No sábado pré-carnavalesco de 30 de janeiro, a cidade velha acorda ensolarada e festiva. Apenas nesse fim de semana, a Prefeitura contabilizará oficialmente 410 mil foliões seguindo prováveis duas centenas de blocos, ainda concentrados mais no centro expandido da cidade que em suas gigantescas periferias. Daí até os últimos blocos pós-carnaval, no sábado 13 e no domingo 14, o órgão público contará 2 milhões de brincantes, em mais de 350 blocos. Para quem está vivendo o carnaval nas ruas, parece que muito, muito, muito mais gente na rua, de dia e de noite.

De volta ao sábado 30 de janeiro, a grande feira das identidades encontra guarida em experiências como o bloco Ciga-Nos, que singra o centro velho da cidade velha harmonizando tradição (músicas ciganas, evolução de mulheres vestidas em trajes típicos) e ressignificação (banda jovem executando músicas de feições tradicionais, trajes híbridos das pré-foliãs e pré-foliões).

Alegorizando o nomadismo dos povos ciganos (e/ou, quiçá, dos índios brasileiros e latino-americanos tantas vezes ditos extintos, embora amplamente misturados e disfarçados na paisagem humana), o bloco acompanha o crescimento dos blocos paulistanos nos últimos quatro anos, propulsionado em 2013 pela gestão do baiano Juca Ferreira, então ex e futuro ministro da Cultura, na secretaria municipal de Cultura.

Acompanhando os Ciga-Nos do asfalto, misturado a qualquer um de nós, está o substituto de Juca na secretaria municipal, Nabil Bonduki, também visto horas antes zanzando pelo Bloco Soviético, um folguedo que há quatro anos vem confundindo cabeças paulistanas tanto no campo dito conservador quanto no campo dito progressista.

A partir de um trocadilho que solda decaídos regimes comunistas fechados com anárquicos festejos brasileiríssimos, o grupo começou mambembe, usando carrinhos de supermercado ou caçamba de automóvel como centros irradiadores de som para uma massa de início tímida e reduzida. Neste ano, pela primeira vez, o Soviético conta com um minitrio elétrico, que não chega a tirar o aspecto mambembe da passeata carnavalesca: o carro inicialmente contratado não chegou, teve de ser substituído às pressas e causou duas horas de atraso ao desfile pelas ruas de Consolação, Higienópolis e Santa Cecília.

Procurado por esta reportagem, o bloco remete a resposta-padrão a todos os pedidos de jornalistas: não dá entrevistas ao PIC, Partido da Imprensa Capitalista (a paródia, aqui, é ao costume entre as esquerdas de apelidar a imprensa comercial conservadora do Brasil de PIG, Partido da Imprensa Governista).

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O Bloco Soviético evolui por Consolação-Higienópolis-Santa Cecília, sem tirar selfie com a polícia – foto Igor Silva

A comunidade de amig@s se diverte vestida de vermelho e cantando paródias de marchinhas tradicionais forradas de slogans de esquerda proferidos de modo irônico (ou não?). A histórica “Mulata Bossa Nova” se transformou no grande hit do Bloco Soviético em 2016, “Reaça Escravocrata”: “Reaça escravocrata/ saiu na passeata/ mas que delícia/ ieieiê, ieieiê ie-iê/ selfie com a polícia”.

Do alto do minitrio, a compositora Cilmara Bedaque, uma das fundadoras do bloco com a companheira Vange Leonel (que morreu em 2014), reage aos ataques sofridos pelo Soviético (muitos deles involuntariamente cômicos): “Querem nos xingar de bicha, maconheiro, sapatão, gorda, feia, velha. Não é xingamento, porque muitos de nós somos isso mesmo, e daí?”.

Ecoam, aqui, as indagações que Daniela Mercury tem aplicado ao carnaval baiano desde que o samba é samba: se brasileiros não gostam se ser indígenas, portugueses, africanos, bichas, maconheiros, sapatões, feias, gordos, velhas, quem são os brasileiros então? Por que, afinal de contas, nós não gostamos de ser nós mesmos?

Ainda que confundindo corações e mentes à direita, à esquerda, ao centro e nas fileiras da Rede Sustentabilidade, o carnaval do Bloco Soviético acrescenta pitadas políticas ao mais puro folguedo. Com alguns sinais de desespero no semblante, @s integrantes descobrem, ano a ano, que seu comportamento tipo esquerda festiva, mesmo implícito e por vezes enigmático, é compreendido por cada vez mais gente, causa empatia em cada vez mais gente.

Nesse domingo pré-carnavalesco de 30 de dezembro, atrai outra multidão às portas do bar e restaurante Tubaína. Mesmo com o atraso e a falta de som, o mar de gente não arreda pé e enlouquece a comissão organizadora ao longo do desfile, pela necessidade de autogerenciamento diante da ausência de apoio da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).

Suada e cansada, aprendendo de pouco em pouco a se reapropriar do espaço (que nunca deveria ter deixado de ser) público, a torcida paulistana inteira grita e se pergunta: carnaval também pode ser passeata?, manifestação também pode ser celebração?, crítica social enigmática pode ser assimilada pelo povão e pelas massas cheirosas?

 

(Continua em Tarado ni Você: acorda cedo, menina!; reportagem completa em Outros carnavais)

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