústria fonográfica tinha todo interesse em ter uma coisa só. É muito mais fácil, é muito melhor vender milhões de uma coisa só do que vender mil de um monte de coisa diferente. Dá muito mais trabalho e é mais custoso. Essa discussão é interminável, ninguém sabe direito como a coisa está assentando. Mesmo o streaming, que parecia que ia dar uma estabilidade, já está meio zoado, porque as empresas não estão fazendo dinheiro. Mas acho que um efeito positivo de a indústria da música ter se esfarelado como se esfarelou é esse. Influenciou muito o jeito de as pessoas fazerem música. Em São Paulo, por mais que as coisas que estão sendo feitas tenham uma conexão absurda com a turma dos anos 80, do Lira Paulistana, principalmente pela questão da independência, mais até que sonora, são coisas que… A gente é muito sortudo de viver e fazer música neste momento, porque é muita coisa boa sendo feita por muita gente, numa quantidade que nunca foi feita. E acho que tem muito a ver com o que aconteceu com a indústria.

PAS: Você citou Pedro Santos e Tincoãs, mas vale pros sons mato-grossenses.

Cuca: Completamente.

PAS: Alzira tem uma relação de vai-e-volta, às vezes não parece mato-grossense e às vezes parece completamente. Mas também é um tipo de sonoridade que poderia estar perdido só lá no Mato Grosso.

Cuca: Total, mesmo o Itamar.

Marcelo: É paralelo, né? É uma coisa só, né?

Alzira: Dworecki saca isso também.

Em "Anahí", Alzira e Tetê Espíndola compilam o cancioneiro fronteiriço e pantaneiro que a mãe lhes cantava em casa; vem aí um volume 2 de "Anahí", em trio com Ney Matogrosso
Em “Anahí”, Alzira e Tetê Espíndola compilam o cancioneiro fronteiriço e pantaneiro que a mãe lhes cantava em casa; vem aí um volume 2 de “Anahí”, em trio com Ney Matogrosso

Marcelo: Não diferencia uma coisa da outra, uma composição que a Alzira canta no Anahí (1998) com a Tetê tem o mesmo sangue nos olhos que tem a composição do Corte. Pra mim artista pra mim é integral, não tem uma faceta pra cá e outra pra lá, é a mesma pessoa que consegue deflorar universos diversos sendo a mesma. Por isso a gente é do Bixiga e bota o povo pra dançar no bailão e faz esse show escurão do Corte sendo o mesmo artista. Realmente, a tal da cena atual, que nem dá pra chamar de paulistana mais, porque cada dia chega um…

Cuca: Agora, de Salvador, chegaram uns 20, de repente, cada um melhor que o outro. Aquela Josyara também, uma galera foda.

PAS: Se falar da Alzira, juntar Anahí com Corte, forma uma bola completa, o mundo, duas coisas aparentemente opostas.

Alzira: Vixe. Sim.

Marcelo: A Tetê pulava no Puxadinho com a gente nos shows do Corte, na segunda-feira, à 1h da manhã.

 

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