O incrível ano de 2026 propiciou para mim uma experiência inédita em quase 60 anos de vida: circular pela cidade de São Paulo agitando livremente uma bandeira vermelha do Partido dos Trabalhadores, apanhada num comitê de distribuição de materiais de campanha montado numa boate da Rua Augusta, na região central da capital. Esse ato teve um resultado inesperado, surpreendente e revigorante para mim: em todas as manifestações de rua de que participei no primeiro e no segundo turno, várias pessoas vieram até mim pedindo minha bandeira emprestada para tirar fotografias.
Emprestei a quase cinquentona estrela do PT para pessoas negras, gays, uma travesti e, sobretudo, jovens brasileiros de todos os gêneros e nichos. Me espantei e me emocionei a cada novo pedido de empréstimo de minha bandeira, principalmente porque conheço muito bem o pavor que a gente sentiu ao portar qualquer emblema político de esquerda durante o intervalo 2013-2022, e além.
Invariavelmente, os fotografados festivos e fanfarrões simularam fugir (perdão pelo verbo) com minha bandeira, mas a devolveram com prazer e enormes sorrisos nos rostos. Pela percepção própria, ouso suspeitar que a surrada bandeira vermelha petista fez mais sucesso, nas manifestações de rua deste ano, que bandeira do arco-íris em dia de Parada do Orgulho LGBT.
Até este surpreendente ano de 2026, por um longo período pareceu que era crime sequer mencionar a possibilidade longínqua de se auto-afirmar “petista”. Atravessei toda a floresta, em momentos de maior ou menor onda de rejeição, fosse depois do chamado Mensalão (com alguma hesitação), fosse durante a chamada Lava Jato (sem um segundo sequer de hesitação), fosse durante o golpe que culminou no impeachment da presidente Dilma Rousseff, e assim por diante. Muitos (mas não todos) que repudiaram o termo “golpe” em 2016 seguem até hoje tentando aplicar sucessivos golpes enquanto rejeitam veementemente a ideia-força de serem golpistas.
O que aconteceu nas ruas (antes que nas redes) no ano de 2026 foi para mim totalmente surpreendente (nunca fui grande entendedor das artimanhas da política, e pelo jeito continuo não sendo). Nem nos meus melhores sonhos e delírios jamais ousei imaginar o Brasil tingido de vermelho outra vez, muito menos na intensidade com que aconteceu em 2026.
Até hoje tenho dificuldade de assimilar o que aconteceu para que atravessássemos um arco fabuloso que partiu nas palavras de ordem de “sem partido!” e “sem bandeira!” de 2013 e chega agora num mar vermelho fluindo livremente de norte a sul do Brasil e na quarta reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência da República.
Tolo sou, porque o ex-sertanejo pernambucano já tinha avisado que isso ia acontecer, no dia de sua prisão no triste sábado, 7 de abril de 2018, em São Bernardo do Campo (eu estava lá, no meio da multidinha anônima e provavelmente – não me lembro ao certo – vestindo minha camiseta verde estampada com a figura da jovem Dilma). Em 2018, às vésperas do assalto protofascista que começou no golpe anti-Dilma e corroeu o país nos anos seguintes, Lula fez seu último discurso antes de atravessar 580 dias de cárcere. Nele, narrou tintim por tintim o que iria acontecer no ano de 2026, no seguinte trecho:
Lula 2018: “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia, uma ideia misturada com as ideias de vocês”
No mesmo discurso de oito anos atrás, Lula explicou por que não iria se exilar em algum país amigo e muito menos fugir do Brasil, em termos bastante elucidativos para estes dias que sucedem a re-re-re-reeleição em 2026. Voltemos então para este ano e para a história da bandeira, das bandeiras.
Duas razões além de medo, covardia etc. ajudam a explicar o fato de eu me negar por tanto tempo a empunhar uma bandeira vermelha. Por ter o jornalismo como profissão e meio de sustento, eu seguia o receituário aprendido por osmose na redação do jornal Folha de S. Paulo, nas décadas de 1990 e 2000. Ninguém nos falava, mas sabíamos “naturalmente” que não devíamos a) nos filiar a qualquer partido (e tente imaginar se fossem os de esquerda) e b) menos ainda andar por aí com adesivos camiseta, estrelinha, panfleto ou qualquer coisa que identificasse partido político (se fosse o PT, então, era suicídio jornalístico certo).
O primeiro princípio segui à risca. Jamais me filiei ao PT, apesar de ser petista entusiasmado desde, no mínimo, 1989, quando, aos 21 anos, votei pela primeira vez na vida, no PT e em Lula da Silva. A segunda prerrogativa comecei a desafiar ainda trabalhando na Folha, em 2002, enquanto militava envergonhadamente por Lula e ia para a Avenida Paulista ainda timidamente pintado de vermelho no dia dos festejos pela primeira chegada do ex-operário e político pernambucano-paulista à presidência da República.
Eu, até então extremamente ignorante em termos políticos, comecei a me sentir deslocado dentro da Folha (e da mídia ultra-corporativa e corporativista em geral). Isso piorou muito assim que Lula tomou posse e assim que o dono/diretor de redação do jornal anunciou aos profissionais da casa que passaríamos por uma “travessia do deserto” durante os quatro anos de mandato do ex-metalúrgico (se é que esse mandato duraria tantos anos).
