Ele era um dos maiores cantores brasileiros, e poucos percebiam que ainda estava vivo até a madrugada deste domingo, 9 de setembro de 2012, quando o carioca Roberto Silva morreu, aos 92 anos, com a mesma discrição que sempre lhe foi peculiar. Entre aqueles não muitos brasileiros que sabiam e sabem — bem — de sua existência estão João Gilberto, papa da bossa nova, e Paulinho da Viola, ás do samba ao qual Roberto também se filiava.

A propósito, o “príncipe do samba” (como chegou a ser conhecido) estabelecia na própria voz um miraculoso elo perdido e ponto de confluência entre o samba antigo à moda de Orlando Silva, a bossa nova revolucionária de João e o samba moderno conforme reinventado por Paulinho.

Méritos à parte, poucos de nós que aqui estamos sabíamos ou nos lembrávamos da existência de Roberto Silva. Nesse caso, nem era propriamente culpa do utilitarismo na indústria musical. Bem ou mal, a gravadora EMI, detentora de grande parte do catálogo do artista, andou relançando diversas vezes a magnífica série Descendo o Morro, concebida por Roberto, em quatro volumes, entre 1958 e 1961.

Por sua voz mansa passaram, nesses discos, clássicos atemporais do samba, como “Agora É Cinza”, “A Voz do Samba”, “Falsa Baiana”, “Curare” e “Errei, Erramos”, “Boogie Woogie na Favela”, “Pisei num Despacho” e outras que o tempo colocaria em relativo desuso, por machistas (“Ai Que Saudades da Amélia”, “Risoleta”) ou racistas (“Escurinho”) demais.

 

 

Tais LPs coexistiram no tempo com o advento musical e discográfico de João Gilberto (que regravaria umas tantas, como “Agora É Cinza”, “Falsa Baiana” e “Curare”). A voz macia de Roberto não chegava a ser o sussurro aveludado do discípulo, mas já indicava, dentro dos formatos ortodoxos do samba,as trilhas que a canção brasileira seguiria ao abdicar dos dós de peito de Orlando, Francisco Alves, Nelson Gonçalves e Cauby Peixoto rumo aos fios de voz de João, Paulinho, Roberto Carlos e Caetano Veloso. Roberto ficou suspenso pela memória, talvez pelo fato de ter chegado nem cedo nem tarde, de ter ficado na estrada nalgum ponto perdido à beira dos caminhos.

Há um outro fator, menos musical, no caso de o “príncipe do samba” ter perdido a coroa durante a cavalgada. Do golpe militar de 1964 em diante, Roberto cerrou fileiras no quase sempre camuflado exército dos conservadores. Apoiou a ditadura (e não foi nem de longe o único a fazê-lo), mas apoiou também em música, transcrevendo ideologia para o ambiente etéreo e quase sempre escorregadio do dó-ré-mi.

Em 1970, quando o Brasil já marchava pesadamente para o obscurantismo da violência institucional e da tortura, Roberto lançou um disco chamado Protesto ao Protesto. “Hoje em dia/ falam tanto de protesto/ lanço aqui meu manifesto/ já é tempo de parar/ vamos ajudar ao presidente/ a enfrentar firme o batente/ para o Brasil melhorar”, cantava na faixa-título, confirmando apoio irrestrito ao sanguinário general Emílio Garrastazu Medici, empossado sem eleição em 30 de outubro de 1969.

Ainda que muitos artistas, músicos, cantores (e cidadãos em geral) fossem à época (ou hoje) tão conservadores quanto Roberto, a postura reacionária explícita deve ter ajudado a provocar o silêncio que se abateu nas décadas seguintes sobre ele (e sobre qualquer artista que se posicionasse publicamente à direita). Embora vivamos em democracia desde a eleição presidencial de Fernando Collor, em 1989, posicionamento político segue sendo um tabu até os dias atuais, quando direitistas e esquerdistas se unem no silêncio diligente sobre quem são, para júbilo silencioso daqueles obscurantistas que adoram dizer que direita e esquerda são coisas que não existem na vida real.

Por ideologia ou por outras razões, o Brasil supostamente progressita calou-se sobre o que havia de bom na obra do ex-príncipe. Eu, que tento ser de esquerda e também era fã do direitista (será?) Roberto Silva, fico hoje com saudade de sua voz e do dia em que o entrevistei no Rio, no já longínquo 1999.

Se for reouvi-lo, empaco mais uma vez diante de “Protesto ao Protesto”, manifesto talvez de um brasileiro “comum” apavorado com o risco de voltar a tempos bem conhecidos de pobreza e abandono: “Eu sou bom brasileiro de verdade/ falo com sinceridade/ do fundo do coração/ sinto uma tristeza tão medonha/ morro louco de vergonha/ não aceito isto, não/ ouço falar muito do passado/ por quem muito se esquece/ que a miséria já sofreu/ hoje a vida é de bonança/ não se vive de esperança/ vamos dar graças a Deus”.

Voltando à entrevista de 1999 para a Folha de São Paulo, me encontro com as palavras resignadas de Roberto Silva aos 79 anos, que usei para encerrar aquele texto, e que parecem  servir com justeza para encerrar o de hoje: “Não recebo mais propostas,mas para mim não há tristeza, só há alegria. É assim, o que se pode fazer? O ruim é não conseguir fazer o que fiz. Faço show, dou entrevistas. Fui além do que esperava. Tristeza é não ser procurado, viver na solidão. Aí você pode até morrer”.

(Texto publicado originalmente no blog Ultrapop, do Yahoo! Brasil.)

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