A cantora e compositora Ana de Hollanda é ex-ministra da Cultura e em seu lugar entra a senadora petista Marta Suplicy. A nova gestão está mais para Gilberto Gil ou Chico Buarque?

Um nome da intelectualidade brasileira disparou um email, logo cedo, com a seguinte frase: “Será que desta vez ela cai?” Naquela hora, as redes sociais já noticiavam a queda de Ana de Hollanda, repercutindo o jornal Folha de S.Paulo. Em pouco tempo, o MinC (Ministério da Cultura) foi parar nos trending topics Brasil, e mais uma vez, por causa dela, a irmã do cantor Chico Buarque. Havia uma dupla comemoração explícita no ar. O fim da gestão de Ana de Hollanda e diante da expectativa de ter pela primeira vez uma mulher ocupando, de fato, a pasta da Cultura, a senadora Marta Suplicy.

Ana de Hollanda (com guarda-chuva), na festa de aniversário da Fundação Cultural Palmares - Foto Bruno Spada/Ministério da Cultura
Ana de Hollanda resistiu bravamente por 21 meses, contrariando todos os críticos que a queriam longe de Brasília. Sua gestão foi considerada por eles como de retrocesso, uma volta ao século 19. Ao interromper o diálogo com personagens fundamentais do mundo contemporâneo, como as pessoas que pensam sobre as novas conectividades em rede, a geração digital e as novas formas colaborativas e distributivas de produção de conteúdo cultural, a ex-ministra optou por representar não a si mesma, mas símbolos e instituições do passado. Como diria seu irmão, em “Bancarrota Blues”: “Ninguém me tira nem por mal/ Mas posso vender/ Deixe algum sinal.”

Comecemos pelo episódio do Creative Commons, uma das primeiras ações da ministra ao assumir a pasta. Ao retirar o selo CC da página oficial do MinC, que regulamenta os direitos do autor de forma mais democrática e contemporânea na internet, ela já sinalizava que se aliava à velha indústria dos direitos autorais.

Ana de Hollanda foi acusada, em meias-denúncias midíaticas (tapiocas?), de ter se empenhado pouco para manter a verba da Cultura, logo no início da gestão Dilma Rousseff. Também no ano passado, a Controladoria Geral da União determinou ainda que a ex-ministra devolvesse cinco diárias que recebeu quando estava no Rio, onde mora, sem compromissos oficiais. Em março deste ano, a Comissão de Ética Pública da Presidência pediu explicações por ela ter recebido camisetas da escola de samba Império Serrano, apenas seis meses após o MinC desbloquear o CNPJ da agremiação.

Mas foi com Ana de Hollanda no País do Ecad, reportagem deste FAROFAFÁ, que ficou evidente haver um descompasso absoluto entre o Brasil do século 19 e o do século 21. A partir de um texto de autoria do jornalista Jotabê Medeiros, iniciamos uma série de reportagens que procuravam discutir a tese de que sua gestão estivesse alinhada aos interesses do poderoso Ecad, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição. A ex-ministra teve de ir ao Senado para se explicar, mas a turma do “deixa-disso” tratou de abafar a situação, inclusive encomendando notas chapas-brancas a articulistas de viés oficioso.

A irmã de Chico Buarque resistiu, mas virou uma figura menor da política cultural brasileira. Fechou-se num clube de poucos apoiadores e passou a tratar apenas de despachos internos, sem ter agenda pública digna de um ministro de Estado. O Brasil real pululava em ações culturais, enquanto o MinC se burocratizava e deixava de lado o papel de indutor.

Serve de exemplo o dia 13 de abril deste ano, quando um evento “aberto” com ministros da cultura da América Latina, aconteceu na Funarte em São Paulo para pouquissimos gatos pingados. O MinC de Ana parecia não querer que o público participasse de suas cerimônias.

O sinal evidente de sua queda, neste fatídico 11 de Setembro (a eterna lembrança do ataque das Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, e o raramente lembrado golpe de Estado no Chile, promovido pelos americanos em 1973), foi quando as Organizações Globo passaram a confirmar a derrocada.

Ana de Hollanda, no Xingu - Foto Cafi/Ministério da Cultura
Quem se der ao trabalho de ler a cobertura do jornal O Globo sobre a triste visita de Ana de Hollanda a Kuarup, em agosto deste ano e na qual ela recusou receber uma carta-manifesto dos Povos do Xingu, verá que até o último momento estavam explícitas as relações para muito além da mera cordialidade entre Ana de Hollanda e as Organizações Globo. Foi pelo jornal da casa que Ana de Hollanda, numa última tentativa de preservar o feudo do século 19 no governo Dilma, divulgou a carta questionando verbas reduzidas para o MinC.

Dias depois, a presidenta Dilma aprovou o maior orçamento da história do MinC, de aproximadamente 5 bilhões de reais, sem emendas, com a ressalva de que 2 bilhões de reais deverão ser destinados a projetos apoiados pela Lei de Incentivo. Mas a notícia era apenas um recado a mais de que Dilma não tolera atitudes de lavar roupa suja em público, como Ana de Hollanda fez ao reclamar de recursos por meio de O Globo. A queda já era certa.

Os críticos estão comemorando a queda de Ana de Hollanda e a ascensão da senadora petista Marta Suplicy. Muitos acreditam que entra em ação o pensamento da filósofa Marilena Chauí, uma importante e histórica intelectual do PT, que subescreveu um manifesto, no qual protestava contra o “despreparo” “dolorosamente evidente” da gestão do MinC para o diálogo e o “embate crítico” com a sociedade.

Marta Suplicy e Fernando Haddad - Foto Paulo Pinto/Blog Pense Novo
Mas o embate não será fácil, nem bonito de se ver nos próximos dias. É verdade que a ex-prefeita de São Paulo tem trânsito no Congresso (onde poderá fazer com que projetos como Vale Cultura tramitem mais rapidamente), é liderança orgânica do PT e tem capacidade de reaproximar o MinC das bases dos movimentos sociais. Pacifica também a relação do ministro com os funcionários e colaboradores da pasta, que viviam às turras com Ana de Hollanda. Imagina-se ainda que leve ao processo inevitável de mudanças da política de gabinete. Uma questão que muito nos interessa: como fica a força do Ecad junto ao MinC?

O porém dessa nomeação é que a escolha de Marta Suplicy, preterida para a disputa em curso para a Prefeitura paulistana, pode ser facilmente (e por direito) associada à sua entrada na campanha de Fernando Haddad, neófito petista em disputas pelo Executivo. O Globo, sempre ele, já alertava pela manhã que “a nomeação de Marta pode ser recompensa“.

FAROFAFÁ acredita que Marta tem mais chances de ser um Gilberto Gil no MinC do que um Buarque de Hollanda.

Nota à imprensa

A presidenta da República, Dilma Rousseff, convidou a senadora Marta Suplicy para ocupar o Ministério da Cultura. Ela substituirá a artista e compositora Ana de Hollanda, a quem a presidenta agradeceu hoje o empenho e os relevantes serviços prestados ao país à frente da pasta desde janeiro de 2011.

Dilma Rousseff manifestou confiança de que Marta Suplicy, que vinha dando importante colaboração ao governo no Senado, dará prosseguimento às políticas públicas e aos projetos que estão transformando a área da Cultura nos últimos anos.

A posse será realizada na próxima quinta-feira 11h.

Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

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1 COMENTÁRIO

  1. A Senadora não vai somar nada na cultura, ela emperrou a quase 2 anos e lei que protege os músicos:

    Autor: DEPUTADO – Gilmar Machado
    Ver imagem das assinaturas
    Ementa: Disciplina a cobrança de couvert artístico e altera a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT, aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, para dispor sobre o trabalho do músico.
    Assunto: Social – Trabalho e emprego
    Data de apresentação: 28/10/2009
    Situação atual:
    Local:
    30/08/2012 – SUBSEC. COORDENAÇÃO LEGISLATIVA DO SENADO

    Situação:
    30/08/2012 – INCLUIDO REQUERIMENTO EM ORDEM DO DIA DA SESSÃO DELIBERATIVA
    Matérias relacionadas: RAS – REQUERIMENTO DA COMISSÃO DE ASSUNTOS SOCIAIS 44 de 2012 (Senadora Marta Suplicy)
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    RQS – REQUERIMENTO 767 de 2012 (Senador Zeze Perrella)
    Outros números:
    Origem no Legislativo:
    CD PL. 02094 / 2007
    Indexação da matéria:
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