Ora, como poderia eu participar de uma travessia de deserto exatamente quando queria desfrutar o privilégio de viver alguns anos em um oásis, vindo de uma trajetória de menino nascido em ditadura civil-militar (no fatídico 1968)? Fui embora da Folha no final de 2004 (inicialmente rumo à revista CartaCapital, de imagem contra-hegemônica dentro da imprensa nacional). E nunca mais pisei numa redação da mídia corporativa. Paguei caro por isso, continuo pagando, mas é aí que volto mais uma vez, cheio de contentamento, à bandeira vermelha do PT e aos rios e mares vermelhos das ruas brasileiras em 2026, do rio ao mar.
Um mesmo núcleo duro ocupou o poder no Brasil desde o golpe fundador dado por europeus nas populações originárias do continente que os colonizadores viriam a chamar de América (em homenagem, óbvio, a um europeu) até a chegada de Lula em 2002. Aqui em 2026, mesmo depois de seis vitórias eleitorais petistas em sete eleições presidenciais, esse núcleo duro hoje estadunidense-israelense-europeu continua ocupando nacos robustos, substanciais, majoritários da sociedade brasileira, seja por via direta, seja pela ação de capitães-de-mato (apenas) nascidos em território nacional.
Esse núcleo duro sempre inculcou a retórica obsessiva sobre “não levantar bandeiras”, não só na política crua, mas a inúmeros grupos ditos minoritários dentro do país. Para esse maciço masculino, branco e sexualmente normativo (pelo menos na frente das câmeras), mulheres não devem levantar bandeiras sobre o núcleo mole (será mesmo?) de suas próprias identidades – o mesmo vale para negros, indígenas, LGBTs, jornalistas, trabalhadores, trabalhadores sem terra e sem teto, muçulmanos, palestinos, candomblecistas, umbandistas, artistas de televisão, compositores e intérpretes de canções de protesto etc. etc. etc.
A ordem para que não levantemos bandeira parte de cima e é irrevogável, segundo os donos do mundo, hoje liderados pela ameba alaranjada que governa os Estados Unidos e os autodenominados “americanos”, ou seja, os estadunidenses que moram na casa-grande de que acreditam sermos nós, da América Latina, a senzala.
Vai daí que em 2026 eu saí com minha bandeira querida (uma delas), sempre consciente de que não estou infringindo nenhuma lei jornalística (pelo menos não as leis impostas pelos núcleos duros formados por aqueles que querem no mínimo me escravizar e no máximo me exterminar).
É óbvio que essa transmutação não se deu à toa – minha coragem aumentou conforme eu via, estupefato, as ruas brasileiras serem tomadas por militantes antifascistas vestidos ou não de vermelho, mas unidos em torno de uma ou duas ideias centrais e mais numerosos a cada novo dia. Uma observação: não aconteceu apenas no segundo turno, como os porta-vozes do núcleo duro martelam todo dia nos jornais, na TV e nas big techs; o primeiro turno já tinha começado a lavar nossas almas encardidas.
Em 2026, a ladainha dos “sem-bandeira” ruiu em vários sentidos, concretos ou simbólicos – para minha modesta sensibilidade, a bandeira que mais reluziu neste ano foi a dos povos indígenas, que inundaram as redes sociais pintados com as cores de suas etnias, em deslumbrantes vídeos de adesão – individuais, em pequenos grupos, em comunidades bem definidas e em massa – à campanha lulista.
Em pleno campo de batalha, os arautos do sem-bandeirismo permanecem tentando conter o estouro da boiada, do qual só escapavam até este ano os portadores das cores da bandeira brasileira. Entre esses, desde 2013, se intrometeu uma horda de sequestradores do verde-amarelo, que passaram a engrossar dia após dia as hostes do fascismo, materializados nas ruas como os mesmos que gritam “nossa bandeira jamais será vermelha” enquanto se submetem servilmente à bandeira – vermelha – dos Estados Unidos da América (do Norte).
Como bem sabemos, foi também em 2026 que o político mineiro de origem popular André Janones ajudou a escancarar as trapaças do núcleo duro. Comandando uma louca estratégia Vietnã-Bacurau, Janones desvendou especificamente a metodologia do mais insidioso dos modelos atuais de fascismo: aquele que brota das entranhas das big techs, estrovengas operadoras de bets e outros tigrinhos e operadas pelo núcleo minúsculo e duríssimo formado pelos poucos e péssimos bilionários que habitam o planeta Terra.
São esses os caras que sempre nos barraram de sequer pensar em usar qualquer bandeira que não seja a deles. São também esses caras que tiveram de assistir, desprevenidos, à eclosão de uma multidão de brasileiros com-bandeira ocupando ruas que nem acreditávamos que pudessem ser nossas outra vez, essas ruas que são nossos rios, do rio ao mar. Não por acaso, Janones, com seus hoje cerca de 11 milhões de afiliados, embolou o meio-de-campo e causou verdadeiro bug no sistema convocando o “exército” vermelho a se reapropriar em massa das cores-irmãs verdes e amarelas.
As ruas, a partir daquele sábado, 11 de outubro, se embaralharam, nos reconstituíram ocmo semi-anônimos uns para os outros e nos harmonizaram, numa mistura viva de vermelho, verde, amarelo, roxo, fúcsia etc. É a primavera de que falava Lula (não um profeta, apenas um homem inteligente) à beira do precipício carcerário de 2018. Florida e multicolorida, como toda primavera.

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