Como um episódio lamentável envolvendo a banda Charlie Brown Jr. pode se tornar ainda pior com um pedido de desculpas interessadas apenas no negócio e em contratos e não na música

Diz o ditado que em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. Já que é assim, vamos então falar do barraco entre Chorão e Champignon, vocalista e baixista da banda (ainda banda?) Charlie Brown Jr. O primeiro humilhou o segundo num show em Apucarana, interior do Paraná, no sábado dia 8. Foram quase cinco minutos de, como disseram aqui e acolá, um “esporro” sem precedentes, um “esculacho de um c…”, e que só vieram a público porque alguém filmou e postou o vídeo no YouTube. Poucas vezes se viu algo tão privado de um grupo musical se tornar tão explícito e vergonhoso.

O áudio não é dos melhores. Eis alguns dos ataques de Chorão: “Você voltou por causa de dinheiro, não voltou porque queria tocar no Charlie Brown Jr.”, “Eu fui muito injustiçado. Meu filho apanhou na escola por causa disso, passaram na porta da minha casa me xingando, mas não corri” e “Ele tentou duas vezes e quando tudo acabou foi bater na minha porta. Eu aceitei o cara. Gostava dele. Mas infelizmente o cara não admite que fez uma pá de merda, porque não quer que vocês achem que ele tem defeito”.

Na sequência, Champignon abandona o show. A plateia ensaia um “arregou, arregou”, como se parte do público quisesse ver sangue no palco. A história poderia terminar aqui, não fosse o fã que gravou o vídeo acima. Mas a repercussão no YouTube contra o vocalista da banda foi virulenta: “Esse Chorão é um lixo”, “CBJR acabou em meados de 2003. Já era!!!”, “Se ele tinha alguma razão, acabou de perder”, “Covardia usar o poder do microfone” e “Ele não é líder de porra nenhuma”. Chorão virou trending topics, a maioria esmagadora deles condenando a atitude do vocalista e ex-skatista profissional.

No início da noite de segunda-feira, dia 11, quando as redes sociais já partiam para sepultar Chorão, aparece um novo vídeo no YouTube, divulgado pela própria banda Charlie Brown Jr. Chorão e Champignon, consternados um com a presença do outro, sentam-se lado a lado e pedem desculpas pelo episódio. E prometem manter a agenda de shows, sem ao menos um olhar nos olhos do outro. A emenda fica pior que o soneto. Poucas vezes se viu cenas de raro oportunismo quanto nesse pedido de desculpas. Seria mais honesto se dissessem: “Por favor, continuem indo a nossos shows, a gente só precisa do dinheiro de vocês.”

O vídeo oficial de desculpas fechou o espaço para comentários, diferente do vídeo do fã. Ninguém podia meter a colher nessa briga, determinou de forma autoritária a banda. De um grupo musical, de qualquer gênero, o que se espera é, acima de tudo, honestidade com a arte que produz. Ao querer lavar roupa suja na frente de todos, Chorão acaba por deslegitimar suas próprias canções, porque torna o lado mercantil mais importante do que a obra em si. Alguém consegue acreditar que, num próximo show, Chorão e Champignon estarão ali por amizade ou apenas por pura conveniência?

Charlie Brown Jr. é uma das bandas que simbolizam a geração “Malhação”, seriado da Rede Globo para o público teen. Grupo de rock de Santos, cuja formação original, em 1995, era Chorão (Alexandre Magno Abrão, voz), Champignon (Luis Carlos Leão Duarte: baixo), Marcão (Marco Antônio Valentim, guitarra), Thiago Rafael Castanho (guitarra), e Pelado (Renato Peres Barros, bateria). Em 2005, Marcão, Pelado e Champignon deixaram o grupo, o que fez muitos de seus fãs temerem pelo seu fim. Mas a banda continuou, e Champignon voltou ao CBJR havia um ano.

As atitudes destemperadas de Chorão não deveriam causar surpresa a ninguém. Em 2004, ele chegou a agredir fisicamente a cabeçadas Marcelo Camelo, vocalista da banda Los Hermanos, depois que este o criticou por participar de uma campanha publicitária de um refrigerante. Para quem imaginava que nada pior pudesse acontecer, Chorão já avisava que o coro vai comê (“Meu tu não sabe o que aconteceu!/ Os caras do Charlie Brown invadiram a cidade!/ Junte sua mãe, seu cachorro e sua sogra/ Traga todo mundo o coro vai comê!”). O coro comeu, Chorão, mas de um jeito em que todos perderam para sempre, sobretudo seus fãs.

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