Para 2016, a prefeitura paulistana programou três dias de celebração pelo aniversário da cidade. No miolo, um domingão de pancadas de chuva aninhado entre um sábado quente e uma segunda-feira feriadona, o trio elétrico da cantora e compositora baiana Daniela Mercury precipita o carnaval que tradicionalmente só começaria em fevereiro, ou nem sequer começaria, em se tratando de (não existe amor em) SP.

Daniela Mercury
Daniela Mercury fecha a avenida Rebouças para os carros e a abre para pedestres, ciclistas, skatistas etc — foto divulgação Prefeitura de São Paulo

A demanda reprimida (como diriam os mercadistas) arrasta uma infinidade de gente às avenidas Brigadeiro Faria Lima, Rebouças, Brasil, Henrique Schaumann, Paulista, Consolação. Daniela chorou diversas vezes ao longo do trajeto que durou cerca de sete horas  – e ainda chora dias depois, ao telefone, ao relembrar a experiência: “Era um sonho meu de muitos anos, e foi melhor que meus melhores sonhos. Abrir um circuito na Rebouças de uma maneira tão mágica, tão doce, é completamente particular. Foi como a primeira vez que desci pra Barra, em Salvador”.

Com 5o anos de idade e 35 de música profissional, Daniela desfia emoções que se renovam: “Não só em São Paulo, mas em qualquer grande cidade, as pessoas trabalham muito, são muito tensas, estressadas. Os shows na rua e o carnaval são fantásticos para reunir as tribos todas da cidade, que ficam o ano todo separadas. Foi o que aconteceu quando eu subi a Rebouças. Um dos presentes mais lindos que recebi na vida foi a emoção de ver tanta gente em paz, dançando, se aproximando”.

Da experiência, Daniela parte para a filosofia: “As pessoas vivem de janelas fechadas em São Paulo. Essas festas são muito importantes para as pessoas se verem, saberem quem mora naquele lugar, conviverem. O carnaval dá lições espetaculares de convivência. Quisera a vida no cotidiano tivesse a mesma harmonia e as mesmas afirmações de identidade que o carnaval tem, da negritude, dos pacifistas, da diversidade sexual, da liberdade de se vestir como quiser e ser quem quiser. Ninguém se sente mal ali. Por que durante o ano a gente hierarquiza tanto as emoções, se separa tanto?”.

A cantora que nos anos 1990 se ergueu como um ícone comercial/industrial da axé music hoje brinca com um alter ego artístico de “rainha má”. “Digo que sou a rainha má porque sou mulher de andar de trio, não sou uma mulher que espero o trio passar por cima nem me coloco no lugar em que a sociedade me botou, desde menina: eu ocupo meu lugar.” O discurso atual finca bandeiras politizadas sobre a cidade velha e sobre o gênero musical já antigo, quase tradicional. Uma militante?

“Eu sempre fui, eu sempre fui”, ri. “Fui criada com ‘vem, vamos embora que esperar não é saber’, com ‘é proibido proibir’. Fui criada num país sorumbático, coberto, escuro, triste, que viveu sem respirar a luz da liberdade’, reflete, referindo-se à ditadura civil-militar que ruiu em meados dos anos 1980.

“É lógico que isso se reflete, a gente vai ficando coberta por outras coisas, pela grana que ergue e destrói coisas belas. O povo brasileiro fala muito mal de si. Se os brasileiros não gostam se ser indígenas, portugueses, africanos, quem são os brasileiros então? Por que vocês não gostam de ser vocês?”, indaga, ecoando artifícios cênicos da “rainha má” e perguntas que paulistas e paulistan@s nem sempre se fazem.

Vivendo uma relação amorosa fora de armários quaisquer com a jornalista baiana Malu Verçosa, Daniela ganha o afeto particular da população que conclama as diversidades sexuais e apura a reflexão sobre as questões identitárias, análogas àquelas que perpassam a cidade de São Paulo, o carnaval e a existência de qualquer ser humano: “O carnaval é tão profundo, é profundo de todas as maneiras. O carnaval nunca foi pão e circo, isso é outra coisa. O carnaval é uma coisa nascida de nós. Não foi ninguém que nos deu, foi a gente que fez”.

Falando de identidade, Daniela parece falar sobre a cidade que o rapper do Grajaú Criolo dizia carente de amor: “O mais legal do carnaval são as traduções de nós mesmos, as expressões. Cada bloquinho que vem é um grupo de pessoas falando de si, falando o que pensa. Isso é fantástico. Tentam arrumar e organizar o carnaval, mas o inconsciente humano não é organizável. Graças a Deus, ou melhor, graças a nós, a gente é o que é, e ninguém tem como conter isso. É transparência. Fazer carnaval na rua é enxergar a cidade mais que qualquer pesquisa que se faça”.

A festa e o ativismo se encontram e se entrelaçam no discurso cidadão da cantora de “Swing da Cor” (1991), “O Canto da Cidade” (1992) e “Música de Rua” (1994): “A gente não precisa ir pras ruas falar o que a gente quer só com cartazes e palavras de ordem. A gente pode falar o que a gente quer com músicas. O carnaval tem o mesmo peso das manifestações de rua, é engraçado que esse acordar está acontecendo paralelamente. O mesmo espaço urbano se usa para dizer o que se quer em reivindicações políticas e em manifestações artísticas, que dizem com arte, fantasia, atitudes, brincadeiras, paródias”.

Estaríamos falando, ainda aqui, de um ganho de cidadania, de algo que pudesse percorrer os dias de carnaval que ainda estavam por vir? Os foliões seriam os silvícolas que “atrapalhavam” os civilizadores que vieram do frio? Ou seriam artífices de uma outra civilização, moldada segundo suas próprias e originais identidades?

 

(Continua em Ciga-Nos, Bloco Soviético: identidade e paródia; reportagem completa em Outros carnavais)

